
II
S. Pedro recebeu-o de braços abertos.
– Olá, seu Matias! Meu caro amigo! Este céusinho é todo seu. Há muito que tinha cá o seu lugar garantido e faça de conta que está em sua casa.
Matias, muito lisonjeado com este acolhimento, tratou de aproveitar a maré e explicou o caso a S. Pedro.
– Ó velhinho, disse-lhe este, tem paciência; mas bem sabes que isso de milagres não é a minha especialidade e nem sei como se fazem. Para mais, tenho aqui um trabalho de seiscentos anjos: conferir os registos de entrada, negar entradas de favor, etc., etc. Quem podia ocupar-se do assunto era Santo António, que é taumaturgo de nascença e faz milagres como quem bebe água. Mora ali adiante, ao pé de uma fonte, que há logo à esquerda, virando deste paraíso para a direita.
O Matias foi lá. Santo António, de quem sempre fora devoto na terra, acolheu-o o melhor que possível, ouviu a história; mas por fim, um tanto embaraçado, confessou:
– Meu caro Matias, eu realmente fiz alguns milagres salvando o meu pai da forca, falando aos peixinhos, fazendo vicejar as vides mortas; mas aqui para nós, a minha capacidade milagreira não chega para este caso. Mais fácil me seria partir e concertar as bilhas das onze mil virgens do que convencer um democrático de boa tinta a deixar fazer uma procissão. Isso só Deus Padre, que tudo pode e tudo manda… Peça-lhe você uma audiência e verá o que Ele diz.
Matias pediu a S. Contínuo para ser recebido por Deus Padre e, ao cabo de algum tempo, foi levado por S. Servente à divina presença. Deus Padre estava atarefadíssimo a assinar o expediente das várias direcções gerais do Universo e, tendo prestado um ouvido um tanto distraído à exposição do suplicante, no remate disse-lhe paternalmente:
– Você vê-me aqui cheio de afazeres, tendo que acudir a toda esta obra formidável da Criação, e vem-me falar da sua aldeia, um infinitamente pequeno desse grão de areia invisível chamado a Terra, que Eu mal sei onde pára na confusão tremenda do Infinito…
O pobre Matias sentia-se muito pouco à vontade diante do Supremo Arquitecto do Universo, que, sorrindo, o despediu dizendo:
– Ó Matias, tenha paciência: mas, visto tratar-se de um assunto de mulheres, porque não se entende você com Nossa Senhora?…
– É boa ideia, é,- concordou o Matias. – Com licença de vossa divindade…
E foi à procura de Nossa Senhora, por quem tivera sempre o maior afecto e devoção, cujo andor carretara muita vez nos tempos em que cada qual podia à vontade carregar com o que lhe apetecesse e cuja imagem pendurara sempre à cabeceira dos seus filhos, para Ela os guiasse e lhes desse boa sorte.
Nossa Senhora – como diz a cantiga popular – estava fazendo meia com linha feita de luz e um novelo de lua cheia…
Matias beijou-lhe com unção a fimbria da túnica modesta e puríssima e explicou o seu caso. Nossa Senhora ouviu-o e, ao cabo da história, teve um sorriso de infinito doçura para dizer ao seu velho devoto, que a mirava extasiado:
– Meu bom Matias! Nunca fui na terra senão uma simples mulher, que Deus houve por bem escolher para Mãe do seu filho. Nunca fui senão isso: uma mãe. Do curral de Bethlem à cruz do Calvário, só vivi para o meu Jesus e não entendo nada de política. Nem sei mesmo como uma mulher se pode interessar por essas tolices, quando haja em casa um berço para embalar e linho para fiar. Aqui no Céu, sou para ouvir os que choram e não para atender os que discutem. Fala, portanto, a meu Filho. Ninguém melhor do que ele conhece os homens por quem se sacrificou e morreu, como sabes…
E lá foi o nosso Matias à procura de Jesus Cristo.
7 de Janeiro de 1923
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Para ler a parte I de A Procissão de S. Gonçalo, publicada em A Viagem dos Argonautas no domingo, 16 de Março, às 9.00, vá ao link:
OS MEUS DOMINGOS – A PROCISSÃO DE S. GONÇALO – por ANDRÉ BRUN

