MADRUGADA DE 29 DE MARÇO DE 2014, 40 ANOS A CANTAR ABRIL por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Hoje cantou-se, como há quarenta anos atrás, “Grândola Vila Morena”.

O Coliseu de Lisboa estava cheio de cravos vermelhos, de pessoas a recordar velhos tempos, de grupos que espontaneamente cantavam “O Povo Unido Jamais Será Vencido”.

Aqueles que outrora tinham cabelos compridos, apareciam agora com os cabelos brancos, mas mais curtos, e agora com mais “barriguinha”, aquelas que outrora tinham cabelos compridos e cinturas estreitas aparecem agora com os cabelos brancos (algumas) e um pouco mais “gordinhas”.

A Natureza seguiu e cumpriu o que deveria, florescer os corpos e depois envelhecê-los.

Os corpos envelheceram, mas as gargantas mantêm-se prontas a cantar músicas contestatárias de há 40 anos e que parecem ter sido escritas anteontem.

Quem duvida que as canções do Zeca Afonso são ainda actuais?

Os Vampiros continuam a comer tudo e a não deixar nada.

O que está a fazer falta ao povo português? Agitar a malta …..é dar poder à malta.

Por momentos sentia a alegria do tempo da Revolução, a capacidade de sonhar que íamos mudar a sociedade, que Fascismo nunca mais, que direitos adquiridos eram para sempre, fazendo jus aos Direitos Humanos, até então esquecidos.

Confesso que me emocionei ao ver as imagens que passavam por trás do palco com o Zeca, ainda cheio de vida a encher-nos a alma de esperança.

E a esperança aconteceu no dia 25 de Abril de 1974 em que as rádios abriram livremente os microfones para encher o ar de Liberdade, em que a televisão abria com comunicados do MFA, em que os capitães de Abril conseguiram, sem sangue, derrubar a ditadura, e juntamente com os seus jovens e anónimos soldados devolver a Liberdade a todos nós.

25 de Abril foi o que melhor que me aconteceu, em termos sociais, na minha vida, tinha eu 19 anos.

Passados estes anos de Cavacos e de Passos Coelhos há que inventar outro 25 de Abril feito pelos mais jovens, com as suas preocupações e os seus ideais, tendo nós a capacidade de perceber que temos que ser seus aliados na busca da Liberdade, da Igualdade de Direitos e na defesa dos mais fracos.

Em 1970 comprei um livro na Feira do Livro, no Porto, de Sophia de Mello Breyner.

Era das Publicações D. Quixote, Cadernos de Poesia.

 PRANTO PELO DIA DE HOJE
 Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem escritas
Sophia de Mello Breyner “Grades”
in Cadernos de Poesia,1970

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