Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
3. Ucrânia: as contorções do Ocidente – o anti-Putinismo decididamente não é uma política
Daoud Boughezala
Revista Causeur, publicado a 17 Março de 2014
Quase que não se fala de mais nada, apenas disto. Desde há um mês, o destino dos tártaros na Crimeia e a situação dos oponentes reunidos na praça Maïdan Kiev já não são mais nenhum segredo para o telespectador assíduo das cadeias de noticiários de França. Derrube do presidente corrupto Ianoukovitch seguido da libertação da antiga primeiro ministro Timochenko, ordenada pelo Parlamento, encheram as velas do romantismo revolucionário, sem que os apologistas da separação dos poderes tenham alguma coisa a dizer. No entanto, sem mesmo estar a mencionar as nostalgias pro-nazis de um terço dos novos ministros, há algo de constitucionalmente podre na transição ucraniana.
Jacques Sapir colocou magistralmente em relevo o paradoxo ocidental face às veleidades independentistas da Crimeia. De duas coisas uma, ou se considera que a destituição de Iakounovitch pela Rada ucraniana a 22 de Fevereiro tem a ver e significa o derrube legitimamente democrático e, neste caso, a ordem constitucional existente não tem nenhum enquadramento legal, o que autoriza cada uma das regiões do país a exercer o seu direito à autodeterminação. Neste caso, deixa de haver integridade territorial que se defenda. Alternativamente, considera-se a mudança de poder feita como tendo sido um golpe de Estado, Iakounovitch foi democraticamente eleito ao surfar sobre o descontentamento popular que varreu uma Revolução cor de laranja igualmente tão corrupta como ele próprio, e neste caso as diplomacias ocidentais não deveriam ter reconhecido o novo governo ucraniano. Resumidamente, ou há indignação face ao referendo na Crimeia ou então um romance de amor com as novas autoridades Kiev. Entre as duas atitudes, é necessário escolher.
A fortiori se as suspeitas emitidas pelo muito sério Guardian (que é o diário liberal de referência da esquerda no Reino Unido, não o jornal íntimo de Thierry Meyssan!) se revelarem fundadas: atiradores emboscados colocados na praça Maïdan teriam executado friamente dezenas de pacíficos opositores unicamente com a intenção de provocar a queda de Ianoukovitch semeando o caos. Estes agentes provocadores teriam sido apoiados pela União europeia e pelas ONG americanas “pro-democracia”, como o dá a entender uma conversa telefónica entre o chefe da diplomacia europeia Catherine Ashton e o seu homólogo da Estónia? Sou habitualmente hermético às teorias da conspiração mas o silêncio dos principais interessados, que se protegem em não comentar esta importante e convincente peça, deixa-nos pelo menos pensar. Na cabeça dos nossos governantes, a guerra fria nunca esteve longe. Quando o sistema antimísseis dirigido contra a Rússia se encontra a Oeste e os pacifistas a Leste, o fantasma do papão russo assombra as consciências ocidentais já elas repletas de comportamento pavloviano. Com três décadas de atraso, vêm-nos agora com o refrão da ocupação soviética do Afeganistão, com os nacionalistas ucranianos a retomarem o papel dos jihadistes apoiados pelo Ocidente. É esquecer que a História nunca repassa os pratos, ou seja, nunca se repete e da mesma maneira. Para além da natureza intrinsecamente russa da Crimeia, que um decreto de Khrouchtchev uniu arbitrariamente à Ucrânia em 1954, o direito dos povos a disporem deles mesmos deveria convencer os grandes democratas ocidentais do bem-fundado desejo de união à Rússia expresso por 93% dos habitantes da Crimeia. Que a grande maioria dos moradores de Simferopol, Sebastopol e Yalta prefira confraternizar com as tropas russas estacionamento na região, em vez de preferirem apostar na renovação democrática de Kiev deve questionar-nos. Uma das primeiras medidas aprovadas pela Assembleia revolucionária post-Maidan foi o reconhecimento dos ucranianos como a única língua oficial, com o desprezo total por milhões de pessoas de língua russa e das minorias húngaras que fazem a riqueza do berço histórico da Rússia. Os ucranianos do Leste, já vítimas de uma ucranização cultural e linguística de marchas forçada sob os anos de Ioutchenko,, compreenderam bem a mensagem: os ultra-nacionalistas jacobinos querem-nos colocar a marcar passou ou até mesmo a eliminá-los.
Certamente teria muito a dizer sobre a casta política que ocupa o Kremlin. Vladimir Putin fez a fortuna dos oligarcas, enquanto que os seus cidadãos se tornam cada vez mais pobres, a actividade económica estagnada fora de Moscou e zonas para extracção de petróleo ou de gás. O seu modelo de desenvolvimento ultra-produtivista, deve, provavelmente, mais à União Soviética do que ao seu projecto de poder e de relações internacionais, herdadas do século XIX. Se a ditadura de Putin fosse tão insustentável, deixando, no entanto, alguns espumosos jornalistas de televisão e dezenas de milhares de manifestantes manifestarem-se contra a anexação da Crimeia, a aspiração dos ucranianos no Oriente para se juntar ao grande irmão russo poderia levar a que a situação pareça então ainda mais confusa. Em Sebastopol como em Donetsk, as pessoas já não podem mais. Eles vêem a sua salvação no suposto jugo de Poutin e sonham recuperar empregos e dignidade. Haverá necessidade de os estar a culpar?
Revista Le Causeur, Ukraine : les contorsions de l’Occident-L’anti-poutinisme n’est décidément pas une politique,
Texto disponível em :
http://www.causeur.fr/ukraine-crimee-poutine-russie,26657
*Photo : Max Vetrov/AP/SIPA. AP21540919_000155.



Desculpem-me, amigos, mas eu sou pelo direito à “desunião” europeia e pelo direito à moeda nacional! lol