Ele chegou dormindo, sentado no carrinho, cabeça pendendo sobre o peito úmido de baba.
De acordo com o pai, embrulhado para presente: camiseta em listas vermelhas e pretas, meias idem, fralda estampada com pequenos escudos rubro-negros.
A mãe largou três sacolas no sofá, ajeitou o carrinho para a posição deitado, levou frutas, mamadeira, copinhos para a cozinha, enquanto recomendava horários, verificações freqüentes porque “ele vai fazer cocô” e, num tom entre autoritário e temeroso, “não tire os olhos dele nem por um segundo”.
Eu ia dizer pode deixar, vou cuidar direitinho, mas meu cunhado já voltava do quarto abraçado ao meu namorado, os dois cobertos pela bandeira, desafinando o hino. Pedi silêncio com o dedo nos lábios. Eles diminuíram o volume, me beijaram o rosto, envolveram minha irmã no manto sagrado e a levaram de arrasto corredor afora, ela deixando um olhar comprido no filho e uma última recomendação, “qualquer coisa liga pro meu celular”.
Está certo. É final de campeonato, os três são fanáticos, eu não ligo para futebol, nem sei qual é o adversário, apesar deles falarem nisso noite e dia. Tomar conta do garoto por algumas horas não me custa e não há de ser difícil.
Só muito suspeito. O natural e seguro seria deixá-lo, como de costume, com uma das avós, novas e sau-dáveis, capazes de bater boca por duas ou três gargalhadas dele.
Mas o atraso na minha menstruação, de quase um mês, aparentemente já havia se espalhado pela torcida do Flamengo.
Eu gostaria de saber como isso acontece. Embora, é claro, eu saiba. Namorado ávido por transmitir sua herança genética, irmã em busca de companhia para noites em claro e manhãs cheias de orgulho no parquinho.
Ter filhos é a última das minhas prioridades. Decisão pessoal, nada a ver com política, aquecimento global ou superpopulação. Muito menos renúncia à minha condição de mulher.Também não é um dogma. Um dia posso amanhecer louca para estar grávida, vai saber. Por enquanto, não. Crianças simplesmente não me fascinam.
O melhor a fazer é mantê-las dormindo o maior tempo possível.
Quinze minutos. Ele acordou, se remexeu, olhou para cima, me encontrou. Levantei o polegar, sorri um sorriso engraçadinho e falei o de sempre “oi, pequeno, beleza?”. Ele se sentou, checou o entorno com atenção e de repente seu rosto pareceu se derreter, as bochechas vermelhas, cobertas por uma cachoeira de lágrimas, balbuciando mamãs entrecortados por soluços.
Tentei explicar, “mamãe maracanã, papai, titio”, de pouco adiantou, ele se esticou no fundo do carro, esperneou, ensopou o travesseiro de choro e de ranho. Peguei-o no colo, antes que se afogasse na própria meleca, senti um cheirinho de amônia, a fralda pesada de xixi. Como uma criatura deste tamanho pode produzir tanto líquido?
Tirei camiseta, meias, fralda, coloquei-o em pé, nu, dentro do tanque, tive medo de me afastar para acender o gás, abri a torneira, água fria no rosto e na bunda.
Ele adorou. Me mostrou os quatro dentes, espalmou água para todos os lados, só reclamou quando o enrolei na toalha e acabei com a brincadeira. Enxuguei, passei pomada, talco. Por não saber como ajeitar o peruzinho, deixei a fralda meio frouxa, a natureza seguisse seu curso.
Espalhei a sacola de brinquedos no tapete da sala, entronizei-o no centro exato da bagunça.
Ele afastou tambor, feras peludas, bola. Engatinhou até a borda do sofá, se levantou, mãos apoiadas na minha perna.
Dois segundos depois, percebi o significado da pose de estátua com cara vermelha. O ar apodreceu. Pulei do sofá, garoto seguro pelas axilas, prendi a respiração e só voltei a aspirar, área de serviço ainda empestada, com ele novamente pelado dentro do tanque, fralda suja embrulhada em três sacos plásticos, na lata de lixo fechada.
Enquanto repetia, com mais rigor e um bocado de nojo, confesso, a limpeza da bunda rechonchuda, pensei na tal guerra nuclear capaz de exterminar a humanidade. Se demorar demais, vamos nos soterrar nos nossos próprios detritos. Não tinha graça nenhuma, mas o pequeno ria tanto que eu acabei me divertindo também, apesar dos excessos escatológicos.
Acaba o tiro saindo pela culatra.
Engravidar é, no mínimo, uma intimidade. Mas, por algum motivo inexplicável, todos se sentem livres para dar uma força. Exibem fotos de bebês angelicais. Contam histórias de dúvidas, preocupações, de corpos que caem, das “dificuldades de se educar um filho no mundo de hoje”, todas com o final feliz “a recompensa vale o esforço”. E sempre, para encerrar a conversa, a clássica “e vocês, quando vão providenciar o herdeiro?”. Essa unanimidade quase me tira o direito de escolha. Muitas vezes, me pego respondendo constrangidos “é, um dia desses, quem sabe”.
Pode ser.
Limpinho, cheiroso, novo em folha depois de dois banhos seguidos, ele se arrastou pelo apartamento, subiu e desceu cadeiras, poltronas, cabeçorra a milímetros de quinas de móveis e portas de vidro. Tentou se sustentar em pé e caiu mil vezes, a ponto de me preocupar a integridade do seu cóccix. Enfim, provavelmente tão aborrecido quanto eu, ameaçou chorar.
Costas estropiadas de salvá-lo dos perigos domésticos, decidi mudar o cenário, aproveitar o fim da tarde ensolarada de domingo na praia. Não havia calção na sacola de roupas, nem nada parecido. Só umas dez assustadoras fraldas. Quase desisti, mas ele achou que era uma boa hora para tocar o tambor, o que acabou por me convencer. Sentei-o no colo e expliquei: “bebê, titia, praia”. Ele não deu sinal de entender.
Levei-o para o quarto, ainda batucando no tambor, depositei-o distraído no meio da cama.
Vesti a calcinha do biquíni e o short em segundos; era um pouco estranho tirar a roupa na frente dele. O sutiã, complicado sem alguém para ajudar, deixou meus seios expostos o suficiente para ele perceber e apontá-los.
Fiquei um tempo, parada, seminua, olhando seu agitar de braços, ouvindo-o repetir “mamã”. Era de longe o melhor dos argumentos, dentre todas as coisas que, dizem, eu não vou conhecer se não tiver um filho.
A sensação de um bebê sugando meu seio.
Cheguei bem perto, sem resistência possível, antevendo um remorso mordaz de anos a fio.
Esperei pela reação. Ele me olhou, já indiferente, deu com a baqueta na minha cabeça, mais interessado em arrancar a alça do tambor.
Nossa incursão à praia foi demorada. Cavamos buracos profundos, fizemos e destruímos castelos, jogamos bola, ele tremulando agarrado ao meu dedo indicador ou se arrastando, atraído pelo mar feito filhote de tartaruga.
Anoitecia quando voltamos para casa, ele pelado porque não me lembrei de levar uma fralda. Entramos juntos no chuveiro morno, aqueci uma pasta marrom que ele comeu com prazer, antes de apagar, de novo embrulhado para presente, deitado ao meu lado no sofá. Adormeci também, por poucos minutos talvez, até uma espécie de hora do rush na minha porta, os torcedores, mãe apavorada à frente, aos trambolhões sala adentro, tropeçando em brinquedos.
Pensando estar num sonho, ouvi a voz distante da minha irmã, “porque você não atendeu o telefone?”, “que telefone?”, “o seu, cacete”, “porque ele não tocou”, “eu liguei duzentas vezes, o fixo está sempre ocupado, o celular caindo na caixa postal”. Um mistério que eu resolveria quando emergisse daqueles mundos confusos de bebê e sono. Despertei, ao me perceber falando. “Eu estava tentando manter o seu filho limpo, alimentado e principalmente, inteiro”. Ela riu: “ele fez muita bagunça”? “Muita. Nós nos divertimos à beça. E ele vai dormir direto, pode apostar.” Doida para ir embora, ela saiu catando as tralhas do garoto pela sala e, depois, na cozinha.
Notei o ambiente pesado para os lados da mesa de jantar. E me lembrei do futebol, motivo, junto com a minha menstruação atrasada, de todo aquele furdunço. Perguntei, por uma questão de solidariedade apenas, o silêncio e o lento bebericar da cerveja já davam mais de metade da resposta. “E o jogo?” Bandeira esquecida no pescoço, meu namorado respondeu: “dois a zero, Santos”.
Cansados demais, dispensamos o jantar. Ficamos vários minutos calados na cama, olhando para o teto, cismando em coisas diferentes, ou pelo menos era o que eu achava, até ele falar, sem se mexer: “e o garoto, foi legal?”
Eu procurava exatamente essa resposta nas fraldas sujas, nos castelos de areia, nas gargalhadas, na pintura manchada do alto das paredes Não disse nada. Recostei-me na cama e o puxei para o colo. Sorrimos, os dois, amarelo. Dei meu seio a ele.
Mal senti o toque dos lábios, meu útero se contorceu em cólicas.
Respirei fundo. Poderia adiar a decisão por mais alguns dias. Deixei-o, inocente, sugar minha dor até dormir.