PELO DIREITO À UNIDADE EUROPEIA, PELO DIREITO A UM IALTA II OU DA DESESPERANÇA DE HOJE AO DIREITO À ESPERANÇA – UCRÂNIA: OS CÓMICOS DA INDIGNAÇÃO OU A VELHO HISTÓRIA DE QUEM TEM TELHADOS DE VIDRO, por JÉRÔME LEROY

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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4.Ucrânia: os cómicos da indignação ou a velha história de quem telhados de vidro

Os Cómicos

Ficámos a saber que domingo à tarde, Herman Van Rompuy, o homem dos poemas haïkus, o Presidente do Conselho Europeu e José Manuel Barroso, o Mao[1] liberal da Comissão declararam, antes mesmo do encerramento das urnas de voto, que o referendo na Crimeia era “ilegal e ilegítimo” e que os seus resultados não são internacionalmente reconhecidos. Ficámos espantados por não vermos nenhuma declaração de Catherine Ashton. Está normalmente à frente dos Negócios Estrangeiros da União Europeia. Ninguém a conhece, isso é verdade. Ou quando  se fala dela, sabe-se sobretudo que está à frente de uma Administração pletórica de altos funcionários que beneficiam de um estatuto que faria sonhar mesmo um ferroviário da CGTP antes da liberalização, isto é dizer…

De resto, não é para continuar com as aproximações desagradáveis, mas quando se vê este tipo de cómicos inúteis custa-nos um pouco, e questionamo-nos como poderá  reagir o paciente grego à procura de um hospital desaparecido [pelas políticas de austeridade] ou o reformado português que esgaravata nos caixotes de lixo uma vez que sentiu o que foi feito das suas reformas [os cortes nas reformas impostos por Passos Coelho] , ou seja de quanto passou a receber de pensão ou o mileurista[2] espanhol que se apercebe que tem quarenta e dois anos e que vive sempre com a sua mulher na casa dos seus pais. E ainda se estas inteligências diplomáticas servissem para alguma coisa. Mas algum de nós já viu a política estrangeira da UE? Peçam aos pioupious franceses enfiados na República CentroAfricana ou no Mali sobre o que pensam da política externa europeia ou da sua política de defesa. Isto para convocarem François Hollande porque há ainda aí uma dezena de funcionário em actividade no país ou porque os nossos trabalhadores ousam partir antes de 75 compreenda, haverá sempre gente para ouvir. Mas para ir-se embora com um aperto de mão a estes islamitas malucos e furiosos, para evitar um genocídio ou mesmo, porque não, pôr a mão nos nossos bolsos com o argumento de termos de ficar agradecidos com o facto de sermos o guarda-chuva nuclear do continente, para ouvir  isto, aí não há já ninguém.

Por conseguinte, o Abbott e o Costello da pseudo governança europeia decidiram mostrar olhos grandes de zangados às pessoas da Crimeia porque estas , que são mesmo assim muito russófonos, teriam antes interesse em permanecer com os Russos da Rússia desde que a Ucrânia se tornou de tal forma ucraniana que a sua primeira medida foi a de proibir o russo. Compreende-se então o nervosismo dos habitantes da Crimeia, com efeito, eles que são russos desde há muito tempo, bem antes que o entusiasmo de desestalinização do camarada Khrouchtchev desse a Crimeia à Ucrânia, um pouco como o bandido que acaba de assaltar um banco e que mostra um placard onde anuncia:“Pessoal!”

Eu, seria sempre da Crimeia e russófono , mesmo que me explicassem que eu estaria a votar sob a bota dos militares russos, eu estaria mesmo assim contente de me juntar a um país onde poderia falar a minha língua. Porque é que poderão imaginar então que isto não se passa assim com estes pés-vermelhos de um novo tipo que são as minorias russófonas nas ex-repúblicas. Os direitos destas minorias por exemplo são regularmente escarnecidos nas repúblicas bálticas que, excepto engano da minha parte, pertencem a este maravilhoso espaço de democracia que é a UE. Há certamente razões históricas mas enfim, daí a ter-se um ministro pró-SS num governo, há uma grande margem. Ah, mas não, não estou a abusar da linguagem ou a fazer um processo de intenções ao governo ucraniano, sinceramente não estou. Não é porque se fez cair um governo eleito com a ajuda de milícias da extrema direita que se é obrigatoriamente de extrema direita, ainda que bom, que assim seja, é necessário mesmo assim ter em conta e estar muito atento quando há maçãs bem podres no cesto da fruta. . Não, não, não falava do ministro do ambiente na Letónia, Einars Cilinskis. Enfim, um ex-ministro. Mesmo assim acabou-se sempre por destituí-lo. Imaginem então, que este queria na sexta-feira de manhã participar “como patriota da Letónia ” num desfile em homenagem aos antigos Waffen SS que combateram de 1941 à 1945 sobre a frente de Leste. Já nos anos anteriores recentes este desfile autorizado reunia nas ruas de Riga centenas de veteranos letões e outros admiradores que tinham combatido nas fileiras das Waffen-SS contra o exército soviético.

 O desfile letão teve lugar Domingo, ou seja, na altura em que as pessoas na Crimeia estavam a votar. Já nem sei do que é que nos devemos mais espantar. Que haja um ministro de um governo da UE que queira participar um desfile de homenagem aos SS ou que este mesmo país autorize um desfile SS sobre o território da União Europeia. Os russófonos do sítio que são mesmo assim 44% mas de que uma grande parte não tem mesmo o direito de voto, devem estar preocupados ou será que que não? E tá mesmo ficarem a olhar com olhos sonhadores para a Crimeia.

Porque este Domingo, se os Chapi e Chapo, os nossos cómicos da indignação dispostos a montarem para os seus grandes cavalos de direito do homem tivessem que encontrar alguma coisa de “ ilegal e ilegítimo” na Europa, mais do que um referendo de autodeterminação num país que não é membro do seu clube de plataformas comerciais, não teriam eles feito melhor em indignarem-se com uma manifestação vintage de homenagem do III Reich que passava debaixo das suas janelas?

 

Revista Le Causeur, Ukraine: les Chapi et Chapo de l’indignation

La vieille histoire de la paille et de la poutre, texto  disponível em :

 

http://www.causeur.fr/ukraine-crimee-russie-lettonie-barroso,26680

 

 

*Photo : Vadim Ghirda/AP/SIPA. AP21541829_000001.

 

 

[1]O autor faz aqui referencia à juventude de Jos+é Manule Barroso, maoista na revolução dos cravos..

[2]A viver-se com mil euros de salário, quando se tem salário.

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