Literatura, Cultura e Lixo – por Maria Alzira Seixo

 

Sempre que me falam em lixo, duas ideias se me baralham na cabeça:

a 1ª é a dos contentores que há junto a minha casa, 4 bocarras enormes que dizem: doméstico, embalagens, vidro e papel, o que me dá muita aflição. Porque tenho de usar um saco pra cada matéria; mas, como o plástico é inimigo do ambiente, multiplicar sacos de plástico pra dividir as matérias dá-me má-consciência, e o alívio de deitar fora a lixarada esvai-se por estar assim a contribuir para o aquecimento global; ou então ponho cada secção de lixo em sacos pequenos transparentes, mas fico triste por misturar os papéis e o vidro com plástico (estarei a invalidar as matérias recicláveis?), e quando chego ao lixo doméstico já sempre qualquer dos sacos me escorregou das mãos e acabo por espalhar no chão dejectos e papelada… E é uma questão casuística, dado que tenho 2 mãos para agarrar 4 sacos (sem asa…), ou então misturo tudo, e volto pra casa com ainda mais remorsos;

a 2ª ideia que me dá o lixo é a de uma nostalgia feliz, quando era menina e a minha mãe gritava ao fim da tarde: «Vai deitar o lixo do balde na estrumeira!», e eu lá agarrava no balde («cuidado com a tua irmã, que é pequenina, não pode cheirar o lixo!»), caminhava pelo longo quintal fora, abria a cancela, atravessava a estrada de areia das traseiras do prédio, e, por trás duma encosta, embicava para um inclinado,e variegado, mostruário de restos, destroços, coisas sem préstimo e matérias irreconhecíveis, o todo com um cheiro nauseabundo sobre o qual barafustava o zinir das vespas, e era destas que eu queria fugir, pois as temia. No meio de tudo aquilo, de vez em quando, algo brilhava – uma moeda de 5 tostões, um pedaço de brinco, um papel prateado. E parte do conteúdo do balde vertia-se invariavelmente sobre os meus pés, com a pressa de esvaziar, e voltava pra casa aflita e agoniada. «Não entres!» gritava a minha mãe, «Já prá banheira!»: a casa de banho era fora, no terraço de trás, em amplo quarto envidraçado com água convidativa a fumegar, eu trepava pela pata de leão da longa tina, jogava a roupa fora e a pestilência, e mergulhava nos doces perfumes do banho: meia-hora de tepidez enevoada, sabonete, toalhas mornas, pó talco, o lixo já estava longe! Cheirava bem, felicidade! Vinha então o jantar, ler um livro de contos, e o soninho.

O lixo é, pois, tudo o que não queremos, nos faz mal, causa doenças, infecta. Mas uma 3ª ideia veio, há alguns anos, juntar-se a estas, e é a de um programa televisivo que vi em Paris. Eu tinha ido já não sei onde (acho que foi a Tel Aviv…) e, no regresso, ficava uns dias em trânsito para uma reunião: chegara do aeroporto cansada, não telefonei a ninguém, prevenira-me com umas sanduíches e meti-me na cama do hotel a comer e a olhar a TV. Digo ‘a olhar’ porque não via nada, seguia ideias no meu écran da memória, enquanto os olhos me vagueavam, soltos, pelos movimentos do écran real. Até que umas palavras me despertaram: «os iogurtes», «fora do prazo», «os ganhos das empresas», «o interesse do consumidor». Passei do bem-estar a um incipiente mal-estar interessado: o que ali se dizia, preto no branco, com dúzias de entrevistas e depoimentos, era que metade do lixo de Paris era constituído por matérias boas que davam para alimentar uma quantidade enorme de gente, e o ex. eram os iogurtes, que valem pelo menos o dobro do prazo indicado na embalagem, se não muito mais, até porque são feitos, como se sabe, de leite azedo. Do muito que me ficou daquele programa (que durou mais de 1 h) retive que nem tudo o que é lixo é lixo. E eu já devia sabê-lo, pois na minha infância convivera com os «ferro-velhos», um deles tinha a loja perto de minha casa, e minha mãe consultava-o com frequência, para vender, comprar, avaliar.

Conto isto para responder à proposta de reflexão que aqui me fazem, a do lixo na Literatura. Sim, a Literatura tem lixo, do mau e do bom. Do reciclável e do da estrumeira. Do lixo que nos levam a fazer (deitar fora iogurtes que são bons); do lixo que querem seja lixo (objetos usados que serão úteis a muita gente) e do lixo que é ouro e pedra preciosa, e também preciosidades que… não prestam para nada.

Especifico: o lixo bom, em Literatura, são as obras de qualidade que não são lidas porque são antigas (e não me venham com a desculpa de que não estão à venda – para que servem as bibliotecas? e a reprografia, para quem goste de sublinhar e anotar, como eu gosto? fica muito mais barato, e não ocupa espaço em casa…), ou não são lidas porque não são reeditadas, e há razões boas para comprar, de vez em quando! O antigo não é «velho», é… uma «antiguidade» e, portanto, ou é preciosa, ou é portadora dessa espécie de «aura» que toma tudo o que é distante. Neste momento ando inebriada a ler um livro chatíssimo, do Arnaldo Gama, Um Motim Há Cem Anos, um romance histórico, histórico mesmo (e não de uma espécie diferente que hoje muito se pratica, que é a do diálogo com a História, mais em jeito de referência honorária e de gosto pela ambientação nos idos – e des-gosto pelos tempos modernos), e nesse romance chatíssimo (quase sem diálogos, com excursos explicativos e descritivos infindáveis, e incursões sócio-políticas que há 150 anos poderiam interessar muita gente mas hoje duvido) eu encontro grandes ensinamentos e páginas de intenso prazer.

Um dos ensinamentos é justamente que: o que é hoje muito bom, daqui a 150 anos pode não prestar para nada, e daqui a outros 150 voltar a prestar, e que a qualidade literária se afere hoje por certos padrões em uso, que são mutáveis (existe, de facto, um relativismo do valor, que não é total, mas abrange grande parte do que se nos depara, em Letras e Artes); e um dos prazeres consiste em que, para quem sabe de Literatura e gosta dela, bom ou mau em estética não existem (bom e mau são termos de Ética! – que não é nada despicienda, mas pertence a outro sector de estudos), o que existe em Literatura é uma página bem escrita, e disso encontramos em Arnaldo Gama, com uma frase vertebrada, um corpo de referências que liga o «mundo possível» da literatura aos mundos só na aparência mais reais que nos cercam, um tecido do texto coeso, gestos de frase que nos prendem na leitura, nos levam e regiões ignotas e ao sonho, ou a uma realidade muito mais real que a que nos cerca, e até, imaginem, a palavra dessa realidade irreal pode tornar-se pragmática, palavra-acção, palavra-agente, como sucedeu com vários grupos de escritores, entre os quais os modernistas, os surrealistas e os neo-realistas – cada grupo a seu modo, mas levando atrás deles exércitos de espíritos e sugestões da construção concreta dos ideais.

Arnaldo Gama, neste romance chatíssimo que me dá tanto gosto ler, não procede exactamente assim, mas anda lá perto: descreve gente que se revolta contra o Marquês de Pombal por causa da Companhia dos Vinhos do Alto Douro, e eu prefiro-o noutro livro, O Sargento-Mor de Vilar, talvez por neste último avultar mais o amor sentimental, e quem resiste ao amor, esse sentimento que ultrapassa todos os conflitos humanos?? Ontem e hoje??

Então, em que ficamos, a obra de Arnaldo Gama é preciosidade ou lixo? Direi que é uma matéria semi-preciosa, conforme a leitura que dele podemos, ou sabemos, fazer (e preciosas são mesmo as de Eça, Camilo, Herculano, Garret, António Patrício, Carlos Malheiro Dias, Teixeira-Gomes, etc, para completar o elenco veja-se a História da Literatura Portuguesa do Óscar Lopes, inultrapassável (embora ele não goste do Arnaldo Gama…) já que, com David Mourão-Ferreira, Jacinto do Prado Coelho e Mário Dionísio, formou o grande quarteto da História Estética da Literatura em Portugal.

Mas Arnaldo Gama é um escritor considerado secundário. Não o que emerge em picos: dos mais lidos, mais falados, mais vendidos, mais isto, mais aquilo, e esse «mais» pode marcar o pechisbeque!, o mediatismo! o efeito da propaganda!!! é máquina-montada-pra-fazer-vender!!! É aquilo a que, quando eu era militante política, se chamava «agit-prop»! (e a base partidária não era isso, era a TEORIA, a agit-prop era o «fogo de vista» – com mil perdões para os artistas da pirotecnia…)

A verdade é que são os escritores secundários que sedimentam a literatura, que lhe suportam as inovações, que organizam as «escolas» e as «tendências».

O lixo da Literatura talvez não esteja numa certa «literatura light» que pode não ser mais que um bode expiatório, porque a «literatura light» não existe, ou antes, ela não é literatura, é uma prosa de qualidade deficiente, que segue uma organização de tipo novelesco, e por isso se confunde com o romance, mas não acede à estética, não tem frase de quilate. Se não fosse assim, a literatura «light», leve, levezinha, seria… como a “Balada da Neve” de Augusto Gil, ou o “Leve, breve, suave” de Fernando Pessoa, por exemplo, poemas que eu nunca me lembraria de deitar no lixo…: «Leve, breve, suave/ Um canto de ave/ Sobe no ar com que principia/ O dia./ Escuto e passou… O lixo na literatura está no não saber escrever, ou saber e não cuidar dele – deixá-lo sujar-se, infectar-se, amesquinhar-se. As infecções estragam tudo, podem causar a morte, e o texto deixa-se contagiar por certas observações críticas, por exigências editoriais, pela própria facilidade ou repetitividade com que o escritor se vicia no mesmo, quando não se lembra de ir à janela apanhar ar fresco.          Mas o querer escrever, e não saber fazê-lo, deve-se a duas ‘bactérias’ principais:

1. o desejo de afirmação pela arte, e achar que em literatura é muito fácil, visto que toda a gente sabe escrever para comunicar, e daí pensar-se que, por consequência, se sabe escrever também para significar, quando afinal são dois patamares tão diferentes da escrita, o de dar um recado a alguém ou registar um acontecimento, e o de produzir significação e, para o conseguir, centrar-se num acto onde a estesia domina.Ora é aqui que começa a arte, e por isso é mais difícil ser um bom artista literário que em outra arte qualquer – porque não há necessidade de aprender um ofício, o ofício já está na mão (pensa-se…), e passar da comunicação linguística é comunicação estética é…o salto no abismo;

2. o desejo de afirmação na arte, atingindo a estesia, mas nela se movimentando com dificuldade, com movimentos de escrita inábeis e uma concepção incorrecta do texto literário.

É aqui que entram as instâncias decisivas na formação, gestação e difusão desse gesto literário que se intenta, e que a produção de lixo sempre ameaça: a Escola, com ensino, programas e formação; a Edição, com a publicação e a difusão; a Divulgação, através dos Livreiros, da Crítica (de periódicos, revistas especializadas, trabalhos universitários, etc.) e das Bibliotecas; tendo ainda em conta a questão da moda e as mutações civilizacionais (a imprensa, no s. XV; o jornal, no s. XVIII; a informática, hoje em dia). Mas aqui começaria já uma outra comunicação a fazer.

O que se pode, porém, dizer sem ter dúvidas é que os escritores das literaturas «light» e seus arredores não escrevem Literatura, escrevem documentos de amores desenxabidos e de sensibilidades deseducadas, com a ideia de que tudo o que se atira ao papel sem um propósito estético pode ser criação literária. Porque a literatura limpa (e alguma dela até usa o lixo para a condimentar: Genêt, Céline, e bastantes mais) tem por vezes de se «sujar», ao pôr a mão «na massa» para a fazer levedar no sentido em que a pretende – tem várias gradações de limpeza: do clássico que nos habituámos a considerar irrepreensível e, no fundo, não o é assim tanto, até à inesperada revelação surgida em última hora, merecedora de tantas repreensões, e que tanto pode ser apenas «mais um» (e é já muito!) a sedimentar o edifício geral da Literatura, como um novo génio que desponta.

Lisboa, 5 de Feveiro de 2014

1 Comment

  1. Quem sou eu para argumentar ?Apenas aplaudir este depoimento sobre a Literatura .Hoje é constrangedor ver como se aplaude a tal literatura light em detrimento da Literatura dita “antiga” para não dizer “ultrapassada “…o próprio ensino está mais interessado em massificar os jovens para alvo fácil de manipulação …quanto mais iletrados melhor -lamentável -Maria

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