Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
9. De um tempo a outro…1945-2014, De Yalta… à Yalta
16 de Março de 2014
Estas últimas semanas, os Estados Unidos e os governos europeus alinhados avançaram demasiado ao serviço do seu fantasma unipolar.
Derrubando na ilegalidade e com brutalidade um governo eleito democraticamente em Kiev, tendo como fins estratégicos reais não somente a entrada da Ucrânia na NATO (e a eliminação por conseguinte do acesso russo aos mares quentes graças à Crimeia) mas também, a prazo termo, a substituição do fornecimento de gás russo aos europeus por gás de xisto ucraniano, polacos e americanos (seria suficiente fazer o lobbying necessário sobre o Parlamento europeu de modo que o projecto de fracturação hidráulico seja ratificado), o Império foi demasiado longe. Porque não se trata somente de um crime maquilhado (ver a conversa Ashton/Ministro dos negócios estrangeiros da Estónia ) que terá visto snipers pro Maïdan assassinar os seus próprios partidários para fazer incidir as responsabilidades a Ianoukovitch e fornecer assim “uma cobertura” humanista à posição da União europeia; trata-se assim de uma imensa falta de geopolítica que a Rússia não podia deixar passar. O hybris americano (esta desmesura imperial que vitimou os Romanos antes deles) de que Victoria Nuland nos forneceu nos recentemente ainda um belo exemplo (“Fuck the European Union ! “) vem confrontar-se violentamente com a geopolítica russa.
Depois de tudo, a partir do desmoronamento da URSS, Moscovo teria podido consultar as suas populações russas que ficaram prisioneiras das fronteiras soviéticas. O Kremlin absteve-se. Assistiu bastante passivamente à extensão da OTAN até às suas fronteiras (países bálticos), às primeiras tentativas de revoluções coloridas dos anos 2000 (Ucrânia, Geórgia), à tentativa de digestão da Geórgia em 2008, à vontade de destruir os regimes sírios e iranianos julgados demasiado próximos de Moscovo e tantas outras ingerências, à projecções e provocações americanas sempre cobertas do pretexto infantil dos Direitos do homem e a democracia. Hoje o copo está cheio! Putin talvez seja mesmo o mais moderado dos Russos sobre a questão da Crimeia. Ele tenta acalmar a indignação do seu povo face à má-fé ocidental.
O golpe de estado de Maidan, que trouxe ao poder vários ministros pertencentes a um abertamente movimento neonazi com o apoio de Washington e de Bruxelas, no próprio momento em que os governos da União Europeia estão a tentar crer às suas respectivas populações que os partidos soberanistas e identitários seriam um perigo para a democracia é pois a gota de água que faz entornar o copo.
Este referendo na Crimeia, que eu queria observar porque é um ponto de viragem na história do mundo, sem dúvida, leva o sinal de um novo mundo: um mundo multipolar com uma verdadeira independência europeia e não este euro-Atlântica da União que destruiu, ano após ano, as nossas identidades e as nossas economias.
Encerra-se completamente um ciclo. O velho mundo nascido de Ialta, em Fevereiro de 1945, do entendimento entre dois mundos, atlantista e comunista, acaba em Ialta em Março de 2014, quase 70 anos depois!
Depois da reunificação alemã, a reunificação russa abria o caminho para o eixo Paris-Berlim-Moscovo. Claro, vai levar muito tempo. Mas acaba de abrir a janela para o céu azul da liberdade.
J’irai ce soir, dimanche 16 mars 2014, boire un thé à Yalta, au coucher du soleil, avec l’espoir retrouvé que nos enfants verront la grande Europe des nations libres.
É este novo Ialta mundial que os europeus ocidentais e centrais devem abraçar: pode-nos permitir que nós finalmente façamos as pazes com a Rússia e construíamos com ela uma unidade europeia baseada na soberania e na liberdade de cada uma das Nações da nossa bela civilização.
Ou os nossos líderes são visionários e compreendem isto, e então a entrega pela França dentro de poucas semanas, do BPC de nome premonitório de Vladivostok (!) terá então todo o seu sentido ; ou não entendem nada disto, em Paris ou Berlim, e então a Rússia ir-se-á virar para a China para edificar um conjunto euro-asiático. Esta seria uma nova bipolaridade, portanto, com o perigo de uma deflagração à escala mundial .
Eu terei vivido 45 anos neste mundo de Ialta I que se realizou em 45. Eu estou com esperança e optimismo, ao lado de todos aqueles que querem relançar a França e a Europa e apesar dos riscos de tensão eu não fico mais pequeno no mundo de Yalta II.
Aymeric Chauprade, Simferopol, 16 mars 2014, 1945-2014, De Yalta… à Yalta, texto disponível em : http://blog.realpolitik.tv/2014/03/1945-2014-de-yalta-a-yalta/


