“A CASA DE PAPEL” – O PAPEL DOS LIVROS NA VIDA DE CADA UM – por Clara Castilho

livro&livros1

Hoje, Clara Castilho traz-nos A Casa de Papel de Carlos Maria Dominguez

 O autor nasceu na Argentina mas imigrou para Montevideu em 1989. É romancista, crítico literário e jornalista. Prémio Nacional do Ministério de Educação e Cultura do Uruguai. A Casa de Papel obteve o prémio “Lolita Rubial”, o Premio Especial del Jurado de los Jóvenes Lectores de Viena, Austria,  e foi finalista do Prémio de Literatura de Atenas. Foi traduzido em mais de vinte idiomas e vendidos mais de 150 mil exemplares.

A Casa de Papel

Confesso: o título intrigou-me, o pequeno formato vinha mesmo a calhar para levar na carteira para uma eventual espera num consultório médico. Vá lá, nem sempre os motivos porque compramos um livro são os mais indicados! Mas acertei. E fiquei fã. Vou ter que ir à procura de mais livros de Carlos Dominguez. “O livro começava a amolecer a chuva, a derreter-se em cima da lage de mármore negro como um lento decesso, semelhante a um barco na sua silenciosa entrada num porto.”(pag.77)

 A história de Bluma Lennon, professora em Cambridge e colega do narrador, que morre atropelada enquanto lia um poema de Emily Dickinson vai-nos levar a outros cantos do mundo. É que este, vem a ficar na posse de um exemplar do livro A Linha da Sombra de Joseph Conrad, vindo do Uruguai e que alguém tinha enviado à falecida.

E este narrador era homem curioso. Daí ir à Argentina, passando pelo Uruguai, e tentar encontrar-se com o homem que enviara o livro. A pesquisa sobre o paradeiro deste homem revela-se uma verdadeira investigação, acabando por se saber que era um leitor e coleccionador obsessivo. A sua mania era organizar a sua biblioteca por sentimentos e afinidades entre os autores. Adorei esta parte, eu conhecedora da “classificação decimal universal” das bibliotecas portuguesas. Acontece que algo vem perturbar este funcionamento. Como recomeçar? Impossível, o melhor é ir procurar paz noutro lugar. E assim desaparece.

 O autor vai referindo outros escritores, Borges, Amado, Hemingway, Dumas, Balzac, Faulkner….Far-nos-ão os livros mudar de ideias? Serão os livros perigosos? Será o seu lugar as bibliotecas? Nas pessoais, nas públicas?  Acabo pensando que se alguém vir a forma como os meus estão (des) organizados acabará por perceber muito de mim… A verdade é que muitas vezes não sei onde estão, a verdade é que despachei os que não gostei, a verdade é que ofereci imensos a bibliotecas quando mudei de casa e fiquei sem hipótese de os ter todos, a verdade é que deixo muitos nos bancos do jardim, para que alguém os leve e leia, a verdade é que os empresto e me esqueço….

O conteúdos dos livros ficou cá dentro, se precisar muito de reler e não os tiver alguém os terá, ou os encontrarei em bibliotecas.   Já o autor diz: “…Amiúde é mais difícil desfazermo-nos de um livro do que obtê-lo. Ligam-se a nós num pacto de necessidade e de esquecimento, como se fossem testemunhas de um momento das nossas vidas ao qual não regressaremos….”

 “…Vi que muita gente coloca a data, o dia, o mês e o ano da leitura; traçam um discreto calendário. Outros escrevem o seu nome na primeira página, antes de os em prestarem, anotam numa agenda o destinatário e acrescentam-lhe a data. Vi volumes carimbados como os das bibliotecas públicas ou com um delicado cartão do proprietário no seu interior. Ninguém quer extraviar um livro. Preferimos perder um anel, um relógio, o chapéu de chuva, do que o livro cujas páginas não mais leremos mas que conservam, na sonoridade do seu título, uma antiga e talvez perdida emoção….”.

 Uma relação muito pessoal, a que cada um estabelece com os livros enquanto objectos, com os livros enquanto conteúdos. O certo é que todas serão boas, as que cada um precisa para si.

Leave a Reply