FRATERNIZAR – Entronização do novo Bispo do Porto – por Mário de Oliveira

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TANTO DE SOLENE, COMO DE OBSCENO E DE BLASFEMO!

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Vista à luz da Fé e da Teologia de Jesus, a cerimónia de entronização litúrgica do novo bispo do Porto, António Francisco dos Santos, realizada no passado domingo, 6 de Abril 2014, a partir das 16 horas, teve tanto de solene, como de obsceno e de blasfemo. O cume do obsceno e do blasfemo, foi quando o bispo, na homilia da missa, se referiu aos pobres e, até, enfatizou que “os pobres não podem esperar”. Ora, se o bispo reconhece que “os pobres não podem esperar”, porque é que ele próprio os fez esperar, e não iniciou o seu ministério episcopal entre eles e com eles, em vez de na sinistra e deprimente catedral?! Que se saiba, não havia pobres no seu interior. Nem sequer entre os assim chamados “irmãos, irmãs” pelo ex-administrador apostólico da diocese, D. Pio Alves, a quem coube elencar por ordem de precedência, de cima para baixo, todos os presentes, numa breve e formalíssima declaração inicial, logo após a intervenção do núncio apostólico, que leu em português a bula do papa de Roma, escrita em latim e autografada. Nessa lista integral, não há, como podem constatar, qualquer referência aos pobres, muito menos, aos pobres dos pobres que não podem esperar, quando, como é público e notório, o fado desse tipo de pobres sempre tem sido o de passarem a vida a esperar. Entretanto, o pecado/crime estrutural do mundo, é termos concebido e insistirmos em manter um sistema que os produz, porque os pobres, uma vez produzidos, estão aí fatalmente condenados a ter de esperar, pior, de jazer, por toda a vida. E a ter de ver todos os mais passar de largo, como o sacerdote e o levita da parábola lucana!

 

Aqui se reproduz, para sua vergonha, a lista dos presentes na solene entronização do novo bispo: Exmo e Rvmo Senhor Núncio Apostólico; Exmos e Rvmos Senhores Arcebispos e Bispos; Senhor D. João Miranda, Senhor D. António Taipa, Senhor D. João Lavrador; Exmo Senhor Presidente da Câmara Municipal do Porto; Senhores Secretários de Estado; Senhores Autarcas; Rvmos Senhores Vigários Gerais; Senhores Cónegos, Presbíteros, Diáconos e Seminaristas; Senhores Consagrados e Consagradas; Exmas Autoridades Civis, Militares, Judiciais, Académicas e Religiosas; Ouvintes da Rádio Renascença; minhas Irmãs, meus Irmãos.” Como se vê, os craques, primeiro, e, por último, “minhas irmãs”,“meus irmãos”. E os pobres, que é deles?! Só na sua homilia, o novo bispo, manifestamente esmagado por toda aquela parafernália de pesadas vestes bordadas a ouro, mitra na cabeça, báculo do Poder na mão e anel no dedo, uma máscara com tudo de armadura, à prova do Humano, é que se lhes referiu, mas para sua própria condenação e condenação de toda aquela obscena manifestação de riqueza e de opulência. A verdade é que, a partir de agora, nunca mais António Francisco dos Santos é um ser humano, filho de mulher. Desde esta sua entronização, como bispo do Porto, é filho do Poder, ele próprio, o Poder monárquico no Porto, ao qual todos os outros poderes menores se apressaram a prestar-lhe vassalagem, como na velha Idade Média.

 

Enquanto bispo de Aveiro, o bispo António ainda poderia respirar e dar-se ares de humano. No decurso desta cerimónia de entronização, foi manifestamente um prisioneiro que queria soltar-se, mas as pesadas amarras rituais não lho permitiram. Chegou a meter dó. Neste particular, as imagens da cerimónia, já presentes no Youtube e no site da diocese, para vergonha do próprio, não enganam e constituem um gritante testemunho de acusação contra ele. As tvs trataram o caso como um “fait divers”, mas o responsável pela manutenção do site da diocese não quer deixar os seus créditos por mãos alheias. E, quase à mesma hora, já lá figurava o evento. Visiona-se e não se acredita. Estamos a meio da segunda década do terceiro milénio, e a entrada de um bispo na diocese do Porto continua a obedecer a um ritual que vem dos remotos tempos da entronização dos sumos-sacerdotes no destruído templo de Jerusalém e da entronização dos imperadores de Roma!… Estes homens eclesiásticos, eunucos à força, impedidos de afectos e de humanidade, auto-compensam-se com este tipo de cerimónias e aceitam-nas. Sentem-se divinos. E nem sequer vêem que isso é precisamente a sua perdição.

 

A partir desta sua entrada solene, o novo bispo do Porto está literalmente caçado pelo Poder, é prisioneiro do polvo, chamado Cúria diocesana, com o seu palácio episcopal, a sua sé catedral, o seu cabido. Bem pode estrebuchar, que de nada lhe adianta. Se pretendia ser bispo da Igreja-movimento clandestino de Jesus, recusava liminarmente este tipo de entrada. Em lugar da catedral, escolhia as populações mais empobrecidas, que nem sequer estiveram entre as muitas centenas que não puderam entrar na catedral, ocupada que foi pelos craques institucionais. Teria de deixar os craques e ir ao encontro das suas vítimas, nos bairros degradados e nas periferias da cidade, à semelhança do que, em seu tempo, fez Padre Américo, que nunca foi bispo, tão pouco, foi bem visto pelos bispos seus contemporâneos.

 

Os pobres, não são para os bispos-Poder cavalgarem sobre eles e ficarem com a máscara de benfeitores. Sempre que um agente do Poder fala dos pobres e é o seu antípoda, é um hipócrita. Seja bispo de Roma, seja bispo do Porto, seja chefe de estado. Só podem falar dos pobres, sem os ofenderem/magoarem, quantas, quantos se fazem pobres por opção. Consequentemente, recusam entradas solenes e coisas que tais, próprias dos fabricadores de pobres e de pobreza em massa e dos promotores da humilhante caridadezinha. Ninguém, por isso, pode dizer com verdade que, no decurso da entrada do novo bispo do Porto, viu Jesus e o Deus de Jesus. O que viu, foi o Poder em todo o seu esplendor de hipocrisia e de cinismo. Pobre Igreja que tais bispos tem! E pobres populações que tal igreja têm!

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