A Liberdade, a cultura, a democracia e a justiça social são as nossas paixões.
Quando um dia se ler a sério Agostinho da Silva — que é um original escritor e um pensador perturbante —, terá inevitavelmente que se evocar o revivalismo franciscanista que tantos ecos teve na cultura portuguesa desde os finais do século XIX. Agostinho da Silva insere-se nessa tradição conferindo-lhe uma dimensão e uma tonalidade singulares. Para os franciscanistas da geração de 70 e das gerações seguintes, desde Guerra Junqueiro a Eça de Queirós até Teixeira de Pascoaes e Cortesão, o culto e mesmo a mitologia de S. Francisco foi uma espécie de hipercristianismo de gente que cortara com o catolicismo tradicional e, sobretudo, com um clericalismo omnipresente e retrógrado, ainda muito sensível na sociedade portuguesa. Esse aspecto é o que avulta no autor d’ A Velhice do Padre Eterno, mas não é o mais importante. A sua forma acabada e aquela onde a «filosofia» do cristianismo, segundo Francisco de Assis, se exprime de maneira convincente, encontra-se n’ Os Simples. S. Francisco de Assis é para essas gerações o S. Paulo da nova igreja dos «Simples», o santo que concilia o culto da Santa Pobreza com o amor e a efusão da Natureza. A componente e a função social deste franciscanismo onde se conciliava simbolicamente o revolucionarismo utópico dos «Jacques» tão caros a Eça, com as aspirações místicas de um cristianismo puro, não é a mais significativa. Em todo o caso, não o será, nem para Jaime Cortesão nem para Agostinho da Silva, que prolonga e transfigura a visão franciscanista do poeta de Águia e futuro historiador dos Descobrimentos. O essencial da visão franciscanista da vida para ambos concentra-se nessa paixão pela Natureza, mas uma natureza, por assim dizer, «sem mancha de pecado original». Em suma, como corpo de Deus com o qual o corpo e a pulsão natural da Humanidade, logo desvinculada dos artifícios da civilização e da cultura (herança de Rousseau), se confundem. Isto foi lido, e não sem razão, no que diz respeito a Jaime Cortesão, como uma forma de paganização subtil do cristianismo, coberta pela referência insuspeita a S. Francisco, menos do que, como forma imposta pelos imperativos de um Evangelho depurado das excrescências da autoridade e do dogma. Daí os grandes hinos de Cortesão ao instintivo, ao sensual e mesmo ao erótico e a grande complacência com que exalta como expressão da nossa singularidade nacional uma cultura impregnada do sentimento pânico da vida ou louva a nossa lírica tão inocentemente sensual.