“Celebrando Agostinho da Silva” – 2 – por Álvaro José Ferreira

(Continuação)

Nota prévia:

Para ouvir os poemas e outros textos de Agostinho da Silva, bem como as “Conversas Vadias”, há que aceder à página

http://nossaradio.blogspot.com/2014/04/celebrando-agostinho-da-silva.html

 e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

Imagem1Quando um dia se ler a sério Agostinho da Silva — que é um original escritor e um pensador perturbante —, terá inevitavelmente que se evocar o revivalismo franciscanista que tantos ecos teve na cultura portuguesa desde os finais do século XIX. Agostinho da Silva insere-se nessa tradição conferindo-lhe uma dimensão e uma tonalidade singulares. Para os franciscanistas da geração de 70 e das gerações seguintes, desde Guerra Junqueiro a Eça de Queirós até Teixeira de Pascoaes e Cortesão, o culto e mesmo a mitologia de S. Francisco foi uma espécie de hipercristianismo de gente que cortara com o catolicismo tradicional e, sobretudo, com um clericalismo omnipresente e retrógrado, ainda muito sensível na sociedade portuguesa. Esse aspecto é o que avulta no autor d’ A Velhice do Padre Eterno, mas não é o mais importante. A sua forma acabada e aquela onde a «filosofia» do cristianismo, segundo Francisco de Assis, se exprime de maneira convincente, encontra-se n’ Os Simples. S. Francisco de Assis é para essas gerações o S. Paulo da nova igreja dos «Simples», o santo que concilia o culto da Santa Pobreza com o amor e a efusão da Natureza. A componente e a função social deste franciscanismo onde se conciliava simbolicamente o revolucionarismo utópico dos «Jacques» tão caros a Eça, com as aspirações místicas de um cristianismo puro, não é a mais significativa. Em todo o caso, não o será, nem para Jaime Cortesão nem para Agostinho da Silva, que prolonga e transfigura a visão franciscanista do poeta de Águia e futuro historiador dos Descobrimentos. O essencial da visão franciscanista da vida para ambos concentra-se nessa paixão pela Natureza, mas uma natureza, por assim dizer, «sem mancha de pecado original». Em suma, como corpo de Deus com o qual o corpo e a pulsão natural da Humanidade, logo desvinculada dos artifícios da civilização e da cultura (herança de Rousseau), se confundem. Isto foi lido, e não sem razão, no que diz respeito a Jaime Cortesão, como uma forma de paganização subtil do cristianismo, coberta pela referência insuspeita a S. Francisco, menos do que, como forma imposta pelos imperativos de um Evangelho depurado das excrescências da autoridade e do dogma. Daí os grandes hinos de Cortesão ao instintivo, ao sensual e mesmo ao erótico e a grande complacência com que exalta como expressão da nossa singularidade nacional uma cultura impregnada do sentimento pânico da vida ou louva a nossa lírica tão inocentemente sensual.

Agostinho da Silva retém um certo número de traços da visão do mundo ou da leitura da nossa maneira de ser proposta por Jaime Cortesão. Não foi impunemente que o universitário Agostinho da Silva se interessou pelo mais «erótico» e pouco recomendável, segundo os nossos hipócritas códigos vigentes, autor antigo, Catulo. A escrita límpida, o lado de profetismo e misticidade característicos da prosa de Agostinho da Silva, velam um pouco o que não pode deixar de se designar por «erótica» agostiniana. Um erotismo que não tem apenas o conteúdo negativo da recusa ou denegação do ascetismo, essência da comum espiritualidade lusitana, desde os bons tempos de Heitor Pinto, mas o gosto positivo pela vida, na sua natural pulsão vital e fonte de sedução. O seu famoso paracletismo, a apologia do Espírito Santo, não é apenas um eco mimético da tradição joaquimista [referente a Joaquim de Fiore], uma maneira de considerar findo o reino da Lei (o do Pai) e o do Sacrifício (o do Filho) com a entrada no terceiro reino, o da Liberdade, que é, sobretudo, o do Amor. Esse seu culto do Espírito Santo é o de uma nova Criação, filha da esperança e aberta como a esperança sobre um futuro em que o homem se descobrirá, ou descobrirão, ao abdicarem das formas imperfeitas da Lei e da Dor, como «eternas crianças» e imperadores da sua própria vida. Foi isto que Agostinho da Silva reteve como mais válido e profundo em Fernando Pessoa, o Fernando Pessoa da Mensagem, a quem dedicou a primeira leitura simbólica coerente (na luz da própria visão) que se conhece. Este homem de uma vasta e segura cultura, como Pessoa, encontra-se com ele numa mesma espécie de recusa transcendente, mas não menos decidida, de uma cultura livresca, esquecida da silenciosa sabedoria que a todos nos habita quando nos abandonamos ao sopro do «Espírito Santo», à lição de uma Natureza que ensina quando nós nos calamos. E assim, com o tempo, e cada vez mais despojado das realidades e investiduras do mundo, do mundo social e dos seus ritos, do mundo intelectual e das suas rendosas imposturas, Agostinho da Silva se revestiu, com todos os sinais da autenticidade, das conotações de um verdadeiro símbolo e até herói da Contra-Cultura. Ou melhor, de qualquer coisa mais rara que não vive da negação, mesmo a mais fundada — e em Agostinho da Silva também esse aspecto existe —, mas da transcendência do cultural, da vitória sobre ele quando se olha todo o seu imponente império, não como mera poesia da sandália dos deuses, mas com a inocência de uma criança que acaba de abrir os olhos para o Universo e a sua gratuita magnificência.

Como toda a gente da minha geração, conheci Agostinho da Silva através dos célebres fascículos vendidos então a quinze tostões, que punham o público ledor, culto ou popular, na intimidade de grandes figuras e, sobretudo, grandes e saborosos textos do passado. O primeiro que comprei foi sobre Stendhal, autor então em vias de reconhecimento universal e hoje, pensando bem, vejo nisso não um mero acaso, mas a chave para a futura inscrição de um homem que foi a Liberdade, mesmo no campo de um autor tão pessoal, tão classicamente inclassificável como o autor d’ A Cartuxa de Parma. Mais tarde, li a sua tradução de três ensaios de Montaigne, pai da prosa do corpo, da alma e da inteligência, seu outro modelo — à parte o impessoal dos clássicos da infância — que o da sua própria vida, observados sem complacência, mas também sem reticências. Mas só o acaso de uma errância brasileira me fez encontrar o homem dos sete ofícios, profeta, pedagogo, sábio, naturalista por conta própria, em Santa Catarina, onde então Agostinho da Silva era uma espécie de oficioso secretário de assuntos culturais e, como sempre, um pólo de vida activamente contemplativa, de que não conheci segundo exemplo. Recebeu-me (recebeu-nos, a mim e minha mulher) como se me conhecesse desde sempre. Com uma enorme e negra aranha dos trópicos na palma da mão esquerda, divertido com o meu assombro e não menos pequeno temor. A Natureza e a sua face misteriosa, terrífica, o símbolo dos pesadelos e das ficções científicas, repousava nas suas mãos como num berço. Tinha domesticado «o mal» como se ele não existisse. Ou como se ele não o quisesse ver. Não sei se isto basta para perceber que espécie de «misticismo» era o seu. Mas bastou-me para sentir, e definitivamente, que estava diante de um dos Homens mais extra-ordinários que me foi dado conhecer.

Lisboa, 7 de Março de 1995. Eduardo Lourenço (prefácio ao livro “A Última Conversa – Agostinho da Silva, Entrevista de Luís Machado”, Lisboa: Editorial Notícias, 1995)

(Continua)

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