Vogamos num espaço de crepes esgaravatando a terra à procura dos ossos do tempo. Corremos atrás de supostos valores que nos aprisionam na sua cadeia de ilusões. Corremos para ganhar, para obter, para conquistar, para dominar. Mas para ganhar o quê? Para obter o quê? Para conquistar o quê? Para dominar a quem?
François Duvalier viveu e governou numa orgia de sangue. De pouco lhe valeram a prepotência do mando e a vigilância bestializada dos Tontons Macoutes. A arrogância do poder e a assumpção da força não evitaram a ferocidade dos vermes gulosos do seu cadáver. Qué da polícia política, dos palácios, das leis, da vontade omnipotente e omnipresente? Duvalier, criador de um catecismo bizarro, empasta-se dos excrementos da morte. Acomete-o a sanguessuga, de ventre espalmado e comprido, a caminhar raspando seus anéis pelo interior das coxas negras até fixar, voraz, as ventosas nos testículos murchos e secos; a minhoca dobrando-se com agilidade para se acasalar na esponja húmida dos pulmões perfurados por dezenas de outras companheiras; a terrível Nereida, herdeira da mitologia de Nereu, com as mil patas auxiliares e a cabeça irrequieta à procura da presa, estendendo-se e comprimindo-se na viagem cadavérica que acabará por destroçar a gelatina dos olhos; a triquina encristada nos músculos fazendo deles a sua toca. Duvalier tirano, chefe, rico, poderoso, mau, tenebroso déspota do seu povo é um corpo vazio, inerte, podre, coberto por formigas, carochas, osgas, caracóis, lagartos, destruindo a glória edificada em vida sob o signo da tirania. Até a pacífica joaninha, débil e cândida, não se escusa ao banquete que transforma os deuses da terra em montes de esterco.
Sacudo os pensamentos do pó da noite procurando um golpe de criatividade que os inunde de vida, mas não consigo. Na península industânica uma metralhadora vomitou sangue. Escolha o Pantene exacto para o seu tipo de cabelo, lê-se num anúncio de jornal. Caiu de broco o soldado paquistanês sem saber porquê, sem saber por quem. Numa estrada da Baviera uma criança beija uma flor. Caiu o soldado como caiem milhares todos os anos, braços abertos com o espanto e o terror talhados nos rostos. Nixon, Pompidou e Marcelo Caetano encontram-se nos Açores. O soldado está de barriga para o ar, o capacete à distância de três metros, a farda empapada de sangue, a arma a seus pés, espetada na terra, como se fosse uma cruz. Serafim pica a ficha do ponto ao entrar no escritório. Ângela Davis encontra-se sequestrada em Marin County, São Francisco, U.S.A.. Os olhos do soldado são enormes, grandes como bolas de pingue-pongue; as mãos esboçam um gesto inútil como todos os gestos que existem na hora derradeira. Minha filha esforça-se por aprender a tabuada. Uma nova nação nasceu e chama-se Bangla Desh. Os soldados paquistaneses afundaram Daca num banho de sangue antes de se retirarem.