Foi ontem, no auditório da Biblioteca Museu República e Resistência, que Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, duas das autoras (juntamente com Maria Velho da Costa), de «Novas Cartas Portuguesas», se juntaram a quantos com elas quiseram partilhar ideias, num auditório cheio. Era uma iniciativa, em parceria, da Grande Loja Feminina de Portugal e da própria Biblioteca Museu. Pretendeu-se assinalar os 40 anos da Revolução dos Cravos, abordando a forma como as mulheres eram vistas e tratadas antes desse acontecimento, fazendo a ponte para a actualidade: «E agora Maria?». Foi numa “dança” entre a mesa e o público em que se falou da obra literária, perseguida em tribunal pelo regime de Caetano.

Recuemos: Lisboa, Abril de 1972. Estas três escritoras portuguesas, com obra já feita, escreveram este livro em conjunto, a que chamaram “Novas Cartas Portuguesas”. Nelas aparecem figuras femininas marcadas por condicionalismos de vária ordem, maltratadas, enclausuradas, dependentes, vítimas de amor ou paixão, casadas à força, enganadas, exploradas… e pacientes! Nelas se fala abertamente de temas desde sempre ocultados, como o corpo e o desejo físico, a sexualidade, o prazer feminino, o fingimento enquanto forma de alimentar as ilusões masculinas…
O livro foi retirado do mercado e as autoras acusadas de pornografia e ultraje à moral pública! E seguiu-se um processo judicial a que só a pressão dos movimentos feministas internacionais e a Revolução de 25 de Abril de 1974 permitiram pôr termo. Dentro do país, devido à censura nos jornais pouco se soube. No estrangeiro, movimentos feministas faziam manifestações, marchas, acontecendo mesmo a ocupação da embaixada portuguesa na Holanda pelas feministas holandesas.
Vejamos um excerto: “As tarefas do homem são aquelas da coragem, da força e do mando. Quer dizer: serem presidentes, generais, serem padres, soldados, caçadores, serem toureiros, serem futebolistas e juízes, etc., etc. (…) Depois há as tarefas das mulheres, que acima de todas está a de ter filhos, guardá-los e tratá-los nas doenças, dar-lhes a educação em casa e o carinho; é também tarefa da mulher ser professora e mais coisas, tal como costureira, cabeleireira, criada, enfermeira. Há também mulheres médicas, engenheiras, advogadas, etc., mas o meu pai diz que é melhor a gente não se fiar nelas que as mulheres foram feitas para a vida da casa que é uma tarefa muito bonita e dá muito gosto ter tudo limpo e arrumado para quando chegar o nosso marido ele poder descansar do trabalho do dia que foi tanto, a fim de arranjar dinheiro para nos sustentar e aos filhos.” (p.238)
Quase quarenta anos se passaram. Mudou muita coisa? Mudou pouca?
E concluiu-se que, apesar de ter havido alguns progressos na vida das mulheres, as desigualdades se mantêm e o poder patriarcal parece não ter sofrido grandes mudanças. No entanto, outras se verificaram: as mulheres são a maioria de entre as pessoas que se formam em cursos superiores, já não precisam de autorização dos maridos para várias actividades, eles já não podem ir aos seus empregos receber os seus ordenados, etc…
A Constituição é das mais avançadas em termos de igualdade entre homens e mulheres (nem nos EUA isso acontece, em França não há feminino para as profissões). Vários temas que as próprias autoras, em 1972 nem ousaram falar, como a violência domésticas, estão na ordem do dia.
Mas, agora em situação de crise, as mulheres são as primeiras a ficar desempregadas, e as que nessa situação menos alcançam emprego.
Foi interessante a discussão à volta do feminino de vários cargos. Quando Maria de Lurdes Pintassilgo foi nomeada, não se sabia como referir o seu cargo: A Primeiro Ministro? O Primeira Ministra? A Primeira Ministra? A confusão foi tal que, quando lhe fizeram cartões de visita vinha: “O Primeiro Ministro – Maria de Lurdes Pintassilgo”. Ela mandou fazer outros, ao que a sua assessora, também mulher, a jornalista Maria Elisa, lhe respondeu: “Não pode ser, não existe o cargo, eles dizem que não fazem”. Imagino-a a tomar do telefone e a “ordenar” que o fizessem! Mas para resolver o problema, ela teve que afirmar, por várias vezes, aos jornalistas que era “Primeira Ministra”.
Lembramos que o livro foi reeditado, numa edição anotada por Ana Luisa Amaral, tendo deixado intacto o texto mas com 200 anotações, um índice, uma bibliografia contendo os textos usados pelas autoras e o pré-prefácio que Maria de Lourdes Pintassilgo escreveu em 1980. E que o impacto desta obra está a ser estudado em várias universidades estrangeiras.
Tomemos o exemplo destas mulheres de coragem e que continuam, apesar dos cabelos brancos e do menor vigor físico, a pôr o dedo na ferida!
