Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
BCE, FMI, FED: conflitos à volta da criação monetária – Uma solução: a iniciativa suíça e a moeda de base
Auran Derien
Revista Metamag – 03/04/2014
Nas economias contemporâneas, uma parte cada vez maior dos recursos é desviada. Está-se muito longe da época em que Adam Smith prodigalizava alguns conselhos aos seus compatriotas, em termos simultaneamente claros e urgentes, sobre a melhor maneira de realizar a prosperidade económica. A condução dos negócios, dizia ele, deve ser deixada aos cidadãos. Isto acabou. Os bancos apropriaram-se do direito de se imporem através da criação monetária, passaram a dominar os políticas pela corrupção e os cidadãos através dos interesses que lhes pagam .
Irá o BCE substituir o FED?
A guerra das moedas está aí e a atingir o seu máximo . A criação histérica de dólares, de ienes, de libras, tem efeitos múltiplos sobre as taxas de câmbio e as taxas de juro. Os preços dos activos financeiros sobem, as balanças dos pagamentos são afectadas, as taxas de câmbio flutuam com tendência à baixa, as taxas de juro reais variam e, com estas os movimentos de capitais. Os efeitos riqueza são esperados a curto prazo sobre o rendimento dos países que emitem a moeda, e a mais longo prazo a baixa do câmbio deve afectar a conta corrente (exportações /importações por conseguinte a riqueza. Somente o BCE recusava até agora fazer funcionar a máquina que reproduz este mecãnica. Anuncia que poderia alterar a sua política e fazer como os outros.
Porquê? As relações múltiplas entre criação monetária, taxas de juro e taxas de câmbio, entre balança dos pagamentos e o rendimento real, sem estar a esquecer o nível geral dos preços, colocam todo e qualquer responsável no centro do dilema interior/exterior. Os movimentos de capitais, não devem ser controlados mas as políticas quereriam bem limitar os estragos sobre os agregados dos seus países respectivos.
O que fazer? A finança dominou as autoridades estatais que são incapazes de absorver os efeitos das operações financeiras. O BCE poderia compensar a entrada de dólares, de ienes, de libras , aumentando as contrapartidas sobre as quais tem o controlo. Pode alterar os seus valores de concessão de créditos. Mas os desequilíbrios actuais são múltiplos, fora de qualquer proporção com as situações de interdependência do passado : os preços relativos entre a Europa e o resto do mundo; as consequências sobre as taxas de juro e de câmbio; as obsessões especulativas permanentes ; as velocidades de ajustamento dos mercados, como dizem os vendedores do pronto a pensar a economia . Além do mais, não é antiliberal fixar os preços, tal como o da taxa de juro? Não se devemos então fixar-se sobre um mercado? Compreende-se que Mario Draghi, membro de Goldman Sachs, hesita sobre o caminho seguir. Então, esperemos…
O gag da política industrial
O italiano Antonio Tajani é Comissário europeu para a indústria. Este declarou que “o euro está actualmente muito forte face ao dólar: os países-membros da zona euro deveriam reconsiderar o papel do Banco Central Europeu” (27 de Março. Edito: “O fim do dogma do euro forte? ”). Que talento, que voo no mais puro lirismo. Contudo, não há nenhuma política industrial na Europa. Os burocratas da Comissão Europeia mantêm pertinentemente em risco de rebentar a indústria europeia. Que isso seja nos acordos assinados em 1990 ou em 2002, nunca estes funcionários de papel na mão excederam o nível dos manuais de economia do primeiro ano. Eles salivam de todo ao pensarem na construção do grande mercado, no fim das protecções, na homogeneização das regras, dos impostos e das leis. Nunca foram capazes de ultrapassar este nível. A indústria é doravante residual na Europa e graças aos Chineses, que têm uma estratégia teremos, enfim, o privilégio de conhecer em breve o nível de vida de que usufruíam os chineses quando Mao tomou o poder.
O FMI com poucas ideias
Não há ninguém até ao FMI que deseje ardentemente continuar sobre esta linha. Logo no início dos anos 80, a UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento) tinha analisado as relações económicas internacionais e tinha feito claramente chegado á conclusão que as verdadeiras causas dos desequilíbrios de balanças de pagamentos dos países que não podiam utilizar a sua moeda assim como meio de transacção eram os “choques externos”, sobre os preços e os volumes do comércio externo. A UNCTAD propunha nessa altura que se distinguissem, quanto ao financiamento das balanças de pagamentos, entre os elementos do défice dos quais o país é responsável e os que se devem à factores que estão fora do seu controlo. Os contributos do FMI teriam de se modular de acordo com esta diferenciação. A parte de défice que provem de factores exógenos teria podido ser financiada por exigências de fraca condicionalidade, e as questões do financiamento deveriam ser mais relevantes que as do ajustamento. Nada disso foi assim feito pelo FMI.
É evidente que os personagens do FMI não têm nenhuma competência para decidir o que deve fazer um país, no detalhe, para corrigir as suas contas externas. Pelo contrário, o Fundo obstina-se num dogmatismo altamente prejudicial. A sua soberania é, apesar de tudo, colocada acima de todos; o FMI tem o direito de exigir que um país tome certas medidas antes mesmo que um acordo seja aprovado.
Este miserabilismo intelectual é a consequência de uma dogmática extraída de uma pseudo-ciência económica. O FMI formulou as suas crenças na unicidade das estruturas para a humanidade na época de um designado Jacques de Larosière (Director Geral do FMI em Washington de 1978 à 1987) que desenvolvia as suas teses em Davos. Christine Lagarde, actualmente directora do FMI não tem mais ideias que um robô com o programa fechado[1]. Declarou face ao Congresso dos Estados Unidos: “Uma grande maioria dos países-membros – do FMI – aprovou as reformas a fim de reforçar os recursos e a governança do FMI. Estas reformas esperam a aprovação do Congresso americano. A capacidade contínua do FMI a combater as crises económicas e financeiras depende desta aprovação”. Após o desmoronamento da Grécia, de Chipre, Portugal e a Espanha, chega agora a vez da França.
O que fazer? A iniciativa Suíça: a moeda de base
É a iniciativa cidadã mais importante dos 20 últimos anos que deveria ser lançada no 1º de Maio na Suíça. Trata-se de transformar o franco suíço de dinheiro-dívida “em dinheiro pleno ” (100% money como dizem os economistas).
É, com efeito, a instituição de moedas-dívida que permitiu aos grandes bancos “privados” de criarem e sem limites todo o crédito do qual tinham necessidade para se assegurarem o controlo completo das estruturas políticas, económicas e financeiras no âmbito de um novo totalitarismo que deu cabo do liberalismo sob todas as suas formas.
Convém reformar o crédito apoiando-se sobre dois princípios fundamentais:
– O domínio da criação monetária é uma função exclusivamente do Estado soberano, ao qual se confere o controlo total da massa monetária.
– Evitar qualquer criação monetária outra que não seja a moeda de base de modo que qualquer despesa encontre a sua origem num rendimento certamente ganho.
A massa monetária cresce à taxa desejada pelas Autoridades e o Parlamento controlaria facilmente a política seguida. A colectividade beneficiaria dos lucros que provêm da criação de moeda e aligeiraria os impostos existentes. Por fim, a nível internacional, o dólar deve ser abandonado a favor da criação de uma unidade de conta comum. As verdadeiras elites têm muita coisa sobre a mesa .
http://metamag.fr/metamag-1939-BCE-FMI-FED–CONFLITS-AUTOUR-DE-LA-CR%C3%89ATION-MON%C3%89TAIRE.html
[1] Nota do Tradutor. Pessoalmente desde há muito que a chama de cata-vento sempre elegantemente vestida e penteada.


É sempre “refrescante” ver o mundo sob a distorção do caleidoscópio monetário. Não esqueçamos que é mero etretenimento…
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