“A IDEIA” – CARLOS LOURES, A PIRÂMIDE E O GRUPO SURREALISTA DO CAFÉ GELO (2) – por Manuel G. Simões

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(Conclusão)

E o número 3, que só apareceria em Dezembro de 1960, alarga ainda mais o leque de colaboradores:Imagem1 Máximo Lisboa, Edmundo de Bettencourt, Renato Ribeiro, Alfredo Margarido, Jacques-Henry Lévesque (artigo sobre Alfred Jarry), Rodolfo Alonso, Henrique Lima Freire, Manuel de Castro, Llorenç Vidal e Angel Crespo. A fechar o caderno, Carlos Loures publica o artigo “Aos ladrões de fogo. Poesia, Surrealismo, Controle”, título inspirado em Arthur Rimbaud, citado na epígrafe: Donc le poète est vraiment voleur de feu . O texto assume um carácter de manifesto contra os poetas distraídos da nossa república das letras: viciados no ópio da intriga literária, vamos encontrar grande maioria dos poetas […] No absurdo palco da nossa arte actual, o espectáculo passa-se ao nível da mais reles opereta (p.51). Não são esquecidos alguns ataques feitos quer aos surrealistas, quer ao Surrealismo: Confundindo precipitadamente delírio com anarquia mental, revolta com excentricidade, pureza e renúncia com depravação moral , o Surrealismo é por estes senhores comodamente 3Idem, ibidem. classificado como irresponsável cabotinismo (p. 51). E termina com o incitamento aos “verdadeiros” poetas, outros tantos seguidores de Prometeu na construção duma utopia julgada possível e numa perspectiva que sublinha a questão de fundo, isto é, a problemática social e os direitos devidos à Humanidade: Aos Poetas, detentores da mágica chave do Futuro, ladrões do sagrado fogo da Verdade, pede-se a implantação duma urgente antropolatria que possibilite um respeito absoluto pela integridade e pela dignidade do homem, e a satisfação das suas imanentes solicitações: o Amor, o Desejo, a Liberdade (p. 52). Com este artigo termina a aventura da Pirâmide, ainda que aqui se anuncie um próximo número com a colaboração de Maria Helena Vieira da Silva, Maria Rosa Colaço, Natália Correia, António José Forte, José Manuel Simões e Isidore Ducasse (Comte de Lautréamont), o que não veio a verificar-se, como se sabe. E num outro lugar, Carlos Loures viria a esclarecer alguns aspectos que se prendem com a organização deste terceiro número, esclarecimentos que atestam, já então, algum distanciamento, por parte dos dois organizadores, e uma certa tensão entre os membros do grupo, como se depreende do seu testemunho explícito: O número 3, publicado em Dezembro de 1960, estava já quase totalmente esvaziado do inicial conteúdo surrealizante. É, no entanto, o mais autêntico, pois é o único em que ninguém nos ‘segurou a mão’. Aliás, foi já realizado fora do grupo do Gelo, com gente que parava uns metros adiante, no Café Restauração 4.

Alguns anos mais tarde, mais precisamente em 1966, explodiu uma polémica entre Carlos Loures e Mário Cesariny de Vasconcelos nas páginas do Jornal de Letras e Artes , de Azevedo Martins. Tudo começou com a publicação, neste jornal, de quatro artigos de Carlos Loures, escritos quatro anos antes, e enviados a este semanário três anos atrás, sem que a redacção do jornal desse mostras de os querer publicar. Ora aconteceu que, sob o título “Demónios do absurdo”, e sempre com o relevo conferido pela 1.ª página, surgiu em 5-1-1966 o primeiro artigo, abordando aspectos gerais do Surrealismo, a que se seguiram os artigos dedicados a Isidore Ducasse – Comte de Lautréamont (12/1/1966), a Jean Arthur Rimbaud (26/1/1966) e a Allfred Jarry (2/2/1966).

Surpreendido com a publicação imprevista e como, nesse espaço de tempo, as opiniões do Autor, relativamente ao movimento surrealista, se tinham modificado integralmente, Carlos Loures envia uma nota ao jornal, publicada com o mesmo título (“Demónios do absurdo”) em 9-2-1966, onde, entre outras considerações e a título de esclarecimento aos leitores, afirma: o surrealismo, que em 1921 era poesia activa, é hoje, apenas, poesia estética; não estará ultrapassado, mas está certamente superado, transcendido por uma época onde já não faz sentido fora dos manuais de lteratura 5. Não cancela a sua aventura surrealista, contextualiza-a em função da sua própria formação, deixando bem explícito que de modo algum, me sinto envergonhado em relação ao trabalho que o Jornal de Letras e Artes está a publicar – foi feito com amor e, sobretudo, com sinceridade, reflectindo a minha ‘verdade’ da época em que o escrevi.

É então que intervém Mário Cesariny nas páginas do mesmo jornal (“Nota sobre a nota de Carlos Loures”) em 2-3-1966. Confessa ter lido os artigos e a nota de Carlos Loures com prazer e espanto: o prazer derivava do facto de o autor dos artigos ter feito um trabalho que coincidia com “a letra de um estudo” que o próprio Cesariny pensava fazer há muitos anos; o espanto por concluir que m Portugal, a adesão das pessoas ao surrealismo, ou mesmo só a alguns dos seus princípios, é muito raro aguentar mais de três anos. Faça-se a conta: Alexandre O’Neill, três anos (1947 até à publicação do Tempo de Fantasmas , onde abjura com gana). Mário Leiria, três anos. Vida pública do G. S. L., um ano. Eurico da Costa, três anos. Risques Pereira, três anos

É claro que Mário Cesariny – sete anos depois da experiência de Pirâmide, cujo projecto louva como revista aberta aos surrealistas, e sem mais contactos com Carlos Loures – não acompanhou a sua evolução cultural e ideológica e por isso manifesta a sua desilusão. Pensando identificar a nova posição do autor dos artigos com a problemática do neo-realismo, aproveita então para “arrumar” este movimento, utilizando – é bem que se diga – alguns lugares comuns que se tornaram autênticos estereótipos, sem uma análise específica e válida como apoio da sua argumentação.

A polémica entre os dois conclui-se com a resposta de Carlos Loures (“A propósito da nota de Mário Cesariny”), pulicada ainda no Jornal de Letras e Artes de 9-3-1966, onde confirma o seu juízo crítico relativamente ao surrealismo, cuja dinâmica e energia criativa, segundo ele, não representava o ‘prolongamento’ intelectual de uma acção instalada no seio da vida colectiva 8. Na sua nota ao jornal, perante a surpresa da publicação dos artigos, pretendia apenas esclarecer os leitores sobre o desajustamento existente entre a minha actual posição ideológica e um texto que, escrito há quatro anos e só agora publicado, veio ressuscitar um tempo retrospectivo da minha evolução cultural 9, justificando, deste modo, o seu afastamento do movimento surrealista.

Notas:
3 – Idem, ibidem.
4 -Idem, ibidem.
5 – Jornal de Letras e Artes, Lisboa, ano V, nº. 228, 9/2/1966, p. 2.
6 – Idem, ibidem.
7 – Idem, ano V, nº. 231, 2/3/1966, p. 1.
8- Idem, ano V, nº.232, 9/3/1966, p. 9
 9 . Idem, ibidem. p.1

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