– O Sr. Dr., quando chegar ao lugar dos Couços, pergunta pela casa da Rosa da Eira que toda a gente conhece. Ela não se pode dizer que esteja muito mal, mas diz que tem fisgadas no baixo ventre que lhe causam trupos no coração. E que há que Deus, tem de ser vista pelo Sr. Dr.
O tempo ainda estava frio, apesar da Primavera ter começado a desabrochar, e alguns farrapos de neve ainda pintalgavam de branco a encosta da serra.
O pobre Hillman Minx, fiel companheiro de duas décadas, com as velas mais que rompidas, estava longe dos tempos de jóvem, quando, calçado de pneus de faixa branca, se lhesentia o orgulho de tudosubirem terceira. Raramente se deixava abater, mas nesse dia gemeu a meio da serra, soluçou, e dá a ideiaqueatéchorou, poispareciam de lágrimas as pingas do motor. Ao fim de meia hora de merecidodescanso, láarranjoujeito de pegar, e, outrameiahoradepois, entravaofegante mas contente, na descida do lugar dos Couços.
A casa da.Rosa da Eira era grande, grandedemaisparatãorecônditos e inóspitoslugares. Toda de pedra mal talhada, negra do varrer dos anos, tinhanum dos toposumapequenacapela com a cruzquase a cair, e no outro uma extensa eira onde ladrava um cão.
-Ele não morde, Sr. Dr., faça favor de entrar. É servido de um copinho para retemperar da viagem?
A Sr. Rosa da Eira mal se via, afogadanaenorme e alvíssimacama de linho. Apesar das fisgadas do baixoventre e dos trupos no coração, tinha uma cara malandra e prazenteira, cujo sorrisinho macaco desarmava quem quer que se atrevesse a entrar com ar a mais no seu quarto a cheirar a lavanda.
-Como está Sr. Dr.?
E logo de seguida, sempestanejar:
– Sr. Dr., eusei como são os médicos. Nãoacertam à primeiranem à segunda, sóacertam á terceira, que é paralevar o dinheiro de três consultas. O Sr. -Dr.já me conhece e já ouviu falar de mim. Eu sou uma mulher de posses.Não me faltammatos e campos.Portanto, eupedia ao Sr. Dr. o favor de acertar logo à primeira, queeupago o preço das trêsconsultas, e assim, escusamos de andar para aqui a perder tempo.

