EDITORIAL – Os homens bons e a turba.

Imagem2Segundo a etimologia do termo e a teoria clássica da democracia, o poder político reside no povo. Platão foi o primeiro teórico a sistematizar as diversas formas que pode revestir a Cidade-Estado: Monarquia – governo de um só homem bom: Tirania (governo de um só homem mau, ou seja, uma perversão da Monarquia); Aristocracia, governo de vários homens bons – Oligarquia (distorção de Aristocracia, um grupo de homens maus partilhando o poder); finalmente, surge a Democracia – governo de muitos homens, ou seja, do povo; para esta forma de governação o autor de República não encontrou perversão ou distorção, visto que muitos homens, formam uma «Turba», e o conceito de Democracia inclui já, a par da sua forma correcta – um bom, governo do povo, a forma perversa – a barafunda e o caos – a «Turba».

Comprova-se que de Platão a Marx, o problema foi o de saber quem deve governar. Platão respondeu ingenuamente à sua própria questão – devem governar os melhores – os Aristocratas, os homens bons, mas nunca a Demos, a Turba, a balbúrdia. Marx foi da opinião que bons eram os da Turba…

Estes 40 anos decorridos após a Alvorada de Abril, passaram depressa para quem os viveu plenamente, ou seja para quem lutou contra a ditadura, viu renascer a Democracia e tem assistido ao seu assassínio lento. Hoje, a Democracia está reduzida a um conjunto de rituais, a um código de símbolos que foram aos poucos preenchendo o vazio de conteúdo verdadeiramente democrático.

Os «homens bons» da maioria parlamentar defendem o povo da turba, a Demos, daqueles que há 40 anos derrubaram os tiranos. Mas a História é escrita pelos vencedores.  Para esta gente  que ocupa o poder, a gente rasteira do «arco da governação», os homens bons são eles e como dizia um comentário a um nosso editorial, devemos estar gratos por  servirem a República em vez de ocupar lugares de administração e de receber honorários chorudos pelo seu suposto saber e competência.

Os militares de Abril não podem falar no Parlamento, numa Assembleia da República que cada vez se vai parecendo mais com a Assembleia Nacional do fascismo. É um absurdo, mas o que para uns é absurdo para outros é a verdade. O espírito do conselheiro Albino dos Reis volta àquele hemiciclo. O que para ele era a verdade, prevalece sobre o que para nós é a justiça.

1 Comment

  1. Parabéns, Carlos Loures!
    No Brasil também lutamos para restaurar a democracia depois de uma ditadura perversa e cruel que durou vinte anos, E muitos dos que compactuaram com a ditadura continuam no poder. Precisamos mesmo é de uma dezena de Mujicas preocupados com a polis e não com a riqueza e com os privilégios.
    abraço solidário!

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