“Celebrando Agostinho da Silva” – 11 – por Álvaro José Ferreira

Nota prévia:

Para ouvir os poemas e outros textos de Agostinho da Silva, bem como as “Conversas Vadias”,Imagem1

há que aceder à página http://nossaradio.blogspot.com/2014/04/celebrando-agostinho-da-silva.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

 O povo culto

Texto de Agostinho da Silva (de “O Terceiro Caminho”, in “Diário de Alcestes”, Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – pág. 26; “Textos e Ensaios Filosóficos I”, org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – pág. 217) Lido por José-António Moreira (in “Sons da Escrita” N.º 299, 08-Out-2010)

Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos, não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno.

Tolerância às opiniões

Texto de Agostinho da Silva (de “Tolerância”, in “Diário de Alcestes”, Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – pág. 20; “Textos e Ensaios Filosóficos I”, org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – pág. 214) Lido por José-António Moreira (in “Sons da Escrita” N.º 299, 08-Out-2010)

Para que os homens possam sentir-se felizes com a minha companhia, é necessário antes de tudo que eu tenha a grande força de ver como prováveis as opiniões a que aderiram, desde que as não venham contradizer os factos que posso observar; não devo supor-me infalível; não devo considerar-me a inteligência superior e única entre o bando de pobres seres incapazes de pensar; cumpre-me abafar todo o ímpeto que possa haver dentro de mim para lhes restringir o direito de pensarem e de exprimirem, como souberem e quiserem, os resultados a que puderam chegar; de outro modo, nada mais faria do que contribuir para matar o universo: porque ele só vive da vida que lhe insufla o pensamento poderoso e livre.

Realização e êxtase

Texto de Agostinho da Silva (de “Sobre o Êxtase”, in “Diário de Alcestes”, Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – págs. 17-18; “Textos e Ensaios Filosóficos I”, org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – págs. 212-213) Lido por José-António Moreira (in “Sons da Escrita” N.º 299, 08-Out-2010)

Conviria distinguir bem um do outro o caminho para o êxtase e o próprio êxtase; o primeiro ainda pode ter algum interesse por todas as lutas interiores, por todas as incertezas, por todo o esforço de pensar amplamente a que em geral dá origem; no entanto já nele mesmo poderíamos ver, além de uma preocupação egoísta, uma alternativa de esperança e desespero, um gosto da revelação e dos auxílios sobrenaturais que não poderão talvez classificar-se como superiores. Do êxtase, porém, não alimentamos grandes desejos; o amor que nele descobrimos não pertence à categoria do amor que mais nos interessa — o que eleva o amado acima de si próprio, o que se esforça por esculpir uma alma com entusiasmo e paciência; é um amor a que se chega como recompensa de tarefa cumprida; não marca as delícias do caminho difícil, apaga-as da memória; faz desaparecer do peito do homem o seu único motivo de alegria, a sua única fonte de verdadeira glória. Viver interessa mais que ter vivido; e a vida só é vida real quando sentimos fora de nós qualquer coisa de diferente; se a diferença se tornar oposição, se o que era caminho diverso se transformar em muro de rocha, então no duelo que se trava, no instável equilíbrio que a cada momento se pode romper e precipitar-nos das alturas, nesta batalha em que não há um minuto de rancor pelo adversário, encontraremos a grande e forte vida; ora o êxtase consiste realmente no apagar das distinções, na identificação perfeita de dois termos.

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