A vizinhança, sempre hostil e ameaçadora de um estado ávido de nos absorver, de nos destruir como entidade histórica e cultural, transformou-se ao longo dos séculos num elemento positivo, pois foi pela gula hegemónica de Castela que, acautelando fronteiras de débil significado geo-estratégico, virámos costas à Europa e olhámos com curiosidade e determinação o oceano. Talvez tenha sido a tentação de disputar a Castela o trono e o ceptro que levou a nobreza galega a não se unir aos portugueses. Porém, basta de evocações históricas – a realidade é o que é e a nostalgia, boa para inspirar poemas e canções, não permite ajustar as contas que o passado nos deixa para pagar.
A realidade mostra-nos um rectângulo no extremo ocidental da Europa e um território cinco vezes maior, interpondo-se entre esse rectângulo e o resto do continente. Sabemos que esse estado vizinho é composto por um mosaico de culturas. No entanto, uma delas sobrepõe-se às demais, esmagando-as, procurando eliminá-las. Há quem ponha em dúvida a legitimidade do estado espanhol e conteste o seu direito de existir. Nós pensamos que séculos de mentira, de arrogância imperialista e de soberba hegemónica, forjaram uma realidade. Não pensamos que Espanha tenha de ser desmantelada na sua totalidade para repor a justiça e a verdade. O espanholismo, o patriotismo espanhol, enraizou-se não só nos castelhanos como em muitos dos outros peninsulares submetidos ao domínio de Madrid. Se quisermos mostrar uma Espanha ridícula, decadente e podre, falaremos de flamenco e castanholas, de touradas e bandarilhas, de uma monarquia mentecapta, com sórdidos Bourbons que por aqui andaram também e de que Carlota Joaquina foi amostra exemplar. Mas existe uma outra Espanha – a de Goya e Picasso, a de Albéniz e Lorca…
Que vivam e deixem viver.
A nossa irmã Galiza, terra onde nasceu a nossa língua e de onde vieram os barões que a golpes de espada, talvez por razões espúrias, por motivos pessoais, por querelas familiares, nos separaram do império central, vive um momento decisivo da sua História – o da afirmação da língua portuguesa como idioma oficial da nação galega. Vamos, a partir da próxima semana dedicar a esse tema uma atenção especial. A independência das colónias europeias – Catalunha, Escócia, País Basco, Irlanda… – é uma das causas a cuja defesa nos comprometemos. Por maioria de razão, a libertação da Galiza é a mais importante de todas essas causas.
Na véspera do 25 de Abril, lembramos a afirmação de José Afonso de que a Galiza era a sua segunda pátria. Portugal e Galiza, a mesma língua, a mesma luta!

GALIZA
Desde os tempos livres, gallaecia celtica,
Do pisar do chão druídico Atlântico
Clama o nosso povo a Liberdade
Roubada por um povo estranho e bruto!
Sobre os ossos dos avós da nossa Terra,
Passeia a bruta gente degradante
Roubando a nossa língua à nossa Gente
Trazendo ao nosso povo infâmia e guerra!
Que o clamor do nosso povo, dividido,
Seja ouvido pelos homens bons do mundo
E um deles, filho nosso, nosso Clã,
Connosco queira à Terra Nossa Breogã!
Agigantam-se os Heróis da nossa Terra!
Ondas de revolta expandem-se no ar…
Levanta-se o povo a gritar e a cantar
Que o ocupante negro e bruto haverá de expulsar!
AGM