25 de Abril de 1974, tinha eu 19 anos de vida em ditadura. De vida vivida na repressão de um ambiente social que nos fazia desconfiar de todos, quase em todos os lugares. Saía de casa e era avisada para ter cuidado com quem falava e com o que dizia. Porquê. Não se sabia bem, talvez alguém pudesse ouvir e fazer queixa, a quem? À polícia, ou melhor à PIDE. À PVIDE, dizia logo o meu pai, porque sabia que a PIDE tinha já tido outro nome, como anos mais tarde seria eu a dizer PIDE quando diziam DGS. Os lobos vestem- se de muitas peles para apanharem e abocanharem as suas presas…
As músicas, que ajudavam a construir o sonho da realidade de um dia mais justo, eram ouvidas quase às escondidas, näo fossem ” eles” ouvir o que estávamos a ouvir e virem- nos bater à porta, ou seja, ao medo de ser denunciado. Mas na ditadura há sempre maneira de resistir nem que seja com um copo de água, não ” para que mire el necio” mas para que as ondas radiofónicas fizessem interferência nos aparelhos malévolos de escuta dos pides e dos bufos. Bufo, palavra dita sempre com desprezo, porque denunciar era eticamente imperdoável!
25 de Abril dia inesquécivel quando de madrugada se ouviu a voz do Zeca Afonso. Zeca Afonso ensinou as vozes mais desafinadas a cantar em ambientes de fumo, de desconforto físico, as mais belas canções de esperança e de denúncia de uma sociedade injusta, repressiva, sem festa, mas que ” num comboio descendente iam todos à gargalhada”. As crianças mal tratadas e com fome ” queira ou não queira o papão” haviam de cantar a canção da Liberdade.
25 de Abril, a caminho do Liceu viam- se militares armados nos telhados do quartel General do Porto. Nessa manhã transportava comigo o livro mais odiado do então 7 ano do Liceu: o livro de Organização Política e Administrativa da Nação. Ia todo sublinhado a lápis, a esfergráfica que deixava borrões de tinta onde pousava, mas para quê outra bic? Se o que estava sublinhado era para se esquecer!
25 de Abril, quinta feira, era dia ” de ponto de Organização Política e Administrativa da Nação”. Mas neste dia de festa não houve ponto, houve livros pelo ar, houve faltas injustificadas/ justificadas às aulas.
Fomos para a rua, quem mandava neste dia? Kaulza, Spínola? Não sabíamos, mas sabíamos que a ” a Liberdade estava a passar por aqui “. Não havia horários para nada senão para andarmos na rua, senão para as lágrimas quando soubemos da libertação dos presos políticos, quando gritávamos que o MFA era filho do Povo, quando acreditávamos que o Povo Unido Jamais Seria Vencido e, para isso, cerrávamos fileiras de braços dados…a palavra LIBERDADE era gritada até ficarmos sem voz: afinal era possível gritá-la bem alto, sem medo, sem olharmos para trás. As canalizações do medo tinham rebentado e as mordaças romanticamente tinham sido rasgadas.
25 de Abril Sempre, Fascismo nunca Mais! Quem se atrevia a pensar o contrário? ” Os Fachos, ” claro , muitos foram para o Brasil… a ESCOLA PASSOU A TER CRAVOS EM VEZ DE PALMATÓRIA, VÁRIOS LIVROS EM VEZ DO LIVRO ÚNICO, PASSOU A TER ELEIÇÕES PARA A DIRECÇÃO, PASSOU A SER PENSADA NO ALUNO ENQUANTO AGENTE ACTIVO NO SEU PROCESSO EDUCATIVO, OS PAIS PASSARAM A IR À ESCOLA, a escola era do e para o Povo. Sonhei e ainda sonho que a Escola e os Cravos vão fazer a nossa sociedade mais justa e mais livre. O 25 de Abril trouxe a alegria de se ter esperança, de se dar sentido à vida social, afinal nascemos para sermos felizes e solidários, trilhemos então os caminhos que Abril abriu.
*Lindo recordar esse momento …linda a Esperança de se ver LIVROS e CRAVOS de mãos dadas [?]Maria *