Nos 40 anos do 25 de Abril – Temos de voltar a sonhar! – por por António Gomes Marques

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É verdade, são já passados 40 anos sobre o dia que nos permitiu pensar, nos dias que se seguiram, que os sonhos poderiam tornar-se realidade. Que ilusão!

Agora, quem me lê, pensará que também não há razão para tanto pessimismo e à minha memória ¾é dela que nos socorremos para alinhavar algumas palavras sobre tão importante acontecimento¾ logo ocorrem palavras de Jean-Paul Sartre sobre o comentário de alguém que classificava o cinema neo-realista italiano de pessimista, dizendo o filósofo que não se tratava de pessimismo mas sim de realismo. Eu também quero falar de realismo!

Enquanto vou escrevendo, na esperança de que a memória me conduza por bom caminho, os olhos não deixam de me lembrar o jornal i de 23 de Abril de 2011, que desde então mantenho aberto na página 19 na minha mesa de trabalho, em que se inicia uma entrevista com uma das pessoas que muito contribuiu para a implantação da democracia em Portugal, Mário Soares. O jornal chama para título esta declaração do político português: «Passos Coelho é uma pessoa bem-intencionada com quem se pode falar». Por que razão terei eu guardado este número do jornal? Adivinhava eu que, mais tarde, perante a realidade, as muitas e variadas declarações de Mário Soares viriam a negar esta sua afirmação? Se calhar guardei este número do jornal para me encontrar justificado sempre que cometa idêntico erro em qualquer afirmação.

Não, não foi esta a razão. Guardei este exemplar do jornal por pensar que muitos dos problemas que hoje vivemos poderiam ter sido evitados se Mário Soares não tivesse errado como errou muitas vezes ao longo destes 40 anos, tendo em conta que eu não tinha qualquer dúvida de que, com aquela afirmação sobre Passos Coelho, Mário Soares estava a errar mais uma vez.

Passemos agora à memória a palavra, que não pára de me pedir que lho permita, o que faço mas procurando ter em conta o espaço que tenho para ocupar hoje no blogue, seleccionando apenas dois ou três factos.

Após o 25 de Abril, temia-se que a Caixa Geral de Depósitos entrasse em convulsão, tendo a Junta de Salvação Nacional convocado para a Cova da Moura a recente eleita Comissão Executiva de Trabalhadores (CET) ¾era assim que se designava antes da publicação da lei que viria regulamentar as Comissões de Trabalhadores¾, tendo eu sido um dos eleitos, cabendo-me a mim a sua representação no encontro aprazado, onde fui encontrar muitos outros representantes de trabalhadores das mais variadas áreas. Mas não é este o facto de que quero dar conta, mas sim de um outro encontro acontecido de seguida, provocado por um dos Conselheiros(?) da JSN, o Dr. Vieira de Almeida, preocupado com o pedido de saneamento que os trabalhadores da CGD haviam exigido dos membros do Conselho de Administração, com excepção do Dr. Silva Lopes (na altura também em funções junto da JSN). O Dr. Vieira de Almeida, com extrema delicadeza, quis lembrar-me que um dos membros do C. de A. da CGD que pretendíamos ver saneado, quando Ministro do Interior de Salazar, havia pedido a demissão após a polícia política se ter atrevido a prender três personalidades, ao que respondi que não ignorava tal facto, como também não ignorava que uma dessas personalidades era o seu pai, o Professor Vieira de Almeida, acrescentando eu que esse pedido de demissão não tinha surgido quando foram presos e torturados muitos outros cidadãos. O Dr. Vieira de Almeida, perante esta minha resposta, sorriu e despediu-se cordialmente não voltando a desenvolver qualquer outro contacto com o mesmo objectivo junto da estrutura dos trabalhadores da CGD. Lembremos que as outras duas personalidades eram António Sérgio e Jaime Cortesão.

Após a demissão da Administração da CGD, foi nomeada pela JSN uma Comissão Executiva para a CGD, presidida por um dos membros da administração demitida, curiosamente um dos mais convictos salazaristas. A resposta a esta provocação, da qual a CET nunca responsabilizou o Dr. Vieira de Almeida, não tardou. O Jornal República viria a divulgar um artigo daquele senhor, mais salazarista do que Salazar, escrito num jornal regional, em que ele, ainda jovem, havia defendido a extinção dos comunistas, o que o levou a demitir-se de imediato quando a CET pediu uma reunião para discutir o texto divulgado no República.

Registe-se também que os trabalhadores da CGD souberam ser responsáveis!

Mas a minha memória insiste em que eu conte outro facto, este mais divertido, também acontecido nesse período.

Ora, nestes primeiros tempos do pós-25 de Abril, a CET era constantemente solicitada para reunir com os trabalhadores nos mais variados pontos do país. Uma dessas solicitações veio dos trabalhadores na cidade do Porto, sendo um dos pontos propostos para discussão a prepotência do chefe dos Tesoureiros, razão suficiente para tal solicitação ser prontamente atendida pela CET.

Quando se fala da prepotência exercida por algumas chefias em empresas privadas e instituições estatais todos os que viveram aqueles tempos sabem o que pretendemos referir, não havendo necessidade de entrar em grandes pormenores, mas vale a pena dizer que um dos «prazeres» daquele chefe dos Tesoureiros na Filial do Porto era, na véspera ou nuns dias antes do início de férias de um Tesoureiro, ele se dirigir a um destes informando-o de que teria de alterar o período de férias dado que seria indispensável ao serviço nas datas previamente acordadas para o gozo de férias. Os transtornos causados ao trabalhador e à sua família eram inumeráveis, mas o chefe gostava de mostrar também assim a sua «autoridade».

Fui um dos destacados da CET para ir ao Porto. Comigo foi também o Jorge Matias e, se a memória não me falha, o Serra de Oliveira e o Correia. O José Vitória Fernandes cedeu-nos o carro e o Jorge Matias ofereceu-se para conduzir, ficando o regresso à noite por minha conta, como era habitual.

Partimos com tempo suficiente para cumprir os horários estabelecidos; no entanto, o trânsito para o Porto nesse dia foi infernal, com muitos camiões a impedir-nos de andar à velocidade necessária para chegar a horas pois, não esqueçamos, tínhamos auto-estrada até Aveiras, julgo, e depois só a ela teríamos acesso de novo perto já da cidade do Porto.

O relógio não parava e o trânsito aumentava.

Perante os comentários que uns e outros iam fazendo quanto à demora não programada, o Jorge Matias informou-nos de forma categórica: «Não se preocupem, garanto que chegaremos a horas!»

Eu ia «no lugar do morto» e nunca fiz uma viagem em que tanto tivesse temido pela vida. O Jorge, quando apanhava a estrada um pouco mais larga, apontava o carro ao meio das duas filas que corriam em sentido contrário uma à outra, e acelerava, levando os carros de uma e outra fila a desviarem-se um pouco para a direita de modo a que o Jorge, como um senhor que não poderia ser contrariado, passasse pelo meio. Chegámos a horas, o Jorge Matias tinha cumprido a promessa que nos havia feito!

Fomos de imediato para o local da reunião, onde um enorme número de trabalhadores já se encontrava, cumpridores de horários como nós mas, naturalmente, sem os sobressaltos que os membros da CET tinham vivido.

Iniciada a reunião, nervosíssimo ainda pelos factos relatados, tomei a palavra, como estava acordado entre nós, desancando no chefe prepotente de forma brutal. Em determinado momento, vi um dos presentes a tentar interromper-me, o que não permiti, informando-o de que poderia falar quando eu terminasse.

Continuei o discurso agressivo e verifiquei que a pessoa que tinha tentado interromper-me se encaminhou para a saída, desaparecendo da reunião.

No final, fui abraçado por muitos dos Tesoureiros, que me informaram de que o prepotente chefe era o que tinha tentado interromper-me. Mais importante que tudo foi vir a verificar-se que as prepotências daquele «funcionário» da CGD, mesmo continuadas depois do 25 de Abril, terminaram de vez após aquela reunião. A CET tinha cumprido com êxito mais uma das suas missões!

O que não futurámos naqueles momentos foi que, hoje, a cumprirem-se os 40 anos da Revolução de Abril, tivéssemos um governo que tudo tem feito para que tais prepotências passem a ser o dia a dia dos trabalhadores portugueses. Mas somos um dos países, tendo em conta a área do território, com uma das maiores redes de auto-estradas… quase semtrânsito!

Portela (de Sacavém), 2014-04-25

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