O 25 DE ABRIL DE 1974 VISTO POR CINEASTAS, ANOS DEPOIS DO ACONTECIMENTO por Clara Castilho

 

Quem não trabalhava no cinema na época de 1974 também pode ter um olhar sobre o que aconteceu e fazer surgir boas obras. É o caso do filme de Sérigo Tréfaut – Outro País – de que só existe na net um pedaço com 6 minutos, do  documentário  de Edgar Pera – 25 de Abril Uma Aventura para a Democracia e do filme “48” de Susana Sousa Dias, sobre a actuação da PIDE junto dos presos políticos.

 Outro País, de Sérgio Tréfaut

 Esta é a primeira longa-metragem de Sérgio Tréfaut, feito a partir de imagens de arquivo de fotógrafos e realizadores estrangeiros filmadas em Portugal por altura dos revolucionários anos de 1974-75. Durante a revolução dos cravos alguns dos maiores fotógrafos e documentaristas do mundo desembarcaram em Lisboa para recolher imagens: Glauber Rocha, Robert Kramer, Thomas Harlan, Pea Holmquist, Santiago Alvarez, Sebastião Salgado, Guy Le Querrec, Dominique Issermann, Jean Gaumy, etc. Quase todos sonhavam com um mundo diferente. Vinham de Maio de 68, do Vietname, do Chile e viviam a Revolução Portuguesa como um laboratório único de experiências. O que descobriram em Portugal? Quais eram os seus sonhos e expectativas? O que ficou do sonho da revolução?

É um documentário que reúne arquivos históricos excepcionais. A pesquisa para este documentário revelou cerca de 40 filmes estrangeiros sobre a Revolução Portuguesa, não existindo de quase nenhum deles tinha cópia em Portugal.

Sérgio Tréfaut nasceu no Brasil em 1965, filho de pai português e de mãe francesa. Estudou filosofia na Sorbonne (Paris I) e começou a sua vida profissional em Lisboa, nos anos 90, como jornalista e assistente de autores como Teresa Villaverde, José Álvaro de Moraes e António Campos.

25 de Abril Uma Aventura para a Democracia, de Edgar Pera

Trata-se de um documentário experimental de Edgar Pêra, uma espécie de “remix”, com base nos arquivos do 25 de Abril. É um filme sobre o fim do fascismo e o 25 de Abril, visto a partir das ruas e dos rostos das pessoas. Mais do que mostrar a revolução militar, revela a adesão popular ao movimento. Imagens e sons do passado (a ditadura e a libertação) misturam-se com imagens e sons do presente (manifestações de apoio à independência de Timor).

Edgar Pêra nascido em Lisboa, em 1960, é apelidado de “inventor do cinema de guerrilha português”, escavou o seu próprio cinema, contrariando o meio e descobrindo uma linguagem.

“48” DE SUSANA SOUSA DIAS

Filme de 2009, conta as histórias – a partir de fotografias de cadastro – de homens e mulheres que foram presos e torturados pela PIDE.

Todos os depoimentos foram filmados mas Susana de Sousa Dias optou por montar apenas o som, sobrepondo-lhe as fotografias tiradas pela PIDE, dos presos políticos entrevistados para o filme. Através do alinhamento de breves testemunhos de resistência e sobrevivência contados na primeira pessoa, chegamos à repressão e tortura usados no Estado Novo (1926-1974): regime que vigorou em Portugal pelo período de 48 anos, daí o título deste filme, que denota a intenção de transcender os depoimentos reunidos rumo à radiografia existencial de um país reprimido.

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