Um história de jovens que queriam uma Nova Realidade (antes do 25 de Abril) – por Flamarion Maués*

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*historiador

Nos 40 anos do 25 de Abril, gostaria de prestar uma pequena homenagem aos editores de livros que, antes do fim da ditadura, tiveram a coragem e a capacidade de criar em Portugal editoras para publicar obras que se opunham à opressão, e que representaram uma forma muito concreta e direta de luta e resistência ao regime salazarista. Foram muitos editores e editoras (ver nota final), mas aqui na Viagem dos Argonautas,é mais do que justo abordar um caso muito interessante e pouco estudado: o da Editora Nova Realidade, sediada em Tomar.

A editora foi criada por três amigos, Carlos Loures, Manuel Simões e Júlio Estudante em 1966. Nessa altura, Simões era funcionário do Banco de Portugal e aluno do curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras de Coimbra, cidade onde residia. Carlos Loures era bibliotecário da Fundação Calouste Gulbenkian e Júlio Estudante era contabilista na Fábrica de Papel de Porto de Cavaleiros (Tomar). Ambos residiam em Tomar.

Carlos Loures e Manuel Simões falaram-me sobre o assunto em outubro de 2012. Louresassim resume o projeto que levou à criação da editora: “Por meados da década de 1960, [consideramos] a hipótese de criar uma editora outsider que publicasse obras de índole política. Obras merecedoras de publicação, mas que, por razões óbvias, as editoras comerciais não se arriscavam a publicar”.

Manuel Simões, em texto publicado na Itália, aprofunda um pouco mais a concepção que deu origem ao projeto: “[…] nasceu como exigência de dar voz ao pulsar alternativo que se pressentia na intellighezia portuguesa que, por sua vez, já não se sentia representada pelo discurso literário do neo-realismo, mas sem que a alternância recaísse num pathos utópico, quer dizer, numa literatura de esperança abstrata. […] De certo modo o grupo de “Nova Realidade” procurava reformular uma perspectiva crítico-histórica da obra artística […].

Um dos apoios iniciais, e importantes, que o trio obteve para pôr em prática a ideia veio do poeta Joaquim Namorado, que apadrinhou a ideia e lhes forneceu uma cópia do arquivo de assinantes da revista Vértice,editada em Coimbra desde 1942 e caracterizada pela intervenção política de oposição durante a ditadura, com forte perfil militante. “Foi um importante contributo, pois permitia-nos vender uma boa parte da edição antes de a colocarmos no circuito de distribuição”, diz Loures.

Os três fundadores da editora não pertenciam a qualquer partido ou grupo político, mas eram militantes da oposição à ditadura. As decisões sobre os títulos a serem editados eram tomadas de forma colegiada. Júlio Estudante assumiu as responsabilidades pelas funções administrativas da editora e pelo contato com as tipografias.

Imagem1O primeiro livro saiu ainda em 1966. Foi a obra Cantares, de José Afonso, “a primeira recolha de textos cantados por esse grande renovador da expressão musical portuguesa”, como lembrou Simões no prefácio à 3ª. Edição da obra. O livro teve a coordenação de Manuel Simões e Rui Mendes, e perseguia o objetivo programático da editora de fazer interagir a consciência ética com a exigência estética, afirma Simões. Ele relembra que Zeca Afonso apoiou plenamente a ideia: “Pedido o consenso ao autor, então a lecionar na Beira, em Moçambique, a quem se tinha mandado, para eventuais correcções, a transcrição dos textos gravados a que era possível ter acesso, a sua plena adesão ao projecto constituiu uma motivação ainda mais encorajadora, sobretudo pelo envio de materiais inéditos, só mais tarde revelados entre nós, o que significava uma sintonia de opiniões quanto à validade da proposta e quanto à autonomia poética dos textos”.

O livro, lembra Simões, “foi vendido de mão em mão e enviado pelo correio a pessoas que julgávamos interessadas”, e esgotou-se rapidamente, havendo a necessidade de ainda em 1966 ser lançada a segunda edição. Por se tratar de obra de um dos cantores mais claramente identificados com a oposição ao salazarismo, os editores tiveram que tomar certos cuidados: “Como Tomar é uma pequena cidade de província e porque havia a suspeita de que um carteiro era informador da PIDE, as encomendas postais foram expedidas de várias cidades próximas, para não alertar a polícia”, conta Simões.

De acordo com Loures, “os livros susceptíveis de ser apreendidos, eram rodeados de cuidados especiais. Geralmente não eram expostos nas montras ou escaparates. Eram, como se dizia na época, vendidos ‘por baixo do balcão’ a clientes especiais”. Ele diz que “Havia um conjunto de livrarias espalhadas pelo país que absorvia grande parte da edição, como por exemplo a Divulgação, no Porto, a Martins, de Leiria. Em Lisboa, era a Quadrante, a Barata e, a partir do fim da década, a Ler, do Luís Alves. E havia outras”.Imagem2

Em 1967 a editora lançou outra obra que marcou época:o livro O canto e as armas, do poeta Manuel Alegre. Simões relembra: “O autor estava exilado em Argel e era o speaker de uma rádio clandestina (Rádio Portugal Livre) que transmitia da Rádio Nacional de Argélia. Foi uma edição preparada com muito cuidado e com uma tiragem de 3 mil exemplares (enorme para a época) mas esgotada numa semana. Quando a PIDE interveio, o livro estava esgotado: fez-se fila nas livrarias para conseguir um exemplar. Foi proibido, mas já não havia livros disponíveis”.

Imagem3Nesse mesmo ano saiu Hiroxima, uma antologia poética que trazia também depoimentos de poetas portugueses sobre o ataque atômico em 1945 às cidades japonesas de Hiroxima e Nagasaki. O livro, coordenado por Loures e Simões, representava um claro ato político, como explicitam os organizadores no prefácio: “Numa altura […] em que hiroximas se estendem da África à Ásia […] o nosso silêncio responsabilizar-nos-ia perante o julgamento futuro das épocas de crise e sua explicação histórica”.

Nesta mesma linha foi produzida, em 1970, outra obra, Vietname, também organizadaImagem4 por Loures e Simões, em que os poemas e os depoimentos de poetas portugueses sobre a agressão norte-americana àquele país serviam também “para condenar a guerra colonial portuguesa, em ato desde 1961”, destaca Simões. Segundo dizem os organizadores no prefácio, nesta obra “o poeta revive as tarefas de resistir […]. E o seu verbo não esconde a acusação contra o gesto que envergonha a humanidade”.

A Nova Realidade deu ênfase em seus lançamentos à poesia de tons políticos. Além das obras já mencionadas, publicou também na poesia: Os homens cantam a Nordeste, de António Cabral (1967); O comércio dos nervos, de Armando da Silva Carvalho (1968); Algumas palavras, de Eduardo Guerra Carneiro (1969); Crónica Breve, de Manuel Simões (1970);Poesia amordaçada: Cânticos a Pablo, de José Ferreira Monte (1970); e Meu canto terra, de Costa Mendes (1971).

“A insistência nos textos poéticos deve-se à preferência do público por este género, em detrimento da prosa”, explica Simões. “É que, através das metáforas, era possível fazer passar certas mensagens que, de outro modo, não passariam”, completa.

Em 1969, já com um pequeno catálogo de alguns livros publicados, os proprietários da Nova Realidade, ao lado de outros sócios, decidiram criar, também em Tomar, a Raiz, “uma livraria que funcionava como plataforma logística das edições da Nova Realidade”, diz Loures, e que também fazia a distribuição dos livros da editora. Carlos Loures ressalta que “A poucos quilómetros de Tomar, no Entroncamento, funcionava uma delegação da polícia política. A Raiz era visitada com frequência por brigadas da PIDE/DGS”.

Entre 1966 e 1976 a Nova Realidade editou cerca de 20 títulos, todos comprometidos com ideias e posturas de oposição à ditadura. O período de maior atividade vai até 1972. Depois disso as edições apenas são retomadas em 1976 com dois lançamentos, mas de forma descontinuada. Nos anos 1980 há alguma atividade, porém pouca.

Carlos Loures, que em 1971 fora viver em Lisboa, deixou de fazer parte da direção da Nova Realidade a partir desse ano.

A destacar ainda que a Nova Realidade tinha também um “segundo selo”, o Novo Rumo. Com este selo foram editadas duas obras: A voz e o sangue, de Carlos Loures (1967), que era um violento libelo contra a ditadura; e Guevara: antologia, organizado e traduzido por Adriano de Carvalho e João Bernardo (1967).

Por este breve resumo da história da Nova Realidade, e de alguns títulos que editou, considero que é possível se ter uma ideia do significado e da importância dessa iniciativa naqueles anos. Foi certamente uma das primeiras editoras de intenção política a surgir na década de 1960, com um projeto estético, intelectual e político bem definido, e que conseguiu ter uma marcante atuação política, principalmente com edição de obras de poesia.

A Nova Realidade manteve sempre total independência de grupos ou partidos políticos, sem nunca deixar de ser uma editora nitidamente política. Apesar de ter publicado relativamente poucos títulos (cerca de 20), constituiu sem dúvida uma das experiências editoriais independentes mais interessantes dos anos 1960 e 1970 em Portugal.

NOTA:

Este artigo deriva de minha tese de doutorado “Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80”, defendida na Universidade de São Paulo em 2013, e que pode ser lida em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-07112013-131459/pt-br.php

ERRATA da tese:

Na primeira página dos Agradecimentos, onde se lê “Eduardo de Sousa, da Livraria Ler, de Lisboa”, leia-se “Eduardo de Sousa, da Livraria Letra Livre, de Lisboa”.

p. 95, 184, 195 – Na linhas sobre a Editora Germinal, onde se lê José Manuel, leia-se José Manuel Ferreira.

p. 96 e 223 – Em relação à Editorial República, acrescentar: Editor: Raul Rêgo.

p. 195 – Desconsiderar a frase: “Infelizmente, não foi possível saber qual o sobrenome de José Manuel.”

p. 417 – Trocar a frase: “Os novos proprietários nomearam Nélson de Matos, que havia antes trabalhado na Editora D. Quixote, para a direção da editora, cargo que ele ocupou até 1976.” por: “Os novos proprietários nomearam Nélson de Matos para a direção da editora, cargo que ele ocupou até 1976.”

p. 419 – Eliminar o seguinte parágrafo: “Juntava-se a experiência do novo diretor editorial, Nelson de Matos, que editara muitas obras de caráter político na Editora D. Quixote, com uma nova conjuntura política em que tais obras ganhavam espaço.”

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