CONTOS & CRÓNICAS – LEIF ERIKSON Descobridor: 985 (?) – 1045 (?) – por Fernando Correia da Silva

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QUANDO TUDO ACONTECEU…

Cronologia estimada pois, de certeza, só se sabe que a descoberta aconteceu por volta do ano 1000.

950: Por ter cometido homicídio, o viking Thorvald, avô de Leif Erikson, é expulso da Noruega e arriba à Islândia. – 965: Erik, o Vermelho, filho de Thorvald, funda Erikstadir, na costa ocidental da Islândia. – 982: Expulso da Islândia, Erik descobre a Groenlândia; nascimento de Leif Erikson. – 985: Erik leva colonos da Islândia para a Groenlândia – 998: Leif Erikson, filho de Erik, arriba às Ilhas Hébridas – 999: Leif Erikson chega à Noruega e converte-se ao cristianismo. – 1001: Leif Erikson busca a terra misteriosa a ocidente e descobre Vinland, o País das Uvas – 1045: Data estimada da morte de Leif Erikson.

UM CARVALHO SOLITÁRIO

            Olaf Ohman, agricultor sueco. Gigante loiro emigrado nos Estados Unidos da América, condado de Salem, perto de Kesington, a 1500 quilómetros da costa Atlântica. Um carvalho é o imperador solitário da sua herdade. Mas Olaf precisa de mais terra para cultivar. Decide-se: numa manhã de Agosto de 1898 abate a árvore. Depois do almoço tenta desenterrar as raízes. Elas resistem, abraçadas a uma rocha inesperada. Só ao anoitecer Olaf consegue trazer a pedra à superfície. Laje rectangular, 80 por 40 centímetros. Rabiscos numa das faces. Limpa a superfície com a manga da camisa. Surgem caracteres familiares, iguais a tantos que ele já vira gravados, na Suécia, em pedras chamadas runas. É apelo súbito do longe, país distante, neves eternas e fiordes, gansos selvagens a cruzar os céus… Comunica o achado às autoridades locais. Estas convocam um especialista que faz a tradução dos caracteres rúnicos:

            “Somos 8 suecos e 22 noruegueses em viagem de exploração para Oeste, depois da descoberta do País das Uvas. Acampámos perto destes dois rochedos, a alguns dias de marcha, para o norte desta runa. Afastámo-nos por um dia, para pescar. Quando voltámos, encontrámos 10 dos nossos companheiros cobertos de sangue e mortos. Ave Virgo Maria, salva-nos do perigo. Deixámos 10 dos nossos companheiros junto à costa, de guarda aos nossos barcos e à distância de 14 dias de marcha, nesta ilha. Ano de 1362.”

            Vikings na América? Tantos anos antes de Colombo? Olaf recorda as sagas da sua infância.

    

ERIK, O VERMELHO

            Embarcações esguias. Proas altas rematadas por carrancas. Dezasseis ou mais pares de remos. Velas quadrangulares. No séc. X piratas louros sulcam os mares do Norte. Surgem, fundeiam, saltam em terra. Matam, saqueiam e devastam as povoações do litoral europeu que lhes fica mais ao sul. Os normandos, os vikings, os piratas das baías… Pilham tudo. De preferência ouro e colheitas…

            Depois regressam aos seus fiordes natais. Logo tratam de amansar a violência. Logo retornam à condição de pescadores; ou de pastores; ou de camponeses; ou de tudo isso em tempos alternados. Sujeitam-se voluntariamente a um código rígido de conduta que prevê a pena de ostracismo para quem perturbe a ordem pública.

            Cerca de 950 o viking Thorvald comete um homicídio. É expulso da Noruega. Pensa exilar-se na Escócia ou na Irlanda. Todavia sabe que nesses países todas as terras já têm dono. Se quiser tomar uma leira para si, arrisca-se a outras lutas, outras mortes e punições. Lembra-se então da velha lenda: mais ao norte haverá uma ilha com terras livres, país da bruma, Islândia, Terra dos Gelos. Embarca com os seus homens e respectivas famílias. Aponta ao Norte a proa do sneque. Erik, seu filho e adolescente de cabelos ruivos, é o encarregado de vigiar a sejersten i Ker: a pedra negra e mágica que Odin, o pai dos deuses, doara aos navegantes. Montada sobre uma cápsula de madeira, e esta a flutuar numa vasilha cheia de água, indica invariavelmente o Norte. Semanas depois arribam à Islândia. Desilusão: as melhores terras já estão ocupadas. Thorvald contenta-se em rasgar uma herdade na costa noroeste da grande ilha. Paisagem de rochedos e mar bravio, terra xistosa e calva, logradouro de ventos.

            Ali cresce Erik, o Vermelho, cardo agreste. Chegado à idade adulta casa-se e levanta um lar junto da família da sua mulher. Transfere-se depois para a costa ocidental da Islândia. Inicia um combate contra o gelo e contra a neve. Acaba por lhes conquistar um bom pedaço de terra húmida, fértil, virgem de sementes há milénios. Montanhas altas e cobertas de neves eternas dão-lhe abrigo contra as nortadas. Erikstadir é o nome do povoado. Mil anos depois ainda constará nos mapas da Islândia.

            Pesca, agricultura e pastorícia. Labuta fatigante, porém tranquilidade. Até que irrompe uma disputa de terras com um vizinho. Já ferve em Erik o sangue de Thorvald. Provoca o desmoronamento de um morro sobre a herdade do adversário. É acusado de perturbar a ordem pública. Defende-se. Atribui aos Deuses o acto a que chama de justiça. Eyol, o Infecto, parente do lesado, não aceita o argumento. Vinga-se, mata todos os servos de Erik. Este, por sua vez, mata Eyol e Harfn, o Duelista, outro parente do vizinho. Vingança a puxar vingança, família contra família e assim vai sendo ampliado o ciclo dos homicídios. Só às mãos de Erik morrem seis. A lei intervém e condena Erik, o Vermelho, a um exílio de três anos.

UM VIKING VERMELHO NA TERRA VERDE

            Thorvald exilado da Noruega para a Islândia. Erik exilado da Islândia para… Para onde ? Ruma para Oeste, entrega o seu destino às divindades. Aegir, Deus do Mar, atende à invocação. Nos dedos tépidos segura a nave do viking vermelho e logo a pousa sobre uma corrente submarina (1). Evita assim que o sneque de Erik arribe à costa oriental de uma grande ilha, cordilheiras, glaciares. De onde, no Verão, são despejados icebergs para o mar, espuma e estrondo. Aegir é um deus benfazejo. Obriga Erik a dobrar o extremo sul do maciço gelado. O viking vermelho já pode agora cabotar ao longo da costa ocidental em demanda de terra que possam cultivar.

            O primeiro Inverno passa-o numa ilha a que chama Eriksey. Chega a primavera. Começa a esquadrinhar os fiordes da costa ocidental. As melhores terras, as mais abrigadas, estão sempre lá no fundo. Opta por um, instala-se. Constrói moradia a que dá o nome de Brattahild. Decorridos os três anos do ostracismo, resolve então rumar para a Islândia em busca de colonos para o seu novo país.

    – Vou dar-lhe o nome de Groenlândia, Terra Verde, e os homens virão comigo…

            A Groenlândia será tudo menos um país verdejante. Quatro quintos da vasta ilha montanhosa estão submersos sob uma calote glaciária que vai do norte ao extremo sul. A brancura dos gelos reflecte-se a muitas milhas de distância. De longe é fácil avistar a chamada Terra que de Verde só tem o nome. Porém o viking vermelho precisa de colonos. Por isso dá-lhe um nome fascinante.(2) Conta a Saga da Groenlândia:

            «Nesse Verão 25 naves deixaram o Breidafiorde (na Islândia), para ganhar a Terra Verde. Mas somente 14 chegaram ao destino, tendo alguns desistido e outros naufragado.»

            Média de quarenta homens por navio. Arribam pois à Groenlândia cerca de quinhentos colonos. Pioneiros que se dedicam a pescar, a descongelar e amanhar as terras pantanosas. Semeiam alfafa, apascentam ovelhas. Por isso constróem casas com alicerces de pedra pois não existem árvores na Terra Verde. As paredes são de erva e de madeira aproveitada de velhas embarcações. Nos primeiros tempos, para as suas necessidades, bastam os troncos que Aegir faz dar à costa. Certamente arrancados pelo Deus a um país distante e ocidental. Porém, anos depois, já não lhes chega a benevolência de Aegir. A escassez de madeira acaba por forçá-los a inventar soluções, a procurar outros materiais. Colheres, pratos, botões e pentes são esculpidos em ossos e dentes de animais caçados durante o Verão. Em osso são também esculpidas as peças de xadrez. Este é jogo tranquilo que facilita a longa travessia dos serões de Inverno, o povo agasalhado em peles de foca, braseira no centro da sala, lá fora furacões de neve.

            O clima é áspero, hostil. A terra pouco produz, escasseia tudo. Apenas o comércio poderá garantir-lhes a sobrevivência. Sneques da Terra Verde começam então a demandar portos da Islândia e da Noruega. Trocam marfim, peles de foca, óleo de baleia e peixe seco por madeira, utensílios de ferro, malte, farinha, lã.

            Dificuldades muitas, mas a pequena colónia lá vai sobrevivendo. Erik a envelhecer, mas cercado por quatro filhos: Thorvald, Thorstein, a moça Freydis e Leif. Todos eles de apelido Erikson (filho de Erik). Leif talvez já nascido na Terra Verde.

OS AMORES DE LEIF ERIKSON

            Dezassete anos depois da fundação de Brattahild, Erik confia a Leif o comando de um sneque. Deseja que ele tenha oportunidade de conhecer a Noruega, a pátria dos ancestrais, e aí faça o seu comércio.

            Dias e dias a navegar em alto mar. Ventos contrários empurram a nave para as ilhas Hébridas. Leif demanda um porto, fundeia, desce a terra, é a glória: jamais um viking se atrevera, sem escala, a viagem tão longa e demorada.

            Leif disputado por todas as raparigas casadoiras. É ele o herói do ano das ilhas Hébridas. Corteja a que será a mais bela, e loira, e alegre, e atraente: Thorguna. O mar, amar, no mar amor, enamorados mareados pelas praias… Adentram-se nas grutas do litoral. Contemplam a imensidão do oceano e o mistério que haverá a ocidente. Perdem-se por entre as árvores. Escutam o canto dos pássaros selvagens e já descansa donzela Thorguna sobre a relva. Deita-se, as mãos sob a cabeça. Colhe o jovem nauta um ramo de flores silvestres, também a donzelia de Thorguna.

      

            Das Hébridas, durante todo esse Verão, não sopra sequer uma brisa para a Noruega, Aegir agora convertido em protector dos amantes. Só com a chegada do Outono é que roda o quadrante dos ventos e anuncia Leif Erikson:

    – Parto amanhã.

    – Ó bem amado, leva-me contigo no teu sneque.

            Leif pesa prós e contras. Vontade de levar Thorguna, corpo e alma incendiados! Mas tentativa de rapto, sendo tão poucos os marinheiros da Terra Verde, será empresa condenada ao fracasso. Contrapõe:

    – Vou falar com o teu pai, vou pedir a tua mão.

            Thorguna recusa, a sua família abastada não aceitará o pretendente, corajoso, herói, mas pobretana.

    – Mais podem eles do que eu ? Mais pode a riqueza do que pode o nosso amor? Ó deuses, ó sorte, ó sina! Faço-me ao largo, ficarás em terra. Um dia serei rico, voltarei. Pagarei o dote, irás comigo.

            Lágrimas, desdita, profecia de Thorguna:

    – Cometes um erro grave e disso vais um dia arrepender-te. Já cresce em mim um filho teu. Será homem, eu sei e sinto. Criarei o teu filho, Leif Erikson. E farei com que ele te procure quando atingir a idade de tomar assento entre os homens da Terra Verde.

            Leif Erikson faz-se ao mar. Demanda a Noruega. Debruçado na amurada contempla as Hébridas, solidão.

A CONVERSÃO AO CRISTIANISMO

            Outono de 999. Olaf Trygvesson, el-rei da Noruega, recebe cordialmente o moço e já famoso navegante. Jovem e esbelto, el-rei é o campeão de todos os jogos de força e destreza. No seu drakkar de guerra chega mesmo a saltar sobre os remos em movimento, exibição real e todos a gritar, entusiasmo e aplausos. Ao invadir a Inglaterra, ali um eremita o convertera ao cristianismo. Para ele, a doutrina do amor ao próximo é assim:

    – Leif, também tu vais ser cristão. Cristo é um deus maior do que Odin, pode mais. Desceu aos infernos e aprisionou o Deus do Trovão. Mandei que se convertesse o povo da Noruega, das Órcades e das Feroe, e todo o povo se converteu. Se alguém se negasse, eu bem sabia como obrigá-lo a acreditar em Cristo…

            Leif Erikson acha por bem aceitar o baptismo. Aliás, a mitologia nórdica está em declínio. Contraria os muitos conhecimentos que os vikings foram adquirindo em suas viagens de rapina por todas as costas europeias.

            Durante todo o Inverno Leif é hóspede d’el-rei Olaf no palácio de Nidaros. E chega a Primavera.

    – Leif, pretendes voltar à Terra Verde ?

    – É esse o meu desejo, Majestade, se acaso o permitis.

    – Sim ! Quero que regresses em missão de fé, a pregar o cristianismo.

            Leif assusta-se com a hipótese. Pregar a religião do amor? E como irá reagir o seu pai? Como irá reagir Erik, o Vermelho? O senhor absoluto da Terra Verde? O matador de muitas vidas? O comandante agressivo e cioso das virtudes guerreiras dos normandos?

    – É missão espinhosa, Majestade. Mas se me dais a vossa protecção, não hesitarei em levá-la a cabo.

            Na viagem de regresso já segue um monge a bordo do sneque de Leif. Desembarca em Brattahild e logo começa a pregação. Erik só não apunhala o pregador porque ele está sob protecção real. Mas trata de lhe colar várias alcunhas, O Charlatão, O Hipócrita. Em vão. O cristianismo ganha campo na faminta Terra Verde, haverá um Paraíso lá no Alto, conversões diárias. Thorhild, a esposa de Erik, faz edificar a primeira igreja e recusa-se a partilhar o leito do marido enquanto ele adorar os deuses nórdicos… Subversão, o culpado será Leif. Não tivesse ele dado prova recente de grande coragem ao salvar os tripulantes de um navio em perigo de naufrágio e o velho Erik não voltaria a dirigir-lhe a palavra.

   

VINLAND, O PAÍS DAS UVAS (futura América)

            Na Terra Verde há 7000 habitantes à beira da fome. Leif não está disposto a deixar que o seu povo morra à míngua. Não pára de interrogar Bjarni Herjulfsson, há treze anos chegado à Groenlândia depois de uma tempestade o ter arrastado para as proximidades de uma terra frondosa a ocidente. Não desembarcara, mas avistara. E a notícia de uma terra veramente verde corre de boca em boca.

            Dois anos depois de ter regressado da Noruega, Leif convida Erik a comandar equipagem de reconhecimento das tão faladas terras ocidentais. Erik exulta com o projecto. Mas não quer aventurar-se. Está velho e alquebrado. Por isso entrega o comando da expedição a Leif. Este faz-se ao mar. Aponta a sudoeste. Trinta e quatro marinheiros.

    

            Poucos dias decorridos avistam e desembarcam numa terra a que Leif dá o nome de Helluland, o País das Pedras Chatas. Outra vez fazem-se ao mar, apontam sempre a sudoeste. Dias mais tarde aportam e desembarcam numa terra acolhedora: uma orla de areia branca, um suave declive, lá no alto imenso bosque, árvores altas como que esperando ser abatidas e aparelhadas para a construção de naves e moradias.

    – Esta terra vai chamar-se Markland, o País das Florestas ! – diz Leif.

            E segue viagem, ruma para sudoeste, sempre. Os tripulantes pesarosos. Gostariam de fixar-se por ali mesmo. Têm pressa de mudar de terra e de vida, pensam nos filhos que definham em Brattahild

            Mais dois dias, vento nordeste, vela panda, e descobrem e ultrapassam terra vasta. Desembarcam numa ilha que fica mais ao norte. Um marinheiro descobre um estranho orvalho por entre flores silvestres. Colhe uma baga que esmaga entre os dedos. Prova-a, néctar inesperado, talvez maná que o Céu mandara aos vikings (3). Seguem depois mais para o norte, dobram um cabo (4)da terra firme a ocidente. Encontram porto de abrigo e fundeiam. Terra escura e fértil. Bosques frondosos, florestas. Um rio de águas límpidas desemboca na baía, cardumes de salmões. Também pasto muito farto e muito verde e logo soltam a meia dúzia de ovelhas que trouxeram na viagem. Talvez uma dádiva de Odin aos seus antigos guerreiros… Talvez Jesus Cristo a entregar aos novos crentes o Paraíso anunciado…

            Nos primeiros dias abrigam-se os exploradores nas suas tendas de couro. Leif decide passar ali o Inverno e os vikings, com os seus machados de ferro, abatem árvores e constróem casas de madeira. Ao povoado é dado o nome de Leifbudir.

            Antes das primeiras neves, Leif organiza um grupo explorador de 17 homens. Os restantes ficam em Leifbudir a guardar as casas. Mas ao fim de cada dia, que todos os exploradores estejam de regresso! De uma vez, ao cair da noite, Tyrkir, o Alemão, falta à chamada. Reaparece na manhã seguinte. Gesticula, emocionado. Esqueceu o norueguês. Só fala, só grita em alemão. Lá o acalmam e ele recupera a língua escandinava:

    – Uvas, ó Leif Erikson, uvas ! Uvas como as uvas do meu país natal!

            Tyrkir conduz os companheiros ao local da descoberta e as vinhas selvagens lá estão por entre as árvores. Devidamente cultivadas, darão uvas como as da Germânia. Fruta, a miragem dos famintos da Terra Verde, realmente o Paraíso. (5) O qual, cinco séculos depois, virá a ser chamado América.

    – Esta é, na verdade, uma terra muito bela (declara Leif). Vou dar-lhe o nome de Vinland, País das Uvas!

            Os vikings colhem todos os cachos que podem. Devidamente conservados em serradura, hão-de levá-los para a Groenlândia. Também quatro ou cinco árvores que abatem no princípio da Primavera. E abalam, fazem-se ao largo.

            Semanas depois avistam a Terra Verde. Antes de aportarem, socorrem e transportam os viajantes de um navio naufragado. Salvar náufragos, esse parece ser o verdadeiro destino de Leif Erikson.

            Sonha voltar ao País das Uvas mas, entretanto, morrem os seus dois irmãos e morre Erik, o Vermelho. Leif tem agora que orientar e ajudar a sobreviver o povo de Brattahild. Mas convence a sua irmã Freydis e o seu cunhado Thorfin Karlseni a fundarem uma colónia no País das Uvas, posto avançado de um projecto redentor. Dá-lhes todas as indicações para alcançá-lo. Chega mesmo a alugar-lhes as casas de Leifbudir. Mas quatro anos depois regressa o casal. Equipagem reduzida, homens feridos, desalento. Não dispondo de ferro para forjar as suas armas, tiveram que ceder aos sucessivos ataques de guerreiros pintados de vermelho. E Leif? Aceita a fatalidade, fica-se? Não convoca os 7000 habitantes de Brattahild? Não os força a embarcar? Não conduz o êxodo para a Terra da Promissão, ventura e aventura? Leif aplaca a sua sede de vingança e de conquista, resigna-se. É preciso sofrer na Terra para ganhar o Paraíso do Além. Não o terreno, mas o eterno. O que sobra em si da audácia, da braveza, das fúrias de Thorvald e de Erik, o Vermelho?

            Envelhece. Pensa em Thorguna e no filho que, afinal, nunca apareceu a tomar assento entre os homens da Terra Verde. Recorda o País das Uvas, juventude, nevoeiro…

            Leif, o Feliz, é como lhe chamam as sagas escandinavas. Feliz, não por ter avistado o Paraíso, mas porque vive de acordo consigo mesmo: justo, bondoso, respeitando os homens, salvando vidas de náufragos. Tal como pregara o deus crucificado que trouxera um dia da Noruega para a Terra Verde.

            Morre por volta de 1045. Quatro a cinco gerações depois morrerão à fome os últimos sobreviventes de Brattahild : homens, mulheres e crianças raquíticas.

           No séc. XIV ainda haverá expedições de vikings ao lendário País das Uvas. Tentativas fortuitas e falhadas de ali se fixarem. Guerreiros vermelhos impedirão a presença de brancos nas suas terras. Pelo menos, até ao séc. XVI.

 

A RUNA DE SALEM

            1898. Perto de Salem, em Kesington, Estados Unidos da América, um especialista traduz a runa descoberta por Olaf Ohman:

            “Somos 8 suecos e 22 noruegueses em viagem de exploração para Oeste, depois da descoberta do País das Uvas. Acampámos perto destes dois rochedos, a alguns dias de marcha, para o norte desta runa. Afastámo-nos por um dia, para pescar. Quando voltámos, encontrámos 10 dos nossos companheiros cobertos de sangue e mortos. Ave Virgo Maria, salva-nos do perigo. Deixámos 10 dos nossos companheiros junto à costa, de guarda aos nossos barcos e à distância de 14 dias de marcha, nesta ilha. Ano de 1362.”

             Olaf Ohman, olhos húmidos. Gagueja em língua estranha. O especialista é quem traduz:

     – Leif, ó Leif Erikson, ó Pai, ó Justo, ó Feliz: sossega, já chegámos a Vinland. Desta vez aqui ficamos. Para sempre, graças a Deus.

             Ninguém entende Olaf, gigante loiro.

 (1) Talvez as Correntes da Dinamarca e do Labrador, braços da Corrente do Golfo. – (2) Técnica publicitária ainda hoje praticada com sucesso, junto dos incautos… – (3) No séc. XIX os habitantes de Massachussetts (E.U.A.) chamavam «orvalho de mel» a bagas como aquelas, secreções de insectos. – (4) Talvez o actual Cap Cod, Massachussetts, E.U.A.(5) No séc. XIX foram descobertas no golfo de Saint Laurent trinta espécies diferentes de vinha selvagem.

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