Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Francois Hollande, o triunfo da preguiça
Um presidente normal entre Oblomov et Bartleby
Revista Le Causeur, 22 de Abril de 2014
Laurent Cantamessi é co-animador do site http://idiocratie2012.blogspot.fr/
Foto : ZIHNIOGLU KAMIL/SIPA. 00681880_000017.
Existem mil e uma razões para não ir para trabalhar. Em primeiro lugar, o trabalho é considerado, pelo menos no cristianismo, como uma maldição bíblica. Expulsos do paraíso terrestre por terem saboreado os frutos da árvore do conhecimento, Adão e Eva estão condenados a ir trabalhar no duro nas fábricas. No Oriente, aliás, o trabalho não vale mais, e Sidarta abandona a esposa, responsabilidades e palácios para ir acabar o resto dos seus dias a meditar debaixo de uma árvore. E no cristianismo medieval, a elite militar e nobiliária rapidamente se colocaram de acordo para impor a ideia de que trabalhar com as suas mãos não era função daqueles que já tinham sido encarregados de assegurar a protecção dos necessitados.
O advento de um estado centralizado tendo relegado gradualmente e arrumado o papel militar e político da nobreza nos placards pintados da história a favor da guerra que Roger Caillois chama a guerra dos «os povos, ainda violenta e implacável, onde ou se vence ou se morre »[1]1, continua a ser uma prática no século XVIII, em grande parte incentivada pelo Estado, uma forma de ociosidade altamente civilizada e de parasitismo refinado, o que deu origem às mais brilhantes realizações sociais ao mobiliário de salões. Posteriormente, o triunfo da modernidade, da racionalização da actividade e do Taylorismo levaram , em grande número ainda, marginais, gente fraca e improdutiva a tentar escapar da escravidão do assalariado e da promessa de alienação através da miséria e da exclusão. Os outros estavam prometidos a um destino menos invejável, como Debord o escreveu: “do progresso em promoção, eles perderam o pouco que tinham e ganharam o que ninguém queria. Eles coleccionam as misérias e as humilhações de todos os sistemas de exploração, eles só ignoram a revolta. »[2]
A literatura deu um glorioso asilo para àqueles que optaram pela preguiça ou pela inacção. Sem dúvida, cansado das baleias gigantes e das corridas loucas pelos sete mares, Hermann Melville dá vida em 1853 à personagem Bartleby, um funcionário rebelde que aplica toda a sua boa vontade a escapar com grande delicadeza e polidez a todas as tarefas que lhe pede o seu patrão para fazer. Desdenhando pouco a pouco, qualquer actividade que não seja a de fazer uma boa sesta e o consumo de biscoitos de gengibre, ele legou à humanidade uma enorme sabedoria ainda hoje incompreendida, resumida numa frase oposta sistematicamente a qualquer forma de solicitação: “Eu gostaria tanto mais .” A procrastinação não precisa de mandamentos e de tábuas de pedra gravadas para enunciar a lei suprema do “Prefiro não o fazer” e afastar com um gesto de mão as injunções da sociedade laboral .
Seis anos mais tarde, o grande Ivan Gontcharov faz brilhar mais uma estrela no firmamento da abolia com Oblomov, o homem que se recusa em participar na agitação inútil deste mundo e em deixar seu sofá muito querido, o cenário confortável de sua apatia e dos seus sonhos. Evidência de que este modelo de desenvolvimento pessoal é definitivamente o único que é válido, Oblomov tornou-se um herói nacional na Rússia e valeu ao seu autor riqueza e consideração. Não podemos deixar de lamentar que ele tenha escolhido uma carreira de funcionário imperial em vez de seguir o exemplo do seu herói e de se deixar voluptuosamente, ser absorvido pelo seu sofá.
Os Franceses foram sobretudo de resto e isto foi surpreendente o país dos reis preguiçosos que não produziram na matéria mais do que algumas magistrais celebrações da preguiça. Eugène Marsan, crítico, romancista, autor também de pequenos contos e fundador do muito distinto “ Clube dos longos bigodes”, deixou por exemplo para a posteridade um muito eloquente Elogio da Preguiça que se termina com estas bonitas palavras: “A ociosidade no entanto é a recompensa com que o nosso coração nos renova incessantemente a promessa. É o resultado da nossa ambição. (…) O próprio céu, o paraíso lá no alto, concebemo-lo como um imenso lazer, com harpas. ”[3] . 3 Antes dele, Alphonse Daudet ensinava nas cartas do meu moinho às crianças pequenas que as pompas e as honras não valem muito em frente dos encantos de uma pequena vegetação rasteira, às quais não resistem bem durante muito tempo os sub-prefeitos que querem escrever os seus discursos e se entregam muito rapidamente às delícias da sesta: “Quando, ao fim de uma hora, as pessoas da subprefeitura, inquietas pela ausência do seu chefe , entraram no pequeno bosque deram com um espectáculo que as fez recuar de horror… O nosso sub-prefeito estava deitado de barriga para baixo, na erva, desleixado como um boémio. Tinha tirado as calças; … e, mastigando lentamente e ao mesmo tempo violetas, fazia versos . ” [4]Se Ivan Gontcharov tivesse lido Alphonse Daudet, não se teria tornado certamente funcionário imperial
Por fim e mais perto de nós, François Hollande decidiu-se também seguir o exemplo dos sub-prefeitos bucólicos, dos Bartleby e dos Oblomov, convidando implicitamente toda a nação a permanecer na cama durante todo o dia como Alexandre o Feliz. Consciente que não conseguiria inverter a curva do desemprego, da mesma forma que os Soviéticos não tinham conseguido inverter o curso dos rios siberianos, François Hollande por conseguinte acabou por fazer uma declaração que é um convite à preguiça para todos os Franceses: “Se o desemprego não se reduzir daqui a 2017, declarou ele aos assalariados de Michelin, em Clermont-Ferrand há dois dias, não tenho, ou nenhuma razão para ser candidato ou nenhuma possibilidade de ser reeleito”.
Se considerarmos a cota de popularidade de François Hollande, esta atinge hoje o nível historicamente baixo dos 18% de opiniões favoráveis, pode-se imaginar o efeito cataclísmico que poderia ter uma tal declaração sobre o mercado do trabalho. Como escrevia Raoul Vaneigem num outro elogio do preguiça: “Quando se trata de não fazer nada, a primeira ideia não é a ideia que as coisas acontecem por si-mesmas? ”[5] Vinte e oito milhões de Franceses, pertencendo à população activa, poderiam ser tentados a dizer a mesma coisa após a declaração do presidente e de decidir permanecer na cama de segunda-feira de manhã até 2017. Voltando, de novo, ao seu papel de farol da civilização – injustamente roubado pelos americanos e do seu “ Manifest Destiny,[6] Destino manifesto” – uma França massivamente no desemprego mostraria a via nova à humanidade e poria um fim, finalmente, à ditadura do trabalho. Poderíamos mesmo conservar François Hollande à frente de uma vasta confederação mundial da inacção que imporia por toda o lado sobre o planeta o deixar viver , substituindo o enganoso laisser-faire. A declaração de François Hollande marca talvez o início de uma nova era, àquela que nos veria entrar “neste estado de graça onde não reina mais nada para além da indolência do desejo”. Coragem presidente! “A preguiça que aprenda que não deve temer nada, sobretudo de si-própria”!
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[1]Roger Caillois. Guerre et démocratie. NRF. Fevereiro de 1953. p. 237
[2] 2. Guy Debord. In girum imus nocte et consumimur igni (1978).
[3] Eugène Marsan. Éloge de la paresse. Hachette Editeur. 1926.
[4]Alphonse Daudet. « Le sous-préfet aux champs. » Les Lettres de mon moulin. 1870.
[5] Raoul Vaneigem. « Eloge de la paresse affinée. » La Paresse. Editions du Centre Pompidou. 1996.
[6] Segundo Wikipédia Manifest Destiny significa Cette Manifest Destiny significa para os americanos uma missão a cumprir, uma espécie de mística da expansão, que marcará cultural e politicamente os Estados Unidos.
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Ver o link::
http://www.causeur.fr/francois-hollande-oblomov,27197


