“OUTRA FORMA DE LUTA” – O DIÁLOGO ENTRE NUNO BRAGANÇA E CARLOS ANTUNES por clara castilho

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No dia 26 de Abril, no Festival Indie Lisboa, que passou o filme OUTRA FORMA DE LUTA do realizador João Nogueira e da produtora Três Vinténs.

Será este o título que devo dar? Haverá muitas formas de abordar o que vi, fazendo a ponte com o que já sabia, com o que intui, com o que os intervenientes vivos do filme disseram no final, com o que vi passar-se no exterior, à saída. O grande ausente – Nuno Bragança. A quem, agora, só poderemos chegar através das obras, publicadas em conjunto pela Dom Quixote.

uma outra forma de luta comp.

Este filme é a sequência de um outro sobre a vida e obra de Nuno Bragança, que João Pinto Nogueira realizou anteriormente, que muito admirei e de que falarei num outro dia. Foi quando se encontrava a recolher depoimentos para “U Omái que Dava Pulos“, que o realizador soube da existência de 13 perguntas deixadas pelo escritor a Carlos Antunes, que pretendiam saber a sua história de vida (desde a sua passagem à clandestinidade no PCP, a rutura com este partido, a luta armada contra o Estado Novo através das Brigadas Revolucionária e o período pós 25 de Abril).

No filme podemos ver as folha quadriculada A4 com cada pergunta foi feita no topo de uma, escrita à mão pelo próprio Nuno Bragança. A sua morte inesperada fez com que  não chegasse a conhecer as repostas às suas perguntas. Que são dadas, passados estes anos, directamente por Carlos Antunes. Assim se mostra o que foi comum no percurso político destes dois homens. O realizador recorreu a imagens de arquivo da RTP para complementar o que é dito, por parte de Carlos Antunes, e a montagens de cenas, com actores de passagem do livro “Square Tolstoi”, representando as palavras de Nuno Bragança. É, pois, um diálogo encenado pelo realizador. E o assunto central, as Brigadas Revolucionárias e a legitimidade ou não da violência armada em determinadas situações políticas.

João Pinto Nogueira foi assistente de realização de alguns dos mais importantes cineastas portugueses. Como realizador tem abordado a passagem da ditadura para a democracia. São as consequências da sua própria vida: o pai a fazer trabalho clandestino de resistência, ele a “fugir” à guerra colonial. Neste filme fala da luta que ninguém gosta de lembrar: a luta armada.

O que se sabia de Nuno Bragança? Que tinha nascido em 1929 numa família abastada da aristocracia portuguesa – a Casa de Lafões . Frequentou Agronomia e concluiu o curso de Direito em 1957. . Foi co-fundador da revista O Tempo e o Modo, fez parte do  movimento Catolicismo Progressista, escreveu o argumento e os diálogos do filme Verdes Anos de Paulo Rocha.Entre 1968 e 1972 viveu em Paris, publicou o seu primeiro romance A Noite e o Riso. É por esta altura (1970) que participou na criação do documentário sobre a emigração, chamado Nacionalidade Português. Após o seu regresso a Portugal, colaborou com o grupo de teatro A Comuna, foi assessor no Ministério do Trabalho (a seguir ao 25 de Abril). Publicou o seu segundo romance em 1977, Directa, seguido, em 1981, por Square Tolstoi e, três anos depois, pela colectânea de contos Estação. Toda a restante obra de Nuno Bragança foi publicada após a sua morte, que ocorreu a 7 de Fevereiro de 1985.

Agora, sabe-se mais, sabe-se da sua participação directa na luta armada antes da queda da ditadura.

 

 

2 Comments

  1. Considero imperdoáveis – definitivamente imperdoáveis – as afirmações do Carlos Antunes sobre a figura do Otelo Saraiva de Carvalho. Foram dum injustiça inaceitável que só pode verberar-se. CLV

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