Prémio de Personalidade Lusófona 2013 atribuído ao linguísta galego Ângelo Cristóvão – discurso de aceitação (1)

Dada a extensão do discurso, dividimo-lo em três partes. Publicamos hoje a primeira,

Exmo. Sr. Presidente da Sociedade de Geografia, Exmo. Sr. Presidente do Movimento Internacional Lusófono, Exmos. Sres. Fernando Nobre, José Lobo do Amaral e Alarcão Tróni, Exmos. Sres. Embaixadores, caros colegas das distintas Academias, amigos e amigas, minhas senhoras e meus senhores:

Quando me informaram da proposta de nomeação como personalidade lusófona do ano 2013, rapidamente sugeri aos promotores da iniciativa os nomes de outras pessoas que com muito mais mérito e melhor oratória poderiam estar hoje no meu lugar, e fazer um papel bem mais brilhante. Mais ainda, tendo em conta a altura humana e intelectual dos que me precedem neste galardão, o embaixador Lauro Moreira, o prémio Nóbel da Paz D. Ximenes Belo, o presidente da ACL Adriano Moreira e o Ex-Secretário Executivo da CPLP Domingos Simões Pereira, dos quais só posso manifestar-me simples aprendiz. Como o MIL persistiu nesta decisão, acabei aceitando esta homenagem não em nome próprio, mas em nome do movimento lusófono galego, e mais concretamente em nome das pessoas e entidades que, durante as últimas décadas foram objeto de exclusão social, laboral ou política por defenderem e praticarem a unidade da língua da Galiza, a unidade da língua portuguesa.

Com efeito, durante várias décadas, especialmente no sistema de ensino obrigatório da Galiza, converteu-se num motivo de expediente disciplinar, discriminação laboral e até expulsão de docentes. Falar da existência do português, dar conteúdos de ortografia comum, razoar nas aulas sobre a unidade linguística entre a variedade galega e a variedade portuguesa, foi motivo suficiente para ser objeto de perseguição no centro de trabalho. Não faltou, especialmente na década de 80 do século passado, a colaboração de alguma imprensa escrita editada na Galiza numa verdadeira campanha para denegrir não só o movimento lusófono galego, o reintegracionismo, como a lusitanidade em geral, por meio de notícias tendenciosas e manipulações interessadas. Era frequente encontrar o adjetivo “luso” só associado a notícias negativas. Foi muito comentado aquele titular que rezava «duas pessoas e um português…» fizeram determinado ato delituoso, o que não é muito diferente de aquele outro em que a notícia salientava que a vítima identificava o ladrão pelo seu «forte sotaque galego». Na Galiza, fomentar o português padrão ou a ortografia histórica do galego foi convertido, de facto, em delito de opinião, delito de uso e defesa da unidade da língua, especialmente entre os professores do ensino público, mas não só, também na empresa privada. Lusitanitatis delicto, poderia dizer-se.

A mais genuína tradição cultural galeguista sempre manteve uma conceção universalizante do galego, não fechada num isolacionismo estéril, mas aberta ao mundo. Na defesa coerente destas ideias durante décadas de trabalho constante, pouco reconhecido e muitas vezes ingrato, devemos salientar o ingente trabalho da Associação Galega da Língua e das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal durante a década de 80 e 90 do século XX e primeira década do século XXI, em condições politicamente difíceis. Muitas pessoas merecem hoje o nosso reconhecimento.

Contra essa política de exclusão a sociedade civil galega criou associações culturais que, contra prognóstico, foram crescendo em número e atividade, sempre por conta própria, sem qualquer ajuda pública. Atualmente existem mais de 25 centros sociais lusófonos espalhados por toda a geografia galega, além de instituições culturais e associações profissionais de âmbito nacional com uma clara vocação e prática lusófona, que utilizam a norma comum do português com normalidade. Há escritores, pequenas editoras e muita atividade na internet, que dá conta da efervescência deste movimento que surge, exclusivamente, da iniciativa civil, e que está conseguindo mudar completamente o panorama cultural. Houve e há um trabalho intenso, continuado, generoso, cívico, de divulgação, de formação, promoção da cultura, resgate da memória história, por um princípio básico, o da dignificação do galego e dos galegos.

 

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