RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS – A HOLANDA, O OUTRO PAÍS DO NAUFRÁGIO, por JEAN-LUC GRÉAU

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Jean-Luc Gréau, Janeiro de 2014

Texto cedido por Jean-Luc Gréau e com publicação autorizada pela revista Le Causeur.fr

Os holandeses batem o recorde europeu da dívida

Holanda - I

A França vai mal. E  já faz mais de vinte anos que os palhaços consagrados da propaganda o proclamam. Entretanto, pudemos assistir à implosão imobiliária e hipotecária americana acompanhada de uma falência de Wall Street transferida para as contas do Banco central. Também temos estado a viver as crises sucessivas da Grécia, Portugal, da Irlanda, de Espanha, países pitorescos e carregados de história, mas também carregados de dívidas não reembolsáveis. E, a menos que se seja um admirador do culto “da mundialização feliz” ou “o euro escudo de protecção”, ter-se-á compreendido que a França foi abalada a um tal ponto por estes abalos que o prognóstico da nossa falência poderá enfim vir a realizar-se. Assim, os Baverez, Attali e consortes poderão finalmente passar do registo da previsão ao da constatação: “Nós bem o tínhamos dito, bem tínhamos avisado. ”

Contudo, um acontecimento inesperado vem acrescentar uma nova sombra a este quadro sobrecarregado de nuvens bem escuras. A agência Standard & Poor’ S.A. retirou à Holanda o triplo A do qual beneficiava para o financiamento da sua dívida pública. Na zona euro, somente a Alemanha, a Áustria e o Luxemburgo, paraíso fiscal que goza do privilégio de reciclar o dinheiro sujo de todos os tráficos, obtêm ainda a melhor nota, o triplo A.. O dilúvio de notícias económicas que nos infligem as cadeias de informação em contínuo e os jornais diários não nos tinham preparado para esta notícia.

Na esperança de ajudar os leitores que pensam que todas as histórias de crise começam já a aborrecer, vou tentar fazer o que o economista americano Paul Krugman chamou com humor de “um exercício de clarividência retrospectiva”. Porque é que os burocratas obscuros de Standard & de Poor’s ousaram retirar o seu triplo A à Holanda, como se um estranho movimento giratório a tivesse deslocado da beira mar do Norte para a beira do Mar do Mediterrâneo?

De acordo com os “encarregados de dar a notação”, os nossos amigos holandeses sofreriam da mediocridade das perspectivas de crescimento. Um pouco curto o trabalho, dado que esta constatação vale para toda a zona euro, inclusive para a Alemanha. Continua-se sem saber, por conseguinte, quem é que é atingido com esta situação.. Na linha de pensamento dominante, a Holanda preenche todas as casas, goza da melhor competitividade da zona euro. As suas exportações não deixaram de crescer, com exclusão do episódio da crise ocidental entre 2008 e 2009. E com mais de 10% do PIB, o seu excedente comercial ultrapassa, em proporção, o da Alemanha – para a França, que apresenta 60 à 70 mil milhões de euros de défice, isso corresponderia a um excedente superior à 200 mil milhões. Calculado em termos de per capita, o excedente holandês é o mais elevada do zona.

Este desempenho apoia-se sobre uma indústria forte, cujo declínio permaneceu relativamente reduzido. A produção industrial representa 22% da produção total, contra 13% na França e, se acrescentarmos à indústria os serviços que lhe estão ligados, este vasto sector passará a representar cerca de um terço do PIB. Como na Alemanha, os custos de produção foram controlados, ou mesmo comprimidos, enquanto as despesas públicas eram reduzidas mais drasticamente ainda do que na Alemanha, uma vez que os governos têm-se aproveitado do grande crescimento europeu dos anos 1997-2000 para proceder à uma cura de emagrecimento do Estado social: os encargos públicos totais por conseguinte passaram de 56% do PIB em 1996 à 44% em 2002 – redução sem igual até hoje na Europa.

Contudo, é necessário contar com a particularidade dos Países Baixos que estão a ser, desde há quatro séculos, um país de trânsito. Uma enorme quantidade de mercadorias entra ou sai da Europa pelos portos ou pelos aeroportos holandeses. Se acrescentarmos a actividade dos armadores e das seguradoras, é claro que uma grande parte do crescimento da produção, do emprego, dos rendimentos e das receitas fiscais, em suma, da prosperidade do país, deve-se à sua posição de plataforma comercial. Se a Europa adoptasse um regime de proteccionismo comercial, mesmo moderado, nós assistiríamos à uma queda importante da actividade global do país. O holandês não pode ser outra coisa que não seja um grande defensor da mundialização.

Imaginemos que estamos a seguir um programa tipo “Perguntas para um campeão”. O apresentador vem e pergunta : “Quais são às famílias mais endividadas do mundo?” As respostas disparam: os Americanos, os Ingleses, os Espanhóis, os Irlandeses. Errado, são os holandeses. Eles já assim estavam, antes da crise e continuam a estar a ser os mais endividados. A sua dívida colectiva eleva-se a mais do dobro do rendimento disponível e mais de uma vez e meia o valor do PIB. Esta dívida, como por toda a parte, aliás, aumentou graças às facilidades do crédito hipotecário, a garantia formal permitida pelo famoso crédito garantido pela hipoteca incitado os credores e devedores prestamistas a desmultiplicar os créditos.

Há no entanto por aqui um certo mistério: porque é que os Países Baixos não sofreram o desmoronamento observado na Califórnia, Flórida, Espanha ou a Irlanda? Pois bem, se os bancos locais não sofrerem tanto as insuficiências dos seus devedores como os seus homólogos estrangeiros, terá sido, sem dúvida, porque havia menos pobres a terem utilizado o sobre-endividamento. Os Países Baixos escaparam assim à uma crise sistemática do sector imobiliário e hipotecário.

Ei-los pois somente agora apanhados pelos seus excessos. Os bancos reduzem os seus compromissos, para consolidarem as suas contas.

O mercado imobiliário escapou ao desmoronamento, mas este está lentamente a ceder. Os felizes proprietários de casas comprados à crédito empobrecem-se e, ano após ano, reduzem o seu consumo. Um novo processo está agora em funcionamento : tanto pode desembocar sobre uma consolidação, necessariamente longa a atingir, tendo em conta as os valores em causa como pode, igualmente, como numa espiral recessiva contínua.

As dificuldades de um dos melhores alunos da classe europeia são uma nova ocasião para chamar a atenção sobre os riscos inerentes à dívida privada, frequentemente passada sob silêncio enquanto que continuamente pomo-nos em guarda, por vezes com razão, contra os excessos da dívida pública. Apesar dos numerosos exemplos dos prejuízos causados pela dívida excessiva das famílias, Bruxelas, Frankfurte, Washington, Londres permanecem cegos a esta ameaça. David Cameron e George Osborne congratulam-se mesmo com a retoma da economia inglesa enquanto que uma nova bolha imobiliária se está a formar. Conhece-se a vulgata em matéria de despesas públicas, défices públicos e dívidas públicas: “Não deixemos dívida excessiva às costas das gerações futuras.” Seja, mas quem assumirá então o peso das dívidas privada que representam em média o dobro das dívidas públicas, se não são as gerações futuras, neste caso, os herdeiros dos devedores desaparecidos ou os contribuintes chamados a apurar as dívidas não reembolsáveis?

Os governos neoliberais têm a sua parte de responsabilidade nesta explosão da dívida, largamente explicável pela recessão que levou a taxa de desemprego a 8% da população activa oficialmente mas que na verdade é de 12%, com numerosos desempregados holandeses a serem estatisticamente tratados como “incapazes de trabalhar”. É verdade, os Países Baixos sofreram, como nós, as consequências terríveis da crise americana, com a dívida pública a passar de 44% do PIB em 2007 a quase 60% em 2009. Contudo, esta situação deplorável não é de modo algum comparável à da Grécia, da Irlanda, de Portugal, Itália, Espanha ou mesmo a França ou a Inglaterra. Não havia perigo nessas paragens. No entanto, os dirigentes de La Haye no entanto decretaram que a austeridade se deveria aplicar-se sobre as margens do mar do Norte tal como sobre as margens do Mar Mediterrâneo.

Porquê estar a praticar uma política que parece ser o resultado de um elevado masoquismo? “It’ s the ideology, stupid!” Dado que a Europa fez da austeridade o seu credo oficial e que os governos do norte, alemães e neerlandeses à cabeça, impunham medidas drásticas aos países do Sul, eles deviam de certa medida começar por dar o exemplo. Assim Angela Merkel recusou os programas de modernização das infra-estruturas e cortou nas despesas de equipamento militares enquanto os governos holandeses aceleraram a reforma das pensões de reforma, suprimiram as bolsas de estudo que foram substituídas por empréstimos e aumentaram certos impostos. Eis pois como a austeridade se estende de maneira insidioso até nos países apresentados como mais competitivos e mais robustos.

É esta austeridade erigida em princípio sem que os factos provem a sua justificação que acelerou a recessão. E é ela que, no fim de contas, levou à degradação da notação da economia deste pais, economia esta que é a mais excedentária da zona euro. Fazendo-a aparecer como um novo dominó potencial susceptível de provocar os outros na sua queda. Ora, repetimo-lo, só as devastações da ideologia austeritária podem fazer da Holanda um novo elo a romper-se.

Em conclusão,   que autoridade pública, que economista de renome irá protestar contra a austeridade em Berlim ou La Haye? A vulgata neoliberal talvez não tenha ganho a guerra, mas na frente do debate público, não deixa de continuar a ganhar batalhas. E arriscamos-nos a sairmos todos perdedores.

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