POESIA AO AMANHECER – 432 – por Manuel Simões

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MANUEL BANDEIRA

       ( 1886 – 1968 )

          VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA

            (fragmento)

            Vou-me embora pra Pasárgada

            Lá sou amigo do rei

            Lá tenho a mulher que eu quero

            Na cama que escolherei

            Vou-me embora pra Pasárgada

 

            Vou-me embora pra Pasárgada

            Aqui eu não sou feliz

            Lá a existência é uma aventura

            De tal modo inconseqüente

            Que Joana a Louca de Espanha

            Rainha e falsa demente

            Vem a ser contraparente

            Da nora que nunca tive

            […]

            Em Pasárgada tem tudo

            É outra civilização

            Tem um processo seguro

            De impedir a concepção

            Tem telefone automático

            Tem alcalóide à vontade

            Tem prostitutas bonitas

            Para a gente namorar

 

            E quando eu estiver mais triste

            Mas triste de não ter jeito

            Quando de noite me der

            Vontade de me matar

            – Lá sou amigo do rei –

            Terei a mulher que eu quero

            Na cama que escolherei

            Vou-me embora pra Pasárgada

 

            (de “Libertinagem”)

Poeta, ensaísta e tradutor. Desde “Cinza de Horas” (1917) ou “Carnaval” (1919), a sua obra ficou assinalada pelo espírito inovador. Da sua imensa obra poética recordamos “Libertinagem” (1930), “Estrela da Manhã” (1936), “Pasárgada” (1960), “Alumbramentos” (1960), “Estrela da Vida Inteira” (1966). Transcrevemos aqui o célebre poema de evasão para Pasárgada, a mítica cidade dos prazeres de Ciro o Grande.

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