MANUEL BANDEIRA
( 1886 – 1968 )
VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA
(fragmento)
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
[…]
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
(de “Libertinagem”)
Poeta, ensaísta e tradutor. Desde “Cinza de Horas” (1917) ou “Carnaval” (1919), a sua obra ficou assinalada pelo espírito inovador. Da sua imensa obra poética recordamos “Libertinagem” (1930), “Estrela da Manhã” (1936), “Pasárgada” (1960), “Alumbramentos” (1960), “Estrela da Vida Inteira” (1966). Transcrevemos aqui o célebre poema de evasão para Pasárgada, a mítica cidade dos prazeres de Ciro o Grande.
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