CONTOS & CRÓNICAS – IMPRESSÕES DE UMA VIAGEM AOS ESTADOS UNIDOS EM 1986 – 1 – por José Brandão*

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* José Brandão (Algés, Oeiras, 1948), é um dos mais antigos colaboradores deste blogue. Em 1969 foiImagem2 mobilizado para a guerra em Moçambique de onde regressou em finais de 1971. Seria preso pela PIDE em princípios de 1973 acusado de pertencer a uma organização ligada ao PCP, a ARA. Activista sindical, aderiu em 1979 à UGT e ao PS, atingindo lugares de relevo nestas organizações. Actualmente não tem qualquer filiação política ou sindical. Autor de uma vasta obra de trabalhos sobre História, inicia hoje a publicação de uma série de crónicas de uma viagem que fez em 1986 aos Estados Unidos no quadro das suas funções de dirigente sindical; estas crónicas são extraídas de um livro que está a ultimar.

Visitar a América é sempre a concretização de um sonho que qualquer português alimenta depois de levar uma vida inteira a ver filmes de cowboys e a carregar todos os dias com as séries americanas da programação da RTP.

Desde miúdo que os índios e os cowboys, os gangsters e os polícias pertenciam ao suporte mais sólido da minha cultura de muitas horas dedicadas ao estudo de “Cavaleiros Andantes” e de “Mundos de Aventuras”.

Era assim para mim e para muitos como eu. Da geração que veio ao Mundo logo após o final da Segunda Guerra Mundial, poucos eram os que não ficavam fascinados pelas coisas que vinham da América e que não deixassem para segundo plano os valores pátrios.

 Pois bem!… É para América que eu vou partir em Julho de 1986.

Finalmente vou ver índios a sério.

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Chove impetuosamente em Nova Iorque.

A cidade está sob os efeitos duma espetacular tempestade tropical. É medonho. Um verdadeiro dilúvio. Chuva a rodos, trovões que assustam, raios que partem. No aeroporto Kennedy o tráfego aéreo encontra-se completamente suspenso. Não há avião que se atreva a levantar.

Faz já cinco horas que chegámos de Lisboa. Estamos è espera de uma aberta para voar até Washington.

Andamos de um lado para o outro a admirar este grande aeroporto e a fazer tempo para que a tempestade amaine. Ainda não parei um bocadinho de meter o nariz em tudo o que é novidade. Vou às janelas espreitar. Quero ver os arranha-céus.

O Carlos Marques, do Sindicato dos Seguros, já cá esteve há uns anos. O José Abrão, a Georgina Marques e eu, é a primeira vez que estamos em casa dos filhos da América.

O nosso destino, é a cidade de Washington, no distrito de Colúmbia, entre os condados de Maryland e Virgínia e a 200 quilómetros da costa atlântica.

O voo 703 da TWA estava previsto chegar ao aeroporto da capital dos Estados Unidos por volta das cinco e meia da tarde. Chegou quando passavam das dez da noite.

A nossa espera contínua o funcionário americano que nos acompanhará ao longo desta visita. O Dwight Justice é um ainda jovem sindicalista da central AFL-CIO, a mais poderosa confederação sindical do Mundo.

Dwight trabalha na Free Trade Union Institute, instituição laboral ligada á confederação americana e a entidade patrocinadora da nossa viagem.

É um rapaz simpático e duma simplicidade notável.

Conduz-nos ao Days Inn Downtown, um hotel de nível médio localizado no centro da capital americana.

No dia seguinte é domingo. Dwight tem reservado um programa turístico de interesse histórico e cultural.

Não nos escapa nada do que está mais perto. É impossível ver tanta coisa em tão pouco tempo. O Museu do Espaço; o Museu de História Natural; o obelisco do monumento a George Washington; o túmulo do presidente Kennedy no cemitério de Arlington; os memoriais a Lincoln e a Jefferson, aos cinquenta mil soldados americanos mortos na Guerra do Vietname; e tanta, tanta coisa digna, tudo foi devorada pela nossa curiosidade neste domingo de torturante calor húmido.

O clima é terrível. O Verão em Washington tem os calores dos banhos turcos.

A cidade possui mais de 700 parques, cinco universidades, imensos museus, centenas de monumentos e uma vastidão instituições culturais de primeiro plano. São precisas umas boas semanas para conhecer tudo isto.

Edifícios colossais, com gigantescas bandeiras americanas espetadas no topo mais alto, dão um aspeto impressionante de poder e de força a esta monumental cidade que é a sede do governo dos Estados Unidos da América.

Branca pela cor dos seus monumentos, Washington é cinzenta pela cor dos seus habitantes. Os negros vivem aqui aos milhares – a percentagem é a mais elevada de todas as cidades da América.

O Dwight entende tão bem a língua portuguesa como eu entendo a inglesa. Se não aparecesse o John Alves, um português radicado na América desde 1974 que serve de intérprete nestas ocasiões, é claro que ainda hoje estava nos States a olhar para o Dwight à espera que ele me explicasse qual era o caminho para o aeroporto.

*

Segunda-feira, dia 29 de Julho.

Começamos a manhã fazendo uma visita ao escritório do Dwigth Justice no Free Trade Union Institute. O Instituto é dirigido por um colégio de nove diretores pertencentes a AFL-CIO. Irving Brown, representante da confederação sindical americana na Europa, ocupa lugar de honra nessa direção. Brown aparece com frequência como estando ligado à CIA. Os comunistas não se cansam de dizer que o sindicalista americano em serviço na Europa é um colaborador da Agência Central de Informações dos Estados Unidos.

Ex-agentes da própria CIA têm escrito o mesmo sobre Irving Brown. Na UGT é considerado um dos melhores amigos estrangeiros. Todavia, nas suas relações com Portugal o influente sindicalista americano gostou sempre mais de contatar com setores radicais da direita portuguesa. Em vésperas do 28 de Setembro de 1974 estava num hotel em Lisboa. Por essa mesma ocasião esteve também em Portugal o subdiretor da CIA, Vernon Walters. Lisboa era local obrigatório para se tratar toda a espécie de assuntos. O secretário de Estado norte- americano Henry Kissinger declarava à imprensa brasileira que “a grande preocupação dos Estados Unidos neste momento é Portugal”.

A nossa visita ao Instituto onde trabalha o Dwigth Justice antecede um almoço com o conselheiro da Embaixada de Portugal em Washington. O sr. Carlos Faria é um amigo da UGT que tem a amabilidade e a feliz ideia de nos levar a almoçar ao seleto Ascot Restaurant situado na elegante L Street.

Da parte da tarde aguarda-nos uma outra visita.

É perto do restaurante e dá para ir a pé. Serve para ajudar a remoer o almoço que foi bem generoso e melhor servido.

Em quinze minutos pela 21ª Avenida a baixo estamos na C Street junto a um edifício bem destacado e bem vigiado pela polícia.

Para entrar temos de cumprir uma série de formalidades de identificação e passar por detetores eletrónicos que a polícia tem montado no grande átrio principal.

É uma chatice para conseguir entrar na sede do Departamento de Estado do Governo norte- americano.

Apalpam-nos todo; mexem e remexem as pastas; miram-nos dos pés à cabeça e, quando finalmente estamos dentro do edifício mais importante do Executivo político americano, não há passo que não seja seguido pelas câmaras de filmar.

O nosso contacto é George Heatly que está junto ao telefone 202-647-3662, algures numa das salas deste Departamento cujo prédio ocupa o quarteirão por completo.

A enorme construção está bem acompanhada. A dez minutos tem a sede do FBI. A menos de cinco tem o bloco do Watergate. Um pouco mais longe está a rádio Voz da América, esta já a uns bons vinte minutos do Ministério que estamos a visitar.

O Departamento de Estado é uma visita que deixa embasbacado o mais experiente sindicalista. Sentimos que qualquer coisa de anormal – pelo menos para os nossos hábitos – está acontecer.

Isto pode até nem ter nada de mal… Mas que no mínimo tem ar de exótico, lá isso ninguém dúvida.

É assim como se um grupo de alentejanos da Reforma Agrária entrasse sem mais nem menos por S. Bento dentro aos abraços e aos beijos ao primeiro-ministro e tudo acabasse na maior almoçarada nos jardins do Palácio.

Bem… No Departamento de Estado somos cordialmente recebidos na sala 5230 pelo sr. Lino Gutierrez secretário para os Assuntos Portugueses.

Conversámos também com Antony Freeman, assistente especial do Secretário Coordenador para os Assuntos Internacionais do Trabalho do Departamento de Estado norte-americano.

Foi interessante esta visita.

Ao fim da tarde, encontramo-nos no The Touchdown Club, na L Street, onde nos espera um jantar informal na companhia de dois dirigentes da União Americana dos Jovens Sindicalistas.

Durante todo o jantar os dois bem aparentados moços não falavam de outra coisa senão de Angola e da UNITA. Queriam saber tudo o que nós podíamos dizer e estavam com uma insistência de tal ordem que não deixavam espaço para qualquer outro tipo de conversa. Aliás, este interesse haveria de ser uma constante em muitas outras ocasiões desta nossa visita sindical aos EUA. A Câmara dos Deputados tinha acabado de revogar a proibição de ajuda ao movimento de Jonas Savimbi e, provavelmente, estava a decorrer na América uma espécie de quinzena africana destinada a esporear a consciência política do contribuinte americano.

Na manhã do dia seguinte, vamos até à sede nacional da AFL-CIO.

A confederação sindical americana está instalada num edifício próprio com um acesso reservado a viaturas autorizadas. A soberba construção tem á sua frente a residência oficial do presidente dos Estados Unidos da América.

A Casa Branca está a umas escassas dezenas de metros da sede da AFL-CIO. O Departamento de Estado, ao lado direito, está também muito perto. Mais longe, mas mesmo assim ao alcance rápido da central sindical, encontra-se o edifício do Departamento de Trabalho situado junto ao histórico e monumental Capitólio.

Na entrada principal da AFL-CIO estacionam enormes carros pretos que esperam os seus donos. São as limousines dos dirigentes da central sindical com motorista trajado a rigor.

O sindicalismo americano é próspero. Possui um capital calculado em vários biliões de dólares, aplicados em imóveis e em empréstimos públicos ou na bolsa. O poder financeiro do sindicalismo americano faz dele um colosso cuja verdadeira força ninguém consegue medir ao certo.

Presente em todos os lugares ele mistura-se com tudo e com todos. Está na política, na economia, na diplomacia, na educação, na espionagem, na corrupção. Está com a Mafia, com a CIA, com FBI, com a Casa Branca, com o Departamento de Estado. Está com 13 milhões de trabalhadores norte-americanos filiados nas suas organizações.

 Polémico e sempre envolvido nas grandes questões que movimenta a sociedade americana o sindicalismo tem nesta América os seus momentos de glória e as suas páginas de tragédias que abalaram o Mundo.

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