“A IDEIA” – DE TELMO A HERBERTO, OS PASSOS EM VOLTA [notas para uma propedêutica do agnosticismo marrano] – 2 – por Pedro Martins

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Falemos desse Deus tão jeóvico que principia a inspirar-lhe terror (idem, pp. 53-54) e cuja vinda devasta, sabida aquela “maneira demoníaca que Deus tem de arrombar as portas, quando toca com os dedos para se anunciar” (“O coelacanto”, pp. 68-69). Um Deus assim, com o mal ingénito no seio altíssimo, bem poderia ser o Deus manifesto de quantos, sábios pela kabbalah, previnem desta sorte os dualismos.

Falemos desse Deus que, tendo que se lhe aturar “a filha-da-putice teológico-emocional”, “ainda por cima, não existe” (“Como se vai para Singapura”, p. 116); mas que, de qualquer forma (não se vá dar o caso de existir), “não é chamado para aqui”, quando quem assim fala,
em páginas do mais lídimo surrealismo, vive póstumo na morte delirante do verdugo de Inês de Castro (“Teorema”, p. 125).

Em Herberto, a tensão indecisa do marranismo que lhe presumo não se resolve propriamente na síntese eruptiva de um novo credo religioso (qual o que, vário mas uno, se reconhece aos homens da Renascença Portuguesa), nem se estatela ou exalta num dos extremos tangentes da escala pística (os dois materialismos, ateu e católico respectivamente, de que nos falava António Telmo). Antes se inscreve no movimento perpétuo, por irresoluto, duma procura sem termo em que o convívio da fé e do desespero nos dão a medida humana de quem escreve. Por isso nos é dito: “Tudo quanto eu fizesse, cada coisa que me acontecesse, não me tornariam maior ou menor que a fé ou o desespero”
(“Polícia”, pp. 32-33). E por isso um nome lhe convém: agnosticismo.

Esta cisão ainda e sempre inacabada ressurge exuberante na narrativa paradigmática de “Os comboios que vão para Antuérpia”. Ali, logo que o Natal se fora, “algo desaparecera, uma coisa ingénua em que se poderia ter confiado. Talvez a esperança” (p. 51). Daí que nos deparemos, como leitores, com alguém que “estava desesperado”, que “pensava nos comboios como quem pensa em Deus: com uma falta de fé desesperada” (Idem). Não se julgue, porém, que este homem se abisma no materialismo estreme. Logo a chispa cintilante da dúvida ascendente se lhe insinua, geratriz, nos interstícios e o alenta e equilibra para o soerguer ao ponto fulcral da tensão indecisa que o define. Dá-se aqui então o caso contemplativo de uma visão arbustiva que lhe sugere francas considerações antropológicas, nesta aproximação da árvore ao homem se significando a possível reminiscência sefirótica da ciência cabala: Às vezes vinha à janela e, por detrás dos vidros, olhava para o caminhode- ferro. Mas antes de lá chegar os meus olhos encontravam uma árvore esquisita – tímida mas tenazmente viva – num quintal próximo. Esta árvore metia-me medo: era como a esperança em mim mesmo, ou uma mais ambiciosa aposta: a fé dolorosamente contraditória nos homens. Nos homens? Há em mim todas as virtudes da confiança, mas sou um desesperado (idem, p. 52).

Se o comboio é a metáfora eleita para a representação de Deus e se Antuérpia é o destino possível, mas incerto, das composições, a arte poética de Herberto Helder ascende in casu da imagem à ideia pela definição teorética, quando o narrador, conclusivo, afirma: “Talvez alguém tenha um dia ressuscitado em Antuérpia. Não sei” (idem). Neste não sei está todo o agnosticismo, presumivelmente marrano, de Herberto. E na dúvida posta à imortalidade da alma se poderá reconhecer, sem sério receio de exagero, a lembrança forte de uma disputa que atravessa e divide os sábios de Israel4.

Que Os Passos em Volta constituíram um vasto campo programático para o agnosticismo do seu autor – acorre a demonstrá-lo uma passagem sequente, e mui próxima, do mesmo conto: Esta minha vida agora é circular e eu sufoco, sem dela poder sair, com o deus que lá existe, com Deus, com Deus… Comboios que não param de ranger e apitar.

Comboios que partem. Durante a noite acordo e muitas vezes com Deus a apitar. Mas de manhã a minha falta de fé parece ainda maior e compreendo que nunca hei-de sair deste quarto e que os comboios são simples pensamentos, como Antuérpia, uma inspiração difusa, confusa (p. 53). Esta virtude metafórica da viagem como suporte da errância, tão proverbialmente judaica, e da demanda que lhe inere, prolonga-se, ou percute-se, ao diante, em narrativas análogas, bem que de menor riqueza significante, como sejam “Descobrimento” (surgindo aqui, porém, fortíssima, no modo cru como nos é dada, a inquietude da procura) ou “Como se vai para Singapura”, para surdamente se altear em apoteose salvífica nesse escrito derradeiro e regressivo da perfeição circular que, judicioso, se intitula “Trezentos e sessenta graus” – aquele número por cuja re-ligação das extremidades se afere enfim a religião do poeta, cujo único ganho obscuro se resume nisto:
“a pureza adquirida na desordem, e depois a fusão dos dias múltiplos numa única noite originária” (p. 193) – enfim, “a estupenda pureza reconquistada” (p. 194).

Esta tónica de circularidade perpassa amiúde o livro, pontuando-o em diversos lugares (cfr. “Descobrimento”, “Cães, marinheiros”, “O quarto”). Assiste-a, por outro lado, uma instante marca de religiosidade, bem patente na marcação lexical, na evocação imagética, na reflexão teorética. Não se trata, claro está, daquilo que o protagonista de “O quarto” imputa ao “barroco Deus teológico”, com as suas “crenças e virtudes da baixa religiosidade” (p. 145); porém de uma seríssima atitude filosófica e, a seu modo, religiosa, que vimos já ser uma forma de agnosticismo (pois que se não fixe na crença ou na descrença), e cuja elucidação sairá assaz fortalecida de uma investigação segundo o ponto de vista marrano.

3. Deste prisma, o conto que venho de referir, “O quarto”, é bastante elucidativo. Por ele se ilustra, de certo modo, uma religião da terra, que não pode, uma vez mais, deixar de nos evocar o judaísmo (por contraposição ao cristianismo, religião do céu). Aqui, é certo, penetramos já no domínio do materialismo, pois o protagonista, bem que se confesse “um homem religioso”, recusa-se a acreditar, notadamente na “imortalidade da alma” (p. 145).

Mas nem um tal estado escatológico se constitui como dogma para a crença hebraica, nem esta, sob certas condições de degenerescência, deixa de se mostrar propensa ao decaimento estreme na materialidade, cabendo aqui, a propósito, ponderar o episódio bíblico do culto ao Bezerro de Ouro.

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