O absurdo é o pão-nosso-de-cada-dia mas ainda sobra espaço para nos surpreendermos com a insensibilidade e a inconsciência do que se noticia e comenta sobre os acontecimentos na Ucrânia, principalmente no Sul e Sudeste do país.
Sabemos, por experiência acumulada, que neste mundo há limpezas étnicas boas e limpezas étnicas más. Na guerra dos Balcãs eram boas quando feitas por muçulmanos da Bósnia, croatas, albaneses do Kosovo e muito más, criminosas até, as feitas por sérvios. Também é boa a limpeza étnica de palestinianos que Israel tornou rotina há mais de 60 anos e prossegue hoje, sem travão, na Cisjordânia, em Jerusalém Leste, sendo que o que acontece em Gaza também o é.
A limpeza étnica que começou nas regiões de maioria russófona da Ucrânia, por sinal onde se concentra o que resta das fontes de indústria e energia do país, parece ser das boas. Por enquanto evita chamar-se-lhe o que é, até que a coisa seja mais ostensiva.
A operação que o exército às ordens do aparelho militar e de segurança fascista que tomou o poder em Kiev desenvolve em Slaviansk, Odessa, Kramatorsk e outras cidades e regiões tem um objectivo subjacente: uma limpeza étnica daqueles que, para os ucranianos que se acham puros, são escumalha, “moskals”, gente para apunhalar, fuzilar, pôr a andar, pelo menos é o que gritam as hordas organizadas que se juntam ao exército na grande manobra de intimidação em curso.
O que está no terreno é uma operação terrorista, de terrorismo de Estado, promovida por um governo ilegítimo colocado no lugar por potências internacionais e que agora pretende silenciar e, de preferência, ver-se livre das oposições, não importa como.
Em terminologia ocidental, aquilo que é escumalha para os ucranianos puros, fascistas e governantes, são os “pró-russos”, os “separatistas”, palavras recitadas como se fossem insultos.
Quase ninguém ousa pronunciar – há dignas e honrosas excepções – os termos que qualificam esses resistentes: antifascistas, federalistas, pessoas que não querem ser cidadãos de segunda no
seu país por falarem uma outra língua e terem eventualmente uma religião diferente da seguida pela elite de Kiev.
O que está igualmente em curso é uma provocação a Moscovo. A coberto dela, os Estados Unidos e a NATO continuam a reforçar o cerco junto às fronteiras europeias da Rússia, fazendo da Ucrânia um membro informal mas efectivo da Aliança Atlântica.
Até quando a Rússia aguentará o desafio que é a perseguição organizada a comunidades de um país vizinho que têm inegáveis e reconhecidas afinidades com os russos? E depois de a paciência moscovita se acabar?
Terá o comum dos mortais alguma noção dos tremendos riscos para o planeta do que está a acontecer na Ucrânia, limpeza étnica incluída?
Resposta antecipada para quem, eventualmente, se chocar com as minhas considerações a propósito da “carta aberta” de Eurico de Figueiredo….