Mas é sobretudo em “Vida e obra de um poeta” que esta santificação, ou sacralização, do corpo adquire maior visibilidade. O corpo desdobra-se aqui numa pequena e modesta multidão: a das putas do Pigalle, em cuja beleza resplende a verdade da sabedoria divina: Certas noites dava uma volta por Pigalle e estudava miudamente os cartazes nas casas de strip-tease. Absorvia a nudez retratada das actrizes como se absorve um plasma forte. Elas eram intérpretes de Deus. Via nesses corpos uma declaração divina, e o jogo espectacular do que chamam vícios era uma espécie de escrita manifesta, uma alusiva visibilização de Deus. E tudo isso me era dado como um caminho de conhecimento, uma complexa viabilidade. Todas as putas de Pigalle eram minhas mães; a carne fotografada, tornada viva em mim pelo enredo da comoção, era a carne-mãe, a matéria fundamental da terra, Deus instigava-me e amparava-me na descoberta e, posteriormente, na magnificação e glorificação do mundo (p. 154). A glorificação do mundo criado por Deus e a recondução da carne-mãe ao grande arquétipo matricial da terra são tópicos fundamentais do judaísmo, ponto que em Herberto nos não deve já causar espanto. Que do bas fond parisiense possa entretanto emergir uma via religiosa virtualmente redentora também não surpreende em quem, coerentemente, houvera outrossim afirmado: “E ainda se verifica ser no abismo que principia a ascensão” (“Descobrimento”, 93). O que aqui parece realmente novo é, por um lado, a afirmação quase peremptória da Divindade e, por outro, uma abordagem bem mais próxima do cristianismo – de um certo cristianismo que, pela via interna da gnose, se compõe com o judaísmo.
Com efeito, a existência de Deus é praticamente uma certeza para este narrador surpreendente: Avancei muito no conhecimento da divindade, desde o dia em que escrevi um dístico na parede de um urinol de Lisboa até à minha obra-prima (um poema dramático),
oferecida com maliciosa ingenuidade a uma prostituta nas docas de Amsterdão (ela não sabia português). Um poema desesperadamente religioso que falava do corpo e da sua magnificência e perenidade (p. 152). Todavia, no conjunto da obra, e apelando à sua significação global, a afirmação da crença com que aqui nos deparamos não pode, nem deve, ser absolutizada, do mesmo modo que o não pôde ser a manifestação de descrença que pudemos já surpreender em “O quarto”. A atitude média dominante na teorese de Os Passos em Volta é a do impasse, atitude logo documentada no próprio título da obra; depois surpreendida em “Os comboios que vão para Antuérpia”; enfim reiterada em “Escadas e metafísica”, narrativa verticalizante onde a bíblica Babel parece ressoar a propósito de uma torre e onde a escada interrompida a meio percurso não dá entrada para sítio nenhum, não porque a porta correspondente não esteja lá, mais acima, mas porque lhe faltem degraus – e porque também ela, bem que visível e interpelante, seja inacessível. Não sei nada. Atrevome a acender um novo cigarro. E o terror entra silenciosamente na minha vida (p. 77) – afirma, por fim, o narrador de “Escadas e metafísica”. E neste não sei nada ecoa nitidamente o não sei já escutado em “Os comboios que vão para Antuérpia”, como uma mesma e única confissão de não saber que é exacta e etimologicamente a do agnosticismo. E, no entanto, algo mais, e mais, e mais, se vai entretanto sabendo, por virtude das sucessivas aquisições que o caminho foi trazendo, e de que “Trezentos e sessenta graus”, como versão singular da parábola do filho pródigo, constitui lídima actualização.
Revertendo porém agora à precária ciência divina de “Vida e obra de um poeta”, dir-se-á que a respectiva expressão pística corresponde a uma posição momentânea, e bastante adiantada em dado sentido – jamais porém fixada, consolidada ou cristalizada, mas constituindo, ainda assim, uma sorte de guarda avançada no desenho da tendência para a eterização ou a subtilização a que melhor responde o cristianismo. Daí que este Herberto nos possa, aqui e ali, aparecer como um fiel-do-Amor, pela imaginal e eficiente projecção anímica da mulher amada. Assim, se o narrador de “Vida e obra de um poeta” pode referir a chegada da “iluminação” (p. 154) – e esta iluminação é a iluminação interior a que aponta a operatividade da fede santa –, no final de “Teorema” é-nos dito: D. Inês tomou conta das nossas almas. Liberta-se do casulo carnal, transforma-se em luz, em labareda, em nascente viva. Entra nas vozes, nos lugares. Nada é tão incorruptível como a sua morte (pp. 124-125). Isto, que poderia ter sido escrito por Pascoaes, constitui na verdade um registo eminentemente saudoso, como saudosa, e plena de implicações operativas e ontológicas, se afigura uma outra passagem, agora extraída de “Duas pessoas”, em que a voz masculina do cliente (a feminina, da meretriz, soará depois) nos confessa: Estas pequenas prostitutas ficam diante de mim desprovidas quase de qualidades humanas. Possuem o corpo, máquina de algum talento, enquanto a minha solidão continuamente se exerce e cria uma zona intensa, extrema, atravessada por outras presenças, estranhas criaturas calorosas que aparecem e desaparecem, que se substituem, sem atingirem nunca uma forma definitiva.
Criaturas incertas, mas verdadeiras. Expressões de uma nebulosa aspiração. Que alcançariam as palavras num dia suposto. Ou me tocariam à noite, ao pé de uma lâmpada íntima, e deste modo provocariam em mim, pela memória, densas associações, frémitos, o sentimento da alegria ou da proximidade da morte (p. 159). Êxtase e iluminação…