UM TEXTO DE CHATEAUBRIAND – SOBRE AS REVOLTAS OPERÁRIAS EM LIÃO, NA DÉCADA DE 1830.

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Chateaubriand - 220px-Anne-Louis_Girodet-Trioson_006A partir de 1830, derrubado o absolutismo de Carlos X, reinou em França Luís Filipe de Orleães,  chamado o rei burguês precisamente devido às suas ligações ´com a  classe financeira. Em Lião, grande centro industrial, houve grandes revoltas entre os trabalhadores da indústria da seda de Lião, em 1831 e 1834. François – René de Chateaubriand (1768 – 1848), pensador cristão, monárquico, político, diplomata, adversário de Napoleão, que chegou a ser ministro dos negócios estrangeiros com o absolutismo, considerado por muitos como o pai do romantismo, autor de o Génio do Cristianismo, Memórias de Além-Túmulo e toda uma vasta obra, escreveu estas linhas sobre estas revoltas:

“Que as diversas facções colocadas fora do Governo tenham admirado a ordem estabelecida na desordem pelos operários em Lião, concebe-se: mas que esses senhores do Governo tenham caído em êxtase, que não tenham compreendido que esta ordem os matava, que esta ordem anunciava o fim de uma sociedade e o início de outra, é uma coisa estranha!

Os homens dos ministérios entraram em gozo de beatitude política à vista desses operários, que puseram em fuga uma guarnição, forçaram os guardas nacionais a despojar-se das fardas, suspenderam o imposto, obrigaram a deslocar contra eles, no Inverno, com uma despesa considerável, um corpo de 20000 homens; esses operários que fizeram do perfeito seu secretário, que ditaram condições aos fabricantes; esses operários que negociaram, mandaram embaixadores, trataram de igual para igual com a monarquia de Filipe. (…)

Se o movimento de Lião tivesse sido político, poderia ter destruído a quase legitimidade (…) Este movimento foi só social; só mina os alicerces da sociedade estabelecida. Deus seja louvado! Batei palmas, o justo meio salvou-se por alguns dias. Terá tempo ainda de devorar um outro orçamento de 1500 milhões, terá tempo, antes de desaparecer, de assinar, entre as mãos do estrangeiro e da anarquia, a rendição da glória francesa e a capitulação de todos os poderes da sociedade (…)

É necessário reconhecer que a doutrina da propriedade (dos saint-simonianos) pode ir longe, as palavras «ociosos» e «trabalhadores» têm impacto, e a multidão ouve-as. (…)

Ao ritmo a que avançamos, os rendeiros perguntarão em breve ao possuidor do solo por que razão trabalham eles os seus baldios, enquanto ele se passeia de braços cruzados, por que razão não têm eles mais do que uma camisa, enquanto ele traz um casaco de lã. A propriedade industrial não está mais resguardada do que a propriedade fundiária. Julgais que hoje, depois da questão de Lião, os operários não irão pedir, ao sábado, ao dono da fábrica, se lhes aprouver, para dividir os lucros da semana?! (…) Virá o tempo em que não se conceberá que tenha existido uma ordem social na qual um homem obtinha um milhão de rendimento, enquanto outro não tinha o suficiente para pagar o jantar. Um nobre marquês e um grande proprietário parecerão personagens fabulosas, seres irreais.

(Chateaubriand, in La Révue Européenne, in Documents d’histoire vivante, ed. Sociales, Paris)”

Fui buscar este excerto a um texto de apoio contido num caderno editado em 1976 pela Secretaria de Estado da Orientação Pedagógica, do Ministério da Educação e Investigação Científica, e destinado ao Ensino Secundário, com o título “ História, A/11 – O Socialismo e a Luta do Proletariado, Curso Complementar – 1º ano.

Saído da mão de um autor de origem aristocrática, contemporâneo dos factos históricos que refere neste texto, com vasta experiência governamental e insuspeito de alinhar com as revoltas dos operários, mas que deixa transparecer simpatia e admiração pelo espírito que os animava, informando claramente sobre o ambiente  político e social da época, parece-me ser este um texto do maior interesse o oportunidade nos tempos que correm. Dá-nos um enquadramento dos antecedentes das grandes revoluções que se sucederam, e permite-nos ver que não saíram do nada ou da cabeça de iluminados.

1 Comment

  1. *Creio bem que estes senhores que nos governam tb “cairam em extase ” numa “beatude ” própria de quem se julga “irrevogável ” *

    *A História é ciclica e o mito do eterno retorno ainda não perdeu validade -Maria *

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