CONTOS & CRÓNICAS – IMPRESSÕES DE UMA VIAGEM AOS ESTADOS UNIDOS EM 1986 – 2 – por José Brandão

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É aqui, nos Estados Unidos, que se registaram e registam algumas das mais prolongadas e violentas greves de toda a história operária. O 1º de Maio nasceu neste lado do Mundo. Foi em 1886. O episódio passou para a História como «OS MÁRTIRES DE CHICAGO» e foi assim:Nunca se assistira a uma preparação tão intensa do 1º de Maio como estava a acontecer neste ano de 1886 nos Estados Uni­dos. O dia tinha sido escolhido pelas organizações operárias para iniciarem uma greve geral em favor das oito horas de trabalho diá­rias.

Em Chicago, a União Operária local acreditava que ia aconte­cer uma das maiores manifestações de sempre na cidade. Desde há semanas que a propaganda laboral não parara de agitar os traba­lhadores para a jornada que se aproximava. As folhas operárias não falavam de outra coisa, e por todos os cantos da cidade o as­sunto passava de boca em boca.

Alguns patrões mais afoitos aventuravam-se a tomar medidas, tentando neutralizar a luta que se avizinhava.  Na feitoria McCormick Reaper Plant, o patrão despedira cerca de 1500 operários por estes se recusarem a abandonar os sindicatos a que pertenciam e, indiferente aos protestos, colocara no seu lugar trabalhadores sem vínculos organizativos, selecionados por uma agência de detetives especializada no recrutamento de fura-greves, a Pinkerton. McCormick é um nome famoso na cidade. Foi um Cyrus McCormick, de Chicago, que inventou a máquina de ceifar e que permitiu às grandes planícies americanas tornarem-se um mar de trigo. As suas fábricas de material agrícola estão entre as mais prósperas de toda a América. Cresceram numa cidade que, em 1871, fora destruída por um violento incêndio que o coice de uma vaca originou ao virar uma lanterna no estábulo de um tal Mrs. O’Leary, inflamando 180 000 casas.

No tempo do velho Cyrus McCormick e do seu irmão Leander McCormick, as relações com os trabalhadores chegaram a ser de franca e grande convivência, existindo mesmo alguma democracia no trabalho. Com a morte de Cyrus McCormick, em 1884, a direção da firma é entregue a Cyrus McCormick II, um herdeiro de 25 anos a quem faltava muita experiência e algo mais.

Logo que toma posse do cargo, o jovem McCormick avança de imediato para uma diminuição de 10% a 15% dos salários e da mão-de-obra, a fim de aumentar os lucros da Companhia. Embora houvesse uma crise em Chicago em 1884/1885, McCormick somava lucros na ordem dos 71% anuais. A partir de então, as greves e os lock-outs sucedem-se numa dimensão que colocava as fábricas McCormick em permanente conflitualidade. Em 16 de Fevereiro de 1886, a McCormick fecha as portas das suas fábricas a cerca de 1500 empregados, muitos deles pertencen­tes ao Sindicato Molder’s Union, Local 23.

Quando chega o dia 1 de Maio de 1886, é óbvio que os despe­didos da McCormick estão na primeira linha dos que se manifes­tam publicamente.Nesse dia, milhares de trabalhadores de todos os pontos dos Estados Unidos abandonam o trabalho para proclamarem a jorna­da de oito horas. Em Chicago, muitos dos 80 000 grevistas con­fluem para o comício na Avenida Michigan, promovido pela União Operária e no qual participarão os dirigentes operários Au­gust Spies, Albert Parsons, Samuel Fielden e Michael Schwab. Nas ruas adjacentes ao caminho que a manifestação devia se­guir, encontravam-se companhias de Polícia prontas a intervir. Nos telhados dos locais estratégicos, estavam colocados oficiais da milí­cia e agentes da Pinkerton com o dedo no gatilho das espingardas. Estavam concentrados mil e cinquenta membros da Guarda Nacio­nal prontos a investir a todo o momento. Fora criado um Comité de Cidadãos e delegados, os mais valentes, para constituírem uma espécie de estado-maior general que estava em reunião permanente.  Todos esperavam pela oportunidade de poderem fazer o gosto ao dedo e descarregar a metralha contra os operários que se mani­festavam.  Os mais rápidos no gatilho eram, sem sombra de dúvida, os homens da Pinkerton.

Fundada por um obscuro escocês que emigrara para os Esta­dos Unidos em 1842, a Agência de Detectives Pinkerton é então o principal suporte da vigilância e repressão privada que o grande pa­tronato americano necessita para sustentar as suas ofensivas anti operárias.

Allan Pinkerton, ele próprio filho de um polícia de Glasgow, satisfaz às mil maravilhas as necessidades dos sectores mais reacio­nários do capitalismo norte-americano. A Agência Pinkerton não somente denunciava, espiava, provocava e «dava aos dirigentes sin­dicalistas os castigos que merecem», como organizava destacamen­tos de infantaria, de cavalaria e mesmo de artilharia, que alugava aos donos das empresas em apuros com os trabalhadores.

Para defender a ordem, os patrões dispunham de diversas guardas nacionais, milícias do Estado, tropas variadas — e também de empresas privadas especializadas no fornecimento de fura-greves, espiões, provocadores e mesmo assassinos. «Desde as gre­ves de 1877», escrevia mais tarde um dos chefes da Pinkerton, «as minhas agências sempre foram utilizadas pelos patrões dos caminho-de-ferro, das minas e das grandes empresas, para darem aos dirigentes sindicalistas os castigos que merecem. Centenas des­tes foram castigados. Centenas doutros sê-lo-ão ainda.»

«Os Estados Unidos eram o único país, entre os Estados do mundo burguês, em que imperavam a justiça privada e as forças ar­madas privadas, e mais ainda durante este período.» E. J. Hobsbawm, que produz esta afirmação no seu livro A Era do Capital, vai mais longe: «Entre 1850 e 1889, pelotões de vigilantes autonomeados mataram 530 infratores, supostos ou reais, da lei…»

McCormick contratara os Pinkerton para fazer frente aos ope­rários despedidos.

No dia 1 de Maio de 1886, em Chicago, todas as forças aptas para a repressão estão em estado de alerta total.

Uma manifestação de cerca de 600 mulheres da indústria de al­faiataria é violentamente reprimida pela polícia.

No dia seguinte, algumas centenas de operários despedidos da fábrica McCormick participam num comício em que Parsons e, Schawb usam da palavra.

No dia 3 de Maio, num novo comício, desta vez em frente da fábrica, em que falou Spies, a polícia carrega violentamente sobre os presentes causando de imediato várias mortes e dezenas de fe­ridos.

A indignação é geral no meio operário. A revolta estala nos corações dos mais oprimidos. Spies redige um manifesto de desfor­ra que reclama vingança. O jornal operário de língua alemã Arbeiter Zeitung faz publicar um violentíssimo apelo que incita os traba­lhadores a pegarem em armas contra o que se estava a passar.

Entretanto, o grupo socialista Lehr und vehr Werejin convoca um comício para dia 4 na Praça Haymarket, com a finalidade de protestar contra a brutalidade da Polícia.

Em poucas horas, vinte mil tarjetas são distribuídas em Chica­go, convocando o operariado para o comício da Praça Haymarket, anunciando que «estarão presentes grandes oradores para denun­ciar as últimas atrocidades da Polícia: os tiros contra os nossos companheiros operários ontem à tarde».

De outras cidades americanas são enviadas tropas para ajuda­rem a manter a ordem em Chicago. A Imprensa refere que a situa­ção ali é ameaçadora, afirmando que a maior parte dos turbulentos manifestantes são socialistas estrangeiros.

Alguns jornais vinham insistindo desde há muito num tom de grande campanha contra os sindicalistas.

No New York Tribune, em 1885, podia ler-se a propósito dos grevistas: «Estes brutos só compreendem o argumento da força, uma força de que possam lembrar-se durante várias gerações…»

«Devia bombardear-se esses sindicatos à granada», dizia, por sua vez, o Chicago Times. «Dava-se-lhes uma boa lição que fazia que os outros soubessem a sorte que os espera.»

O Chicago Tribune, pertencente aos McCormick, que já ante­riormente haviam reclamado, em editorial, «os cadáveres dos comu­nistas para decorar os postos de iluminação de Chicago», repetia agora que «todos os lampiões de Chicago ficarão adornados com a carcaça de um comunista, se tal for preciso…»

Mas, mais longe no levantar do véu daquilo que se estava a preparar, foi o Chicago Mail que, dias antes do 1º de Maio de 1886, chegara mesmo a dar o tom para os acontecimentos que se iam seguir, avançando com os nomes de Albert Parsons e August Spies como «dois perigosos rufiões que fomentavam a desordem». «Estejam de olho neles!», adiantava o jornal. «Não os percam de vista. Responsabilizem-nos pessoalmente por tudo o que possa vir a acontecer. Se se registarem distúrbios, os culpados serão eles.»

No dia 4 de Maio, algumas centenas de pessoas concentraram-se na Praça Haymarket, dispostas a ouvir os oradores do comício. Com cerca de uma hora de atraso, o meeting começa já por volta das oito da noite, com os oradores de língua alemã a usarem da pa­lavra. Spies, que discursa de cima de um vagão de mercadorias, es­tacionado na Rua Desplaines, junto a Haymarket, cede o lugar a Parsons, que, tal como Fielden, é americano.

O dia está sombrio. Adivinha-se a chuva que ameaça cair a to­do o momento sobre o local. O mayor de Chicago está presente e pronto a mandar dispersar o ajuntamento ao menor pretexto. Face à ameaça da chuva, Parsons decide recolher-se a uma cervejaria em Zepfs Hall, enquanto Fielden continuava o seu discurso em Hay­market.

Passavam já quinze minutos das dez da noite.

De repente, um capitão da Polícia dá ordens para dissolver o comício, visto que o mayor já tinha abandonado o local. Uma for­ça de 176 polícias toma posições para fazer cumprir a determinação superior.

O inspector Bonfield, que, juntamente com o capitão Ward, comanda a força policial, é bem conhecido pelo seu ódio aos ati­vistas operários. Aquando da greve dos transportes rodoviários em 1885, lançara a sua famosa divisa de «Matar Para Manter a Or­dem».

Alguns espectadores mais prudentes começam a abandonar o local. Os manifestantes já não são mais de duzentos. Ward parou em frente da plataforma improvisada em que ainda continuava Sa­muel Fielden.

—Em nome do povo do Estado de Ilinóis — lançou ao orador—, ordeno-lhe que disperse imediatamente este meeting, e em boa ordem.

—Mas nós estamos em boa ordem! — Ripostou Fielden.

Seguiram-se alguns segundos de silêncio no crepúsculo. Logo se ouviu um barulho precipitado de passos e, de repente, estalou uma explosão terrível: tinham atirado uma bomba.

Quando estava iminente o ataque das forças da ordem, uma bomba anónima fora lançada para o meio dos polícias, matando logo um guarda e ferindo mais de 60, alguns dos quais com gravidade fatal.

O tiroteio desencadeia-se a esmo. Tiros de espingarda e revól­ver transformam a Praça Haymarket num verdadeiro campo de ba­talha. As forças policiais fazem descargas cerradas sobre a multi­dão que, em pânico, foge em todas as direções, deixando mortos e feridos espalhados pelas ruas de Chicago. A muito custo, a violên­cia terminará já pela noite dentro, quando as tropas federais ocupam a cidade. Os mortos e feridos contam-se às centenas. Do atentado bombista virão a morrer mais seis polícias. Entre os manifestantes, as baixas não têm conta.

Nos dias seguintes, centenas de operários, principalmente socialistas-anarquistas, veem profanadas as suas residências e, sem qualquer explicação, muitos deles são arrancados das casas para encherem as prisões do Estado. Todos os comícios operários são suprimidos, não havendo direito a qualquer contestação ou pro­testo.

À exceção de Parsons, que se encontrava em fuga, os orado­res do comício de Haymarket são imediatamente detidos, o mesmo acontecendo com todo o pessoal do Arbeiter Zeitung, que vai igualmente parar à cadeia, ficando proibida a publicação do jornal.

Uma semana depois, um «grande júri» reúne-se para decidir da sorte dos acusados de co implicação no assassinato do polícia Mathias Degan, morto no atentado bombista.

Os réus eram os dirigentes operários:

Albert Parsons: tipógrafo, 39 anos, natural de Montgomery (Estados Unidos). Antigo herói da guerra civil americana, em 1879 fora nomeado candidato à Presidência dos Estados Unidos da América pelo Partido Socialista, tendo renunciado por não ter ain­da os 35 anos exigidos pela Constituição. Várias vezes candidato para o Conselho da cidade de Chicago, Parsons esteve ainda ligado à Associação Internacional dos Trabalhadores-AIT, fundando o jornal do grupo americano da AIT. À data, era uma das mais impor­tantes figuras do movimento operário norte-americano.

George Engel: tipógrafo, 51 anos, nasceu em Kassel (Ale­manha). Emigrara em 1873 para os Estados Unidos, onde se filiou no Partido Socialista. Foi fundador do famoso grupo Northwest, em 1883, e incansável organizador do operariado norte-americano.

Adolf Fischer: tipógrafo, 33 anos, natural da Alemanha, aos 10 anos emigrou com a família para os Estados Unidos, onde desenvolve intensa actividade nos meios da Imprensa, fundando um jornal defensor das ideias mais avançadas no campo socialista.

August Spies: tipógrafo e jornalista, 32 anos, nasceu em Laudeck (Alemanha). Foi para os Estados Unidos em 1872. Em 1877, ingressa no Partido Socialista e, em 1880, é redator no jor­nal Arbeiter Zeitung, passando pouco depois a diretor, cargo que desempenha até ao dia em que foi preso. Grande e ardente orador, era por isso convidado com frequência para falar nos comícios ope­rários das principais cidades do Ilinóis.

Ludwig lingg: carpinteiro, 23 anos, natural de Mannheim (Alemanha), chegou à América do Norte em 1885. Antes, tinha tra­balhado na Suíça onde não tardou a inteirar-se das doutrinas socialistas, que aceitou com entusiasmo. Em Chicago, conseguiu um posto de trabalho de acordo com a sua profissão e depressa ingres­sou na respetiva associação de classe, onde se distinguiu pela sua capacidade organizativa.

Samuel Fielden: operário têxtil, 39 anos, nasceu em Todmorden, Lancashire (Grã-Bretanha). Em 1864, chegou a Nova Ior­que, onde trabalhou em alguns teares. No ano seguinte mudou-se para Chicago, onde conheceu Spies e Parsons. Declarando-se socia­lista, foi um dos membros mais activos da Associação Internacio­nal dos Trabalhadores (AIT) nos Estados Unidos. Era considerado um grande orador e pensador profundo.

Michael Schwab: encadernador, 34 anos, natural de Man­nheim (Alemanha). No seu país filiou-se no Partido Socialista. Foi para os Estados Unidos em 1879 e colaborou, mais tarde, com Spies no Arbeiter Zeitung. Era um orador eloquente e a sua popu­laridade entre a colónia alemã era muito grande.

Oscar Neeb: assalariado, nasceu em Filadélfia, filho de pais alemães. Desde muito jovem sentiu bater o coração em favor dos oprimidos. Foi sempre um excelente organizador das secções pro­fissionais e propagandista convicto das ideias socialistas.

Rudolf Schnaubelt e William Selinger estavam, também, entre os réus deste processo. Schnaubelt, que para alguns é tido como o autor do atentado bombista, encontrava-se em fuga e nunca foi apanhado pela polícia. Selinger optara por trair os seus companheiros e aparecer no julgamento como testemunha de acusação.

Só Parsons conseguiu fugir, mas não pôde suportar por muito tempo a ideia de não ser julgado com os seus amigos. Abraçou pela última vez a mulher e os filhos e em 21 de Junho de 1886, no primeiro dia do processo, apareceu em plena audiência.

—  Vim compartilhar a sorte dos meus camaradas ino­centes— bradou ele.

Sabia que procedendo assim se condenava a si próprio à morte: o juiz estava resolvido a enforcar todos, assim como as testemunhas.

No dia 21 de Julho de 1886, o juiz Joseph Gary inicia a sele­ção dos membros do júri. Entre os mais de 10 000 indivíduos selec­ionados havia apenas seis operários, e mesmo esses acabaram por ser recusados. Só foram admitidas no júri pessoas que se declara­vam antissocialistas e que admitiam aceitar à partida a culpabilida­de dos acusados.

Após quase um mês de seleção do júri, tem início o julgamen­to que se prolongará por 49 dias de audiências. O acusador público Julius Grinnell é perentório ao acusar os réus de vários delitos, prometendo provar quem atirou a bomba na Praça Haymarket e acusando-os igualmente de «pertencerem a uma sociedade secreta que se propunha fazer a revolução social e destruir por meio de di­namite a ordem social estabelecida». Considerou, ainda, o 1º de Maio como o dia (adiado) do começo do movimento revolucionário.

No Tribunal de Cook County desfilam nos dias seguintes as testemunhas de acusação Selinger, Waller e Schrader. São todos antigos companheiros dos acusados, que aceitam colaborar na far­sa para salvar a pele. Nada conseguem provar, o mesmo sucedendo com Grinnell, o acusador público, que não é capaz de provar qual­quer relação entre a bomba lançada no Haymarket e os sindicalis­tas processados. Ao que parece, apenas Fielden se encontrava no local no momento da explosão da bomba. Adolf Fischer e George Engel, apresentados como os mais radicais do grupo, afirmavam ter ficado em casa a jogar às cartas.

Mas o que pretendia castigar eram as ideias dos réus, e isso acabou por ser conseguido.

É nestes termos que o procurador Julius Grinnell se dirige ao júri:

«A lei acha-se posta à prova. A anarquia está em julgamento. Estes homens foram selecionados, escolhidos pelo grande júri (câ­mara de acusação) e inculpados, porque eram dirigentes. São mais culpados que os milhares de homens que os seguem. Senhores jura­dos, condenai estes homens, fazei deles exemplos, enforcai-os, e salvareis as nossas instituições e a nossa sociedade.»

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