O pronunciamento militar de 1926 foi facilitado pela instabilidade reinante durante a Primeira República Portuguesa, conhecendo as instituições uma progressiva degradação, com as massas trabalhadores a afastarem-se dos vários governos «…, já que, em contrário do que alguns pensaram, o novo regime se mostrou, desde o começo, empenhado em deixar incólume, quanto à textura das relações económicas (e, em última análise, sociais) a estrutura essencial da sociedade portuguesa, limitando-se a atribuir-lhe, (…), uma expressão política mais actualizada e, acaso, mais consentânea, por coincidência mesmo involuntária, com os verdadeiros interesses das classes mais activas.», como refere Jacinto Baptista, na sua obra «O Cinco de Outubro»(2), na qual acrescenta uma nota de Quirino de Jesus que diz «As classes, com todas as suas características e modalidades, continuaram a ser as que eram dantes». Foi a verificação desta realidade que levou, por exemplo, a que o homem que, da varando da Câmara Municipal de Lisboa(3), anunciou a implantação da República, José Relvas, que havia sido, no dizer de Carlos Ferrão(4), um dos «seus mais dedicados obreiros. Sempre que, para o seu braço e para a sua inteligência, os republicanos apelaram em momentos de crise, quando a sobrevivência do regime esteve perigosamente ameaçada, ele foi, em tais emergências, o varão forte e a consciência lúcida, que interpretou os sentimentos profundos do povo.», cidadão exemplar este que, após mais um serviço prestado à República, restaurando-a no seguimento de mais uma tentativa dos monárquicos concentrados em Monsanto para a derrubarem, se afasta definitivamente da vida política. Escreve Carlos Ferrão: «Foi esse o último serviço que prestou ao regime que tanto contribuiu para implantar em 1910. E enquanto os republicanos voltavam a praticar os erros que tinham feito correr à República um transe mortal, Relvas recolhia aos Patudos onde viveu os últimos anos da sua existência cultivando as artes que foram, através de tudo, o supremo encanto da sua vida.»(5)
Poderá parecer estranho este desvio para falar da Primeira República; no entanto, o que à frente diremos justifica-o.
Voltemos então a 1933. Neste ano, os principais actores do Movimento Neo-Realista já tinham mais 7 anos.
Entre o 28 de Maio e a aprovação da Constituição, sucedeu-se uma constante instabilidade, governos atrás de governos, o herói do golpe, General Gomes da Costa, a ser deportado para os Açores, ganhando protagonismo o General Óscar Carmona e o Ministro das Finanças, António de Oliveira Salazar. Este consegue a estabilidade da moeda, o escudo português, e o equilíbrio das finanças públicas, com o aumento dos impostos e com a diminuição das despesas da saúde, da educação e da assistência social, o que vem a dar-lhe o domínio sobre a estrutura político-militar, sendo nomeado Presidente do Conselho de Ministros em 1932, sendo considerado o «Salvador da Pátria», abrindo-lhe o caminho para a criação de um estado cada vez mais autoritário e repressivo, o que não pode desligar-se dos ventos que sopram da Europa, como já referimos atrás, que levam ao poder as forças nazistas e fascistas em vários países. Nasce assim em Portugal o Estado Corporativista, apesar da oposição dos vários movimentos oposicionistas, conhecidos como Reviralho, congregando republicanos democratas e liberais, os quais vão perdendo força. O Estado Novo vai-se consolidando, graças também à vitória das forças fascistas do General Franco na Guerra Civil de Espanha (6), iniciada em 1936 e terminada em 1939, a que se seguiu a Segunda Guerra Mundial. Com o deflagrar desta guerra, muitos dos representantes das forças oposicionistas portuguesas no exílio vêem-se forçados a capitular, regressando a Portugal.
alazar apoiou fortemente o General Franco, dentro das suas possibilidades, enviando armas e sobretudo munições e produtos alimentares, podendo estes faltar aos portugueses mas não às forças fascistas. Também não hesitou Salazar em prender os refugiados espanhóis que conseguiam entrar em Portugal, entregando-os às forças fascistas de Espanha, não podendo eu deixar de referir que um desses refugiados era o poeta Miguel Hernández, que acabou por morrer na prisão em Alicante.
Ao relembrarmos a acção de Salazar, após o 28 de Maio de 1926, não podemos deixar de fazer comparações com o que hoje vivemos em Portugal, onde parece haver um Primeiro-Ministro a querer ser considerado um novo «Salvador da Pátria».
Com a aprovação da Constituição de 1933, dá-se início ao período ditatorial, que também hoje conhecemos como o período salazarista ou ditadura fascista de Salazar. É criada a União Nacional, partido único; a censura prévia aos órgãos de comunicação; os usos e costumes a que todos ficam obrigados passam a ser os que Salazar defendia; cria-se a PVDE – Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado, com duas secções – a de Defesa Social e Política, para reprimir e prevenir crimes de natureza política e social, e a Internacional, que passava a controlar a entrada de imigrantes e, destes, expulsar os indesejáveis e desempenhar funções de contra-espionagem, mas cuja atribuição fundamental seria perseguir qualquer opositor ao regime do Estado Novo. Em 1945, esta polícia toma a designação de PIDE – Polícia Internacional e de Defesa do Estado, mas mantendo as mesmas funções, havendo uma nova mudança na sua designação com a nomeação de Marcelo Caetano como Primeiro-Ministro, após a célebre queda da cadeira que impossibilitou Salazar de exercer as suas funções, passando a DGS – Direcção-Geral de Segurança, herdando as funções atribuídas às organizações anteriores. É também criada a Legião Portuguesa, uma milícia de defesa e combate ao comunismo, a que muitas vezes se aderia para conseguir emprego, sem saber muito bem ao que se ia; fundou-se a Mocidade Portuguesa, que procurava doutrinar os jovens com os valores do regime fascista; instituiu-se no ensino o livro único, em que os valores do regime eram sempre apregoados.
