CONTOS & CRÓNICAS – “Entre milheirais”- por Eva Cruz

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O calor apertava. O milho cresceu tanto que escondia quem por lá andasse nos carreiros.

Os lameiros, cobertos de verdes milheirais carregados de tenras espigas já bem cheias,  lembravam batalhões de soldados, alinhados  na quietude da tarde.

 As regas têm horas: ao sol-pôr, ou então de madrugada, pela fresca. A água da levada está só à espera de ser guiada pelos regos de terra seca. Ana já passou na calçada, apoiada na muleta, a caminho do vale. A artrose da anca não a deixa dar as passadas largas de quando era nova, mulher bonita e bem torneada. A sua hora era sempre ao pôr-do-sol. A rega só podia começar quando o último raio de sol batesse na ponta da torre da capela. Sempre assim fora de geração em geração.

 Ana casara tardiamente e não foi com quem quis mas com quem apareceu. Ele morreu ainda novo. Ela ficou viúva para a vida inteira, apesar de cobiçada por casados e viúvos.

 Sempre acreditara em bruxas e bruxedos, almas penadas, feitiços e mau-olhado. Não era mulher de igreja. Raras vezes era vista na capela. Cumpria apenas com o essencial, para não ser falada.

 O sol já dourava a ponta da torre e acariciava o cume do monte, a despedir-se. Ana agarrou a enxada que ficara à beira da levada e nela apoiou a sua força de mulher para abrir o talhadouro. Mais à frente, a sua prima dividia com um grande torrão a força da água a fim de regar outra leiva. A água corria solta, apenas contida nas estreitas margens dos regos, sugada pelas raízes sequiosas do milho.

 -Ainda bem que andas aí. Daqui a pouco é noite. O milho é tão alto que mal deixa ver o caminho.

 -Eu não tenho medo de nada. Posso andar aqui nem que seja até à meia-noite.

 -Isso és tu que não tens ceia para fazer. Eu tenho o meu homem à espera.

 -Pois o meu também passa por casa todas as noites.

 -Tu és tola, mulher, ou estás a fazer de mim tola. Se o teu homem já morreu há tantos anos!

 -Isso é o que tu pensas. Eu fui a um sítio e a bruxa disse-me que ele passa por baixo da janela todas as noites para ver como vai a vida. E acompanhado de uma mulher.

 -Oh diabo, então corneou-te.

 -Não. É com a mãe.

 -Tem juízo, pobre de Cristo, e deixa-te dessas manias. Ainda vais parar à casa dos tolos.

 Já o pai de Ana fora sugado até ao tutano por um bruxo que o visitava. Era um homem de mente débil. Teve uma cisma e durante anos não se deitou, dormindo encostado, de pé. Meteu-se-lhe na cabeça que tinha a modos que um prego espetado nas costas. O bruxo encontrara ali um filão que explorou até à morte.

Um dia pediu à sobrinha, a prima de Ana, um tonel emprestado. As uvas tinham sido muitas, a vindima foi farta e o vasilhame era pouco. Foi buscar o tonel e sentiu-o demasiado pesado, como se estivesse cheio. Convenceu-se de que não só carregou o tonel mas todas as almas que tinham pertencido àquela casa.

-Eu fui a tua casa buscar o tonel mas trouxe às costas as almas do teu pai, da tua mãe e eu sei lá de quem mais!

-Raios o partam, homem do diabo, ponha lá o tonel em casa outra vez e já se livra do peso. Deixe lá estar quem está em paz.

-Não. Agora já não posso. O bruxo disse que tenho de fazer um defumadoiro e atirá-lo ao rio. Não posso é olhar para trás, tem de ser de costas para o rio.

O problema é que o pobre do homem escorregou e desequilibrou-se, sendo obrigado a olhar para trás para não cair à água e afogar-se. Com estas e outras, mesmo sem tonel às costas, arcou com o seu peso durante anos.

A rega demorou cerca de duas horas. O cantar estridente das cigarras desafiava o silêncio da noite. Por entre os milheirais só se viam lá em cima as estrelas a piscar no céu límpido de Verão. Um ou outro pirilampo errante tremeluzia nas beiras do caminho.

Enquanto a prima recolheu a casa, Ana por lá ficou sozinha, entre milhos, crenças e feitiços. Só altas horas da noite se ouvia o bater da muleta na calçada. Talvez a essas horas, por baixo da janela, o seu homem passasse, a ver como vai a vida.

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