MUNDO CÃO – Paródia e tragédia – por José Goulão

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01 (7)Dizem membros da Administração Obama que as eleições presidenciais na Síria vão ser uma “paródia de democracia”.
Conhecendo o sentido de humor de pessoas do género, uns tais dizeres já são suficientes para deixar até qualquer incauto de pé atrás.
As eleições na Síria não serão modelares, admito. Há muitas circunstâncias que contribuem para a sua, digamos, invulgaridade – desde a presença da mesma família no poder há décadas até ao facto de o país estar em guerra, situação cuja culpa não cabe por inteiro, sejamos justos, ao presidente e candidato Bachar Assad. Não tenho mesmo qualquer dúvida de que as responsabilidades têm de ser bem divididas com aqueles que acham as eleições uma paródia.

Suspeito até que as afirmações feitas em Washington para desacreditar as eleições em Damasco têm a ver com isso. A NATO sabe, logo o Pentágono, o Departamento de Estado e a Casa Branca também sabem, que a popularidade de Assad subiu em flecha durante a guerra. Pessoas que jamais nele votariam estão ao seu lado pelo simples exercício de comparação: do regime sabem o que podem esperar; dos grupos de mercenários que Estados Unidos e amigos instituíram como oposição armada ficaram a conhecer o que poderiam esperar através das suas práticas de governo nas regiões do país que controlaram e ainda controlam: fundamentalismo islâmico mesmo para os muitos que não são muçulmanos, segregação sectária e das mulheres, ruína da educação, fuzilamentos sumários por heresia e outras dissonâncias. Sabendo que estes democratas são pagos, treinados e armados pelos que acham as eleições uma paródia percebemos quem estaria a brincar se por acaso isto fosse assunto para brincadeira.

Mas se é também de comparação que se fala, as eleições presidenciais sírias não estão sozinhas no calendário.
Vejamos o caso das egípcias. Trata-se de entronizar o general que as forças armadas escolheram para o lugar de presidente de modo a institucionalizar o golpe de Estado dado há uns meses, com as mal escondidas cumplicidades dos Estados Unidos da América e da União Europeia. Por sinal, um general amigo e discípulo do Pentágono, como deve ser. As eleições vão decorrer enquanto o Estado desenvolve uma perseguição impiedosa aos membros ou simpatizantes do partido que, para o bem e para o mal, ganhou todas as eleições democráticas, consideradas livres e justas por observadores de todo o mundo, realizadas depois do derrube do último presidente escolhido pelos militares – Hosni Mubarak. Enquanto isso, não há corredores da morte onde caibam os mais de mil condenados à pena capital – e as sentenças ainda só vão a meio – durante as últimas semanas, todos eles associados à força mais votada quando houve eleições abertas.

Vai haver também eleições presidenciais na Ucrânia, essas sim um modelo de democracia porque patrocinadas e organizadas pelos próprios juízes da democracia mundial, os que sentenciam onde há paródia e seriedade. Para que tudo corra em ordem – notem que é de verdadeira ordem democrática que se fala – o aparelho estatal militar e de segurança, com as rédeas seguras por firmes pulsos fascistas, vai metendo na linha todos os que no país discordam da ordem vigente, uma autêntica ordem nova.

Portanto, onde se lê paródia nos dizeres dos dirigentes de Washington leia-se tragédia, na Síria ou onde quer que eles metam a mão para implantar a sua democracia.

 

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