CRÓNICA DE DOMINGO – SÍLVIO CASTRO – por Carlos Loures

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Todos sabemos que é uma viagem a que ninguém se furta.

Sabia que o Sílvio Castro estava doente, mas tinha a convicção de que ele ia mais uma vez sair vencedor. A notícia ontem recebida do seu falecimento, apanhou-me de surpresa. Uma muito triste surpresa. Nesta crónica de domingo vou recordar a polémica de estimação que mantínhamos desde há anos, mais de vinte – uma divergência sobre o momento em que passou a existir uma literatura brasileira.

Para o Sílvio era, nem mais nem menos, a carta que Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei D. Manuel, descrevendo-lhe o achamento do Brasil. O que eu considerava um exagero, respondendo com outro exagero – literatura brasileira é o que se escreveu no Brasil após a proclamação da independência. Note-se que não era uma discussão meramente teórica. Sílvio Castro dirigiu uma História da Literatura Brasileira cuja edição coordenei. E nessa obra prevaleceu a opinião do director, o Professor Sílvio Castro.

A polémica teve uma primeira escaramuça em 1993 ou 1994 num restaurante da Batalha. Eu tinha uma reunião ao começo da tarde com o director da biblioteca do mosteiro e o Sílvio e o Manuel fizeram-me companhia nessa deslocação. A obra que o Sílvio ia dirigir estava a ser esboçada e logo ali Sílvio Castro me informou do seu critério. Mais recentemente, dizia ele: «Carlos Loures – e disso eu sempre soube e admirei – é um verdadeiro intelectual, participante e sempre responsável quanto ao seu tempo. Assim ele é, reafirmo. Mas, no seu testemunho sobre a origem da literatura brasileira infelizmente afloram muitas das qualidades predominantemente negativas do “europeísmo cultural”. Eu quase não acredito que seja ele mesmo aquele que escreveu: “Na minha opinião, tudo o que se escreveu no Brasil até a independência do território, pertence ao acervo da Literatura Portuguesa”. Não, tenho a certeza, não é ele. Mas, sim, Cândido de Figueiredo!»

A minha réplica ou tréplica, começava assim:  «Sílvio Castro, meu prezadíssimo amigo, retribuo com os devidos juros os elogios que me fazes e que antecedem a tua patriótica indignação – considero-te um grande escritor, um probo intelectual e sei que és um excelso professor. Nada do que digo a seguir deve ser interpretado de outra forma que não seja a de prosseguir um diálogo entre amigos que divergem num pormenor, mas que sabem que estão de acordo em muitas coisas importantes. Conhecemo-nos há muitos anos e as nossas relações, as profissionais e as de amizade, sempre se pautaram por uma grande frontalidade. Não vamos abrir excepções».

Foi sempre neste tom cordial que a polémica se desenvolveu. Tal como na Guerra dos Cem Anos, havia períodos de tréguas – falávamos de outras coisas. Estávamos de acordo em tudo – até na paixão pelo futebol de que Sílvio era um mestre – em Veneza, ele, catedrático   de Literatura era convidado pela televisão local para comentar desafios internacionais. E estava já combinado que iria comentar para nós a Copa.

Não acredito que haja outra vida que não esta que, melhor ou pior, vivemos pela Terra. Se acreditasse, diria – «Sílvio, Pero Vaz de Caminha? Podemos negociar? Que tal o Padre António Vieira?»

Daria uma das suas prolongadas gargalhadas. Não aceitaria o negócio, Se lermos o seu belo romance O Memorial do Paraíso, compreenderemos melhor a razão de ser da sua tese. Para mim, o primeiro documento literário do Brasil passa a ser o do escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral.

ario

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