Não vimos nada, como na rádio, não percebemos nada, como Fabrice del Dongo na batalha de Waterloo… Aqui o evento histórico decorrera há quatro décadas e, para sabermos o que se estava ali a passar, teríamos de ficar em casa diante de um ecrã. Não era o que queríamos mas sim manifestar, com a nossa presença, a gratidão aos heróis de abril.
Quando chegámos – às dez e meia – já a multidão enchera o espaço. Onde se situava a tribuna? Para que lado? À nossa volta havia gente e acima da gente havia árvores; as quais nas fotografias de 1974 não mostravam uma folha e em 2014 estavam todas verdes, opacas. Tivemos a opção entre o fosso que dá acesso às ruínas e as escadas que lá conduzem, preferi o fosso, que tinha sombra, por isso nos juntámos aos deputados do PS, uns eram-no, outros deviam sê-lo, cara disso não lhes faltava, mais alguns fotógrafos profissionais, mais todos os restantes a filmarem com telemóveis espertos quem trazia algo de semelhante na mão… As músicas difundidas – José Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Adriano Correia de Oliveira – eram cantadas pela multidão e três ou quatro fumadores incomodavam várias centenas que não fumavam.
A certa altura passou acima das cabeças uma coroa de cravos, logo atrás dela movia-se uma nuca que – pela forma – me levou a arriscar:
– É o Otelo.
Ouvimos o discurso. Que só imagino proferido por Vasco Lourenço por já saber que ele falaria… A evocação do Presidente da República teve a honra do maior descontentamento:
– Uuuuuh!
Houve um minuto de silêncio em homenagem a Salgueiro Maia, a seguir cantámos “Grândola, Vila Morena” e o hino nacional. (Este mais audível do que aquela.)
O momento rude do dia foi a saída do Largo do Carmo, lenta e atribulada, por as ruas que lá conduzem estarem cheias de gente que não pudera avançar, encontrámos na confusão o Ilídio Salteiro, a Dora Iva Rita, um grupo de amigos e, após muita demora, avançámos para a cerimónia na António Maria Cardoso, onde não vimos nem ouvimos mais nada. Voltámos a cantar “Grândola, Vila Morena” e fomos almoçar ao Cais do Sodré.
Na manifestação da tarde encontrámos duas primas mas perdemos o Ilídio Salteiro e a Dora Iva Rita. A imagem mais insólita foi um militar no cimo de um chaimite a filmar a multidão com uma “tablet”. Eu no ano passado sentira-me desanimada com a aparência dos veteranos do MFA: os heróis também envelhecem. Uma metáfora da Revolução, pensara eu. Este ano a metáfora trazia consigo o presente.
No dia 25 de abril de 2014 éramos milhares no Largo do Carmo e à volta dele, éramos ainda mais numerosos na Avenida da Liberdade, mas não foi a homenagem que devemos ao MFA. Tivemos a revolução mais pacífica e mais altruísta da história contemporânea, a qual tem servido no mundo inteiro de modelo às Revoluções das Túlipas, do Jasmim e diversas outras flores… Que nunca tiveram o mesmo sucesso: a mesma perfeição. Só portugueses – com os seus defeitos e qualidades – puderam protagonizar um tal momento de ação poética e pragmática, num paradoxo que vai de Nuno Álvares Pereira a Otelo Saraiva de Carvalho. Quando for festejado o meio século da Revolução já mais alguns destes homens não estarão presentes: era portanto agora o momento que a nação portuguesa lhes devia. E o desperdício desta comemoração nacional – desta união nacional – bastaria para definir os atuais Governo e maioria.