Na apresentação de:«Alves Redol. Fotobiografia. Fragmentos autobiográficos»- IV – por António Gomes Marques

 

Imagem1Mas outras concepções de arte vão surgindo por influência de Moscovo, seguidas à letra pelo Partido Comunista Português, com o porta-voz de Estaline para a cultura, Jdanov, a partir da Segunda Guerra Mundial, a impor a sua posição, defendendo, citando Vítor Viçoso, «uma literatura fundada no culto do herói e do heroísmo. A sua defesa do herói não problemático, sem contradições ou dúvidas, ou seja, de um herói optimista com a convicção do futuro na construção da sociedade socialista, levá-lo-á, mais tarde com o apoio de Estaline, a impor a canonizada imagem do “herói positivo” na arte soviética. Por outro lado, viria mesmo a enumerar os potenciais heróis das obras literárias, isto é, aqueles que eram os construtores activos da vida nova: operários, camponeses dos kolkozes, membros do partido, engenheiros, jovens comunistas, pioneiros, etc. Eram estes os tipos fundamentais e os heróis essenciais da futura literatura soviética. Estas personagens tornam-se assim entidades fixas, catalogadas para sempre quanto ao seu modo de pensar e de agir»(13). Ou seja, digo agora eu, nada mais contrário à vida real e à própria filosofia marxista. Também não era esta literatura que os jovens neo-realistas se propunham criar.

Então, que propuseram eles? Comecemos pelo início, recorrendo às palavras de Mário Dionísio, mas também poderíamos socorrer-nos de outros, como Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado, e do próprio Alves Redol, para citar apenas alguns:

«I. Origens: 1. o neo-realismo surgiu espontaneamente em vários pontos do país (Lisboa, Coimbra, Porto, Vila Franca de Xira, Santiago do Cacém, etc) da necessidade, sentida por jovens escritores, que até então nem se conheciam, de reagirem à violenta opressão política, social e cultural do fascismo em Portugal e no estrangeiro e fazerem da sua arte uma arma: nasceu duma vontade de luta contra o salazarismo, coincidiu com a Guerra de Espanha, precedeu a II Guerra Mundial e a resistência francesa; 2. esta reacção assumiu um carácter global (não só político, portanto, ou só social, ou só cultural), que a identificou no campo doutrinário com a concepção marxista da sociedade ¾ expressão estética da visão marxista do homem e da vida ¾, tomando claramente partido pelas classes exploradas, e a aproximou, no campo prático político, do Partido Comunista Português, a que pertenciam, vieram a pertencer ou alguns anos pertenceram muitos dos escritores e, logo após, artistas plásticos, do movimento; 3. as origens do neo-realismo não foram pois as de uma «escola» literária ou artística que se propôs lutar contra outra «escola» literária ou artística (embora tal tenha inevitavelmente acontecido, sob um ângulo estritamente ideológico ¾ aspecto parcelar da sua acção) ou a subordinação a quaisquer desígnios e orientações exteriores impostas a um grupo, que só a prática foi formando e que, pelo contrário, livremente se empenhou numa luta comum; 4. incluamos também nessas origens a herança próxima de alguns jornais como Liberdade, a que eu próprio pertenci (1934) e a lição de personalidades de grande projecção, como a de Bento de Jesus Caraça.

II. Aparecimento: 1. o neo-realismo, como tal, apareceu (foi aparecendo) nos fins da década de 30, através de artigos doutrinários e polémicos (nos quais ocasionalmente surgiu a designação, que, embora pouco feliz, a prática consagrou), em crónicas e poesias publicadas em jornais e revistas que já existiam ou vieram a formar-se, entre os quais O Diabo, Sol Nascente, Altitude, Manifesto, Vértice, páginas culturais de jornais de provìncia, em romances (os primeiros dos quais de Soeiro Pereira Gomes e de Alves Redol), em coletâneas de poesia (a colecção do «Novo Cancioneiro»), em palestras e recitais (sobretudo de Manuela Porto e Maria Barroso), feitos um pouco por toda a parte, em academias recreativas, escolas, garagens, apesar da vigilância policial ou antes que a polícia lá chegasse…; 2. a consolidação do movimento processou-se nos anos 40, com o aparecimento cada vez mais numeroso de romancistas e poetas, de pintores e de artigos doutrinários quase sempre polémicos, numa linguagem forçosamente pouco clara (não se podia escrever, por exemplo, «luta de classes», «proletariado», «revolução», em certas fases a própria palavra «neo-realismo» era cortada), cuja releitura mostrará nunca se ter tratado duma posição ortodoxa (do que sempre foi acusado por críticos pouco atentos aos que criticavam e para o que nunca liberdade lhes faltou…), mas duma doutrina geral comum, com várias tendências internas e pessoalíssimas. E é o que a simples leitura de Redol e de Carlos de Oliveira, de Manuel da Fonseca e de Joaquim Namorado, de Namora ou de João Cochofel ¾ meros exemplos ¾ facilmente mostrará.»(14)

Para não ser muito exaustivo, atentemos apenas em mais um outro esclarecimento de Mário Dionísio, completando assim o meu entendimento do que é o neo-realismo com mais estas suas palavras:

«Acabamos de ver que o que caracteriza o neo-realismo não é a técnica usada (ele deve por enquanto abarcar todas, visto que novas linguagens só podem criar-se através do lento aproveitamento, em síntese, das linguagens existentes), nem os motivos que o atraem de preferência. O que o caracteriza é a posição em que se coloca ideologicamente perante eles. O naturalismo «debruçou-se» sobre este e aquele caso, mas, com a impossibilidade manifesta do seu processo de análise, agarrou-se aos detalhes e perdeu de vista o essencial. Quer dizer: sob o ponto de vista neo-realista, fez o pior que podia ter feito: esquecimento do todo pela parte, deformação da realidade total pelo estudo desligado do particular, abstinência completa, no plano positivo, de acção sobre a própria realidade observada. Quanto ao populismo, que é um naturalismo de hoje, embora menos aceitável pela época em que surge, que sente pelos assuntos populares a atracção do exótico, e lhe dá o cunho do inevitável, o caso é o mesmo. O neo-realismo não «se debruça» sobre o povo, mistura-se com ele a ponto de as suas obras não serem mais que uma das muitas vozes dele. E por isso, não está interessado (como, com tanta injustiça, se tem pensado) em limitar o seu campo a este ou àquele personagem, a este ou àquele meio. Está interessado, sim, para poder bem reenquadrar o homem no seu todo social, em concretizar a sua visão do mundo, em cada caso e em todos os casos. É, portanto, completamente falso que um operário, uma criada de servir, um pescador sejam preferidos pelos neo-realistas, «como personagens», a um industrial, a uma filha de família ou a um banqueiro. (…) Para o neo-realista, não se trata de copiar a natureza, como o naturalismo pretendeu, nem de interpretá-la, como tem feito com tanto êxito o modernismo, mas de transformá-la. Os neo-realistas pensam que os indivíduos são um produto do meio mas que, por sua vez, esse meio é, em grande parte, produto das suas mãos.» (15)

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