JOAN ROIZ DE CASTEL – BRANCO
Trovador: entre 1450 e 1499
– Ó Joam Roiz de Castel-Branco: sei que viveste na segunda metade do século XV. Sei que foste aplaudido trovador na corte de D. Joam II, o Príncipe Perfeito, monarca impulsionador dos Descobrimentos Portugueses. Sei que ao abandonares o Paço foste viver na cidade da Guarda, onde te dedicaste à agricultura e à contabilidade. Sei que hoje repousas no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Peço desculpa mas vou perturbar o teu repouso com a minha agitação dos séculos XX e XXI.
Reparo que estás acordando, já te espreguiças. Resmungas:
– Que quereis de mim, ó Mafoma?
– Mafoma? Quem, eu?
– Sim, Mafoma, mouro, infiel.
– Joam Roiz, mouro eu cá não sou. E infiel também não. Antes pelo contrário, sou um fiel admirador da tua poesia.
Volta a espreguiçar-se mas corrige a acintosa saudação:
– Que quereis então de mim, ó perturbador?
– Quero ouvir alguns dos teus poemas.
– Ai sim? Vou então dizer-vos um poema que enviei a António Pacheco, veador da moeda de Lisboa.
– Veador? Hoje já não se usa essa palavra.
– Estais insinuando que as palavras morrem?
– Ou morrem ou transformam-se. Hoje diríamos vedor ou inspetor da moeda de Lisboa.
– Mesmo depois da minha vida ainda estou a aprender coisas novas. Grato, gosto disso…
– Mas porquê um poema para António Pacheco?
– Porque ele mandou-me uma carta motejando de mim. E a melhor forma de revidar era mandar-lhe um poema.
– Estou a perceber. E como era o poema?
– Como era, não! Como é! Já vos digo.
Declama:
Já me nam dá de comer senam minha fazendinha; rei nem roque nem rainha nam queria nunca ver. O pagar das moradias é o que mais contenta, o despachar da ementa, as madrugadas tam frias; trabalhar noites e dias por ser na corte cabidos, e, os tempos despendidos, ficar com as mãos vazias.
Interrompo:
– Ó Joam Roiz, não era esse o poema que eu queria ouvir.
Fica irritado:
– O que eu começo, acabo sempre, nunca paro a meio caminho.
– Pronto, não leves a mal, avança!
E ele avança:Armadas idas d’além já sabeis como se fazem: quantos cativos lá jazem, quantos lá vão que nam vêm! E quantos esse mar tem somidos que não parecem, e quam cedo cá esquecem, sem lembrarem a ninguém! E alguns que sam tornados, livres destas borriscadas, se os is ver às pousadas, achai-los esfarrapados, pobres e necessitados por mui diversas maneiras por casas das regateiras os vestidos apenhados. Por isto, senhor Mafoma, tresmontei cá nesta Beira, por tomar a derradeira vida, que todo o homem toma; porque há lá tanta soma de males e de paixam que, por não ser cortesão, fugirei daqui té Roma. Pensei que já tínhamos chegado ao fim, porém ele remata ainda:Agora julgai vós lá se fiz mal nisto que faço: em me tirar desse Paço e mudar-me para cá; pois é certo que, se dá algum pouco galardam, lança mais em perdiçam do que nunca ganhará.
– Joam Roiz, posso agora dizer-te qual dos teus poemas eu queria ouvir?
– Dizei lá!
– Queria ouvir a tua CANTIGA, PARTINDO-SE.
– E porquê essa e não outra?
– Porque me seduz.
– E por que vos seduz?
– Não sei o que responder-te.
– Sei eu o motivo da sedução. Deus expulsou Adão e Eva do Paraíso por terem mordido e comido a maçã do pecado. Sabeis disso?
– Sim, já ouvi falar disso.
– Os descendentes de Adão e Eva, por vergonha tapam as suas partes pecaminosas mas não se aguentam e estão sempre a provar e a comer a maçã do pecado. Que nome dais a esse comportamento?
– Contravoltas da PAIXÃO?
– Contravoltas da PAIXÃO? Não está mal visto. Na minha CANTIGA, PARTINDO-SE um cavaleiro apaixonado, em vésperas de partir talvez para o além-mar, despede-se da bem-amada. Está tudo dito ou é preciso dizer mais alguma coisa?
– Precisas dizer muito mais, ó Joam Roiz… Antes de ti, na corte os jograis tocavam e cantavam. Mas depois a poesia palaciana, da qual és um exemplo típico de trovador, limitou-se a declamar. Há porém um golpe de mágica na tua CANTIGA, PARTINDO-SE porque ela consegue incorporar a música no próprio texto. De tal forma que, no meu século XX (e já lá vão cinco séculos…) Alain Oulman sobre ela compôs melodia que Amália Rodrigues interpretou. E o mesmo aconteceu com o nosso compositor e cantor Adriano Correia de Oliveira. Pergunto: que mágica foi essa que tu usaste?
– Não foi mágica, foi engenho.
– Explica lá esse engenho.
– A CANTIGA é toda em redondilha maior, sete sílabas. E todos os versos têm dois acentos tónicos, ora na 3.ª e 7.ª sílaba, ora na 4.ª e 7.ª ora na 5.ª e 7ª. Ora isto, ora aquilo. Desta forma consegui eu criar um ritmo avassalador.
– Está tudo explicado?
– Não, não está. Há também um engenho especial para as rimas. As dos primeiros quatro versos, emparelham a rima do 1.º com a do 3.º e a do 2.ª com a do 4.º. E essas rimas encontram eco nos últimos quatro versos. E os cinco versos que ficam pelo meio, também rimam entre eles, o 5.º com o 7.º e o 8º., o 6.º com o 9.º.
– É tudo?
– Não, ainda não. Falta apontar o advérbio tam, surda pancada que antecede tristes, termo este que domina toda a CANTIGA. Tam irrompe dez vezes. Duas nos quatro primeiros versos. Cinco nos cinco seguintes; cinco em cinco é coincidência que favorece puxar a trela de cinco adjetivos. Mais informo que os três derradeiros tam surgem nos últimos quatro versos. Percebeis a intenção?

