PARIS, MAIO 68 – A IMAGINAÇÃO AO PODER por clara castilho

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Passaram 46 anos. O que ficou no mundo? Nada, ou muito?Vivia-se uma época em que os EUA estavam em guerra no Vietname, Martin Luther King tinha sido assassinado um mês antes.

maio 68

No início de Maio de 1968, o fecho de uma universidade e a expulsão de seus  estudantes, levou a ainda mais forte organização estudantil, com manifestação com mais de 2 mil estudantes, professores e simpatizantes do movimento violentamente reprimidos pelos policiais. Mais tarde a convocação de uma greve geral para o dia 13 de Maio conseguiu juntar 600 000 estudantes. A estes protestantes associaram-se os sectores sindicais, com greves que paralisaram mais de 10 milhões de trabalhadores em França. Às barricadas, coquetéis molotov e pedras da calçada atiradas, os manifestantes juntavam o poder das palavras, fazendo delas uma arma, espalhadas em cartazes e pichagens com slogans irónicos e anti-autoritaristas como: “A imaginação ao poder”, “Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo”, “Ceder um pouco é capitular muito”.

O movimento teve o apoio  de figuras da cultura como o filósofo Jean-Paul Sartre, de artistas locais, como os cineastas François Truffaut e  Godard, inspiraram músicas dos Beatles (“Revolution”), dos Rolling Stones (“Street fighting man”) e de Caetano Veloso e Gilberto Gil (“É proibido proibir”).

 Não falemos das posições tomadas pelos partidos políticos, até porque os estudantes, onde tudo começou, não quiseram “institucionalizar” a organização que tiveram e organizarem-se mais tarde (por exemplo, em partidos políticos), pois esse não era o espírito.

Que o regime tremeu, ai isso tremeu. Que os trabalhadores conseguiram mais regalias, ai isso sim. Os estudantes conseguiram ter mais “voz”. As mulheres conseguiram afirmar-se mais livres (na universidade, por exemplo, a usar calças!). Houve mais igualdade de direitos civis, mais liberdade sexual, reconheceu-se a diversidade cultural. Alguns consideram que foi o marco para os movimentos ecologistas, feministas, das organizações não-governamentais (ONGs) e dos defensores das minorias e dos direitos humanos.

Vasco de Castro, artista plástico, com quem convivi em tempos, contou ao Jornal de Notícias (2.5.2008, artigo de Armanda Ribeiro) como viveu essa época. Considera ele que “o Maio de 68 “alterou o rumo da história”, pois foi o ponto de partida para acontecimentos como a queda do Muro de Berlim [,…] Inspirou, por exemplo, a Primavera de Praga, a queda do sistema ideológico de Leste e, pela primeira vez, falou-se da condição feminina”.

Mudanças? Sobretudo na maneira de pensar, no ousar dizer, no exemplo de que vale a pena arriscar.

Mas hoje, lembro-me de Sarkozy ter afirmado que era preciso “liquidar” a herança deste período. Pois, foi um período que a muitos incomodou e que pode inspirar outros “Maios”…

 

 

1 Comment

  1. Fantástico artigo. Parabéns.
    Sarkozy, e outros, não percebem que o cerne da mudança que teve início em Maio de 68 foi a expurgação ideológica.
    O partidarismo não é mais o eixo do leme. Enquanto as sociedades insistirem nesta vertente – ideológica e partidária – ao invés de soluções criam-se novos problemas, novos conflitos, crises profundas e antagonismos inconciliáveis.
    Cabe-nos a nós, pessoas de boa vontade dizer basta, determinar novos objectivos e implementar os respectivos processos.

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