Na apresentação de:«Alves Redol. Fotobiografia. Fragmentos autobiográficos»- VIII – por António Gomes Marques

Imagem1Implantada a República, verifica o Alfredo Reinegro e os seus companheiros de trabalho que, afinal, a exploração continua e que os ricos de antes da República continuavam a ser os ricos no regime republicano. Adere o nosso personagem às greves que se sucedem, cativado pelos anarco-sindicalistas e por aqueles que, mais tarde, vêm a fundar o Partido Comunista, dedução esta que o leitor da obra pode tirar. No entanto, Alfredo Reinegro não deixa de ser um dos homens do povo que, de armas na mão, aparece em Monsanto a combater mais uma tentativa dos Monárquicos para derrube da República, com o que Alves Redol termina o romance.

Há também uma outra leitura, pelo menos uma outra leitura que também faço.

Durante o período fascista, o elogio da Primeira República servia como arma de arremesso da oposição ao regime fascista de Salazar, criando mesmo um mito sobre o período da sua vigência, 1910-1926, que o glorificava. Ora, como já referimos, a República, de facto, poderia merecer alguns elogios pelas muitas coisas boas que fez para o povo português, mas esteve bem longe de justificar tamanho fascínio. Para não vos ocupar muito tempo com esta questão, vou servir-me de uma síntese de António José Telo, inserta na Introdução ao primeiro volume da sua história da «Primeira República – Do Sonho à Realidade» (19):

“A 1.ª República é um regime bizarro e cheio de paradoxos. Era, quando apareceu, uma excepção na Europa, não só porque no velho continente só havia outras duas repúblicas (a França e a Suíça), mas também porque em muitos campos era dos mais radicais da Europa. (…).

A 1.ª República nascia cheia de promessas, na boca dos seus promotores: finalmente Portugal ia alcançar a Europa, ia ter uma educação moderna, ia conhecer um pujante desenvolvimento, ia libertar-se da canga da religião e da Igreja, ia obter um merecido reconhecimento internacional, ia valorizar a relação com o Reino Unido, ia consolidar o império, ia ter uma democracia avançada baseada no sufrágio universal, ia ser uma sociedade positivista, científica e educada. Ia… mas não foi.

Algumas das promessas foram deixadas cair logo nos primeiros meses, como o sonho do sufrágio universal ou do serviço militar miliciano baseado no «modelo suíço». Outros ideais do tempo da propaganda permaneceram como um alvo a alcançar, algo que as circunstâncias obrigavam a afastar para depois, mas que continuava vivo e activo. Poucas promessas foram concretizadas e as que aparentemente o foram, como a separação da Igreja e do Estado, cavaram um imenso fosso na sociedade portuguesa e transformaram-se no principal motivo do combate político e da divisão.

Com o passar do tempo, o novo regime adquiriu contornos inesperados, muito marcados pelo assalto radical ao poder dos primeiros anos. Tudo se complica com o turbilhão da guerra, que Portugal não poderia evitar em qualquer circunstância. A República, porém, fez com que Portugal não só o apanhasse em cheio, como forçasse a beligerância e, ao contrário do que era a sua tradição secular, se visse envolvido em combates na frente mais intensa e exigente da maior guerra da humanidade (até então).

No final da guerra, em 1918, nasce para todos os efeitos um novo regime, que não tem tempo de se consolidar. É um regime muito diferente da República, que, em vários aspectos, antecipa as características das experiências autoritárias e ditatoriais que vão marcar a Europa do Sul no período entre guerras. Quando parecia que a República tinha terminado, a verdade é que ela renasce das cinzas em 1919 e, sem sonho e sem glória, vai ainda subsistir por mais sete anos. Acaba com um movimento que é, simbolicamente, o contrário do 5 de Outubro: exclusivamente militar, disciplinado, dirigido pela alta hierarquia – uma marcha da província sobre a capital que não encontra resistência.» (pág.s 9 e 10).

N’«Os Reinegros», Alves Redol mostra-nos uma Primeira República muito semelhante ao que António José Telo nos conta, também demonstrativo de que o autor, seguindo o seu método habitual, previamente se muniu de documentação esclarecedora, lembrando eu que a historiografia da época estava muito longe de ter a riqueza da investigação que hoje temos ao nosso dispor.

Não duvido que Alves Redol quis chamar a atenção para a necessidade de ver com outros olhos aquele período da nossa História, o que a censura fascista não lhe permitiu.

Considero também que a leitura, hoje, deste romance se torna absolutamente necessária, permitindo-nos uma reflexão, que é urgente, sobre os 40 anos do pós 25 de Abril. A história não se repete mas há situações do passado que, quando estudadas com alguma profundidade, nos permitem compreender bem melhor o presente e ajudar a construir um futuro mais feliz para nós e para as gerações futuras.

No 25 de Abril tivémos também um movimento militar a marchar da província para a capital, derrubando o regime fascista. Note-se, no entanto, que esse movimento, conhecido como o «Movimento dos Capitães», não foi dirigido pela hierarquia, acabando por entregar, quase de imediato, o poder aos portugueses para que fossem ouvidos e participassem na construção de um Portugal moderno, hoje bem em perigo e entregue nas mãos de serventuários do grande capital nacional e internacional.

Os «Capitães de Abril» deram o passo indispensável, a nós todos compete-nos dar os passos seguintes e assim cumprir Abril.

Portela (de Sacavém), 2014-03-19

NOTAS

1 – Caraça, Bento de Jesus, «A Cultura Integral do Indivíduo – Problema Central do Nosso Tempo», in «Cultura e Emancipação», pág. 101, edição crítica da Obra Integral de Bento de Jesus Caraça, edição de Campo das Letras – Editores, S. A., Porto, Maio de 2002;

2 – Baptista, Jacinto, «o Cinco de Outubro», Editora Arcádia, segunda edição corrigida e aumentada, colecção BAB – Biblioteca Arcádia de Bolso, Novembro de 1965;

3 – Na Fotobiografia que comentamos há um erro, que classificamos como distracção do autor, ao afirmar, na pág. 10 «Poucas horas depois de Carlos Relvas ter proclamado a República na varanda da Câmara Municipal de Lisboa, …» quando, na verdade, quem fez tal proclamação foi o seu filho José Relvas;

4 – Ferrão, Carlos – in Prefácio a «Memórias Políticas-2», de José Relvas, Edições Terra Livre, Secretaria de Estado da Comunicação Social, Direcção Geral da Divulgação, Lisboa, Setembro de 1978, pág.16;

5 – o. c., idem, pág. 82;

6 – “O período mais terrível foi o da Guerra Civil de Espanha, mas foi também o de maior esperança. Assistíamos aqui aos espanhóis que fugiam para cá e que eram depois entregues para serem fuzilados. Um horror! Mas até ao fim acreditámos na vitória da República.

Foi aí que começou o neo-realismo – e não depois da guerra, como muita gente diz -, que começámos a tomar uma atitude de oposição activa, de luta política e também de escrita.”, in Mário Dionísio, «Fui Sempre Anti-Stalinista», transcrito na obra «Entrevistas», edição da Casa da Achada-Centro Mário Dionísio, Lisboa, Setembro de 2010;

7 – Gonçalves, Bento – «Palavras Necessárias-A Vida Proletária em Portugal de 1872 a 1927», Edição de Virgínia Moura, 2.ª edição, Porto, 1973;

8 – C. G. T. – Confederação Geral do Trabalho;

9 – Mário Dionísio refere-se aqui a Karl Marx, escrevendo apenas Carl para fugir à censura;

10 – Dionísio, Mário – «A Propósito de Jorge Amado – II», in jornal O Diabo, n.º 165, de 21 de Novembro de 1937, reproduzido in «Dionísio, Mário – Entre Palavras e Cores, Alguns Dispersos 1937 – 1990», edição conjunta de Livros Cotovia / Casa da Achada-Centro Mário Dionísio, Lisboa, Setembro de 2009;

11 – Viçoso, Vítor – «A Narrativa no Movimento Neo-Realista, As Vozes Sociais e os Universos da Ficção», Edições Colibri, Lisboa, Outubro de 2011;

12 – Nicolai Bukharine, chegou a líder da ala dos Comunistas de Esquerda, aliando-se a Estaline contra Trotski após a morte de Lenine. Em 1928 Estaline, que o considera um possível rival, acusa-o de liderar a oposição de direita, afastando-o do poder em 1929. Após uma reconciliação formal, chega a redactor-chefe do jornal Izvestia em 1934. Três anos depois é preso, sendo condenado à morte no terceiro processo de Moscovo e executado em 1938;

13 – Viçoso, Vítor – o. c., pág. 24;

14 – in «Sinais & Circunstâncias»: Depoimento de Mário Dionísio, Vértice, vol. XXXIV, n.ºs 365-366, Junho-Julho de 1974, transcrito in Dionísio, Mário, «Entrevistas», v. nota 6;

15 – in «O que é o neo-realismo?», entrevista de Mário Dionísio ao jornal Primeiro de Janeiro, de 3 de janeiro de 1945, transcrita na obra citada na nota 6;

16 – in «Para o perfil de um camarada», testemunho de Mário Dionísio inserido na obra «Alves Redol, Testemunhos dos seus contemporâneoa, Organização de Maria José Marinho e António Mota Redol, Editorial Caminho, Outubro de 2001;

17 – Torres, Alexandre Pinheiro – «O movimento neo-realista em Portugal na sua primeira fase», Biblioteca Breve, Edição do Instituto de Cultura Portuguesa, 1.ª edição, Lisboa, Novembro de 1977;

18 – Plekhanov, Georges – «A Arte e a Vida Social», Editora Brasiliense, tradução de Eduardo Sucupira Filho, S. Paulo, 1964;

19 – Telo, António José – «Primeira República I – Do Sonho à Realidade», Editorial Presença, 1.ª edição, Lisboa, Setembro, 2010.

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