FORUM DA ARGOS – “Vamos ter eleições” – por Adão Cruz

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Os jornais de hoje dizem que as grandes fortunas aumentaram milhares de milhões durante a colonização da Troika. E trazem a fotografia de alguns dos figurões, que até parecem seres humanos normais. A palavra escândalo é demasiado leve pra traduzir aquilo que não é traduzível pelo mais abjecto dos palavrões.

Vai haver eleições, ainda não sei bem de quê e para quê. Talvez para ajudar a aumentar mais uns milhares de milhões a pilha de notas em que esses abutres se sentam, à custa dos milhões de pobres e miseráveis que vão votar para que eles lá se mantenham na sua vampiresca e inacessível pirâmide.

Vamos ter eleições. Deixa-me rir. Eleições! Estupidez, ignorância, fé, não sei como se define a plataforma em que assenta aquilo que chamam consciência política de um povo. Um povo que se deixa enganar e conduzir irracionalmente como um rebanho de ovelhas, expressão tão cara aos clérigos da igreja. Um povo que não é só o povo mais ou menos analfabeto, mas também parte daquele povo que se diz culto e se reclama de intelectual. Deixa-me rir, ainda que amargamente.

A direita aí está desde sempre!, Escarrapachada, retinta, varrendo para o lixo os restos da democracia, abocanhando o prato dos outros, como instinto natural e desumana mal-formação genética, enxertada não sei em que malfadado braço da Evolução, cuja missão soberana é aumentar cada vez mais a fortuna dos que tudo têm à custa dos que pouco ou nada têm. Com a Troika, o país, ou seja a quinta, ou seja a coutada, está melhor, o povo que nela vive e vegeta é que está pior. A pilha de notas em que os donos do país se sentam é cada vez mais alta, para fugir ao monte de merda cada vez maior que se estende a seus pés.

A direita aí está desde sempre, cuspindo na Constituição, porque ainda não pôde rasgá-la aos bocadinhos. A direita aí está, usando a lei ou a ilegalidade conforme convém, a sua Justiça e os buracos da lei como o seu mais seguro tira-nódoas e os buracos da nação como esconderijo dos seus roubos e assaltos. A direita aí está de portas escancaradas a todos os Passos e Portas que sejam as portas e os passos para a descarada mentira de todas as promessas. E a maioria silenciosa lá vai engolindo, como incontornável destino e divina resignação, a consagrada hóstia de todas as traições.

Sem consciência a democracia é um barrete, com olhos fechados a democracia é um barrete, sem cultura a democracia é um barrete, sem coragem a democracia é um barrete, sem revolta a democracia é um barrete, sem Constituição a democracia é um barrete, sem Justiça a democracia é um duplo barrete, sem povo, ou melhor, sem cidadãos a democracia é um triplo barrete, sem cidadãos, a democracia não existe.

Por isso a direita não quer cidadãos. A direita só quer povo, se for uma direita com rótulo. Se não tiver rótulo, se for supranacional, profissional ou mesmo artesanal, nem de povo precisa. Por isso eu não acredito no povo, eu não acredito no povo despido da sua dignidade de cidadão, no povo que beija a mão aos que o fazem povo, aos que o utilizam como povo e não como gente ou como sociedade de cidadãos.

Um imenso lençol de mortos jaz debaixo da terra carcomidos pela exploração e pela injustiça, e um imenso mar de vivos (mortos-vivos?) deambula à flor da terra. Os de baixo expiraram. Nós, os de cima, ainda inspiramos alguma coisa, mas não conseguimos respirar, asfixiados que estamos pelo garrote do poder e da desonra. O povo, em vez de abrir a janela de par em par para respirar ar puro, vai aceitando como esmolas e caridades, as máscaras de oxigénio que a direita lhe estende.

Por isso eu não acredito no povo. Só acredito em cidadãos. Sem cidadãos a democracia é um barrete. Sem cidadãos não há eleições. Deixa-me rir. Sem cidadãos as eleições, sejam daqui ou europeias, são um pedido da sua bença, e o desejo de um feliz regresso da madrinha Troika.

O país está infestado de ratos. Os ratos roeram os embriões da democracia e da justiça, os ratos roeram tudo, os ratos roeram o país, os ratos deixaram o país em buracos. Mil e tal milhões de buracos, sessenta milhões de buracos, trinta milhões de buracos, vinte milhões de buracos, dez milhões de buracos… Os ratos comeram tudo e também os olhos do povo. O povo de Abril sempre teve um frasco de raticida na mão, mas em vez de o atirar para cima dos ratos deitou-o pela retrete abaixo. O povo cegou, e quanto mais cego, menos o povo é capaz de ver quem o cegou.

O povo sempre foi avesso à cidadania, ou melhor, a direita, que não quer cidadãos, sempre procurou secar as fontes onde o povo pudesse beber a fresca água da cidadania. E ao povo sempre foi vedada a luz da cultura, do conhecimento e da lucidez mental com que se faz um cidadão.

Por isso eu não acredito no povo que quer como amigos os seus inimigos. Só acredito em cidadãos, e os cidadãos não são muitos e não acreditam nos inimigos. A direita e o capitalismo selvagem não sobrevivem com cidadãos. Se houver muitos cidadãos a direita impõe uma ditadura. Sempre assim foi. Como não sobreviveriam se o conhecimento e a cultura fossem o sangue da sociedade.

O país cheira mal que tolhe. Cheira a fraude, cheira a roubo, cheira a corrupção, cheira a merda por todo o lado. Quando ao fim de quatro anos a fossa está cheia, a falsa democracia pede ao povo para a despejar, e o povo, em vez de a lavar bem lavada e encher de água limpa, oferece-a de mão beijada a uma nova equipa de cagadores. Em vez de lhes atirar com a trampa à cara, varre-a para debaixo do tapete e com o ar mais cândido diz: não é merda o que fizeram, senhores, são rosas!

Os que antecederam Cavaco e seus acólitos, desenraizados personagens de divina comédia, nada-tudo-nada deste pobre país, andaram por aí, por essa Europa, a tentar fazer disto um cemitério. Cavaco adiantou-se como coveiro, começou a abrir a cova para enterrar Portugal, e os ”boys” que o povo foi acariciando carregaram o caixão às costas, alternando com outros “boys” de outras equipas desta fossa democrática. E o povo ingénuo, sempre a pensar que ia numa procissão do Senhor dos Passos, com a Igreja à frente aspergindo água benta! Deo Gratias! Gloria in Excelsis Deo!

Por isso eu não acredito no povo, o principal responsável pelo aumento dos mil e tal milhões nas fortunas dos figurões que hoje vêm escarrapachados nos jornais, e que até parecem seres humanos normais.

Por isso eu não acredito nas eleições sem cidadania, borbulhando de quando em vez como emanações de gazes, simulacro de vida, na imunda fossa desta “democracia”.

 

                                                                                             

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