CONTOS & CRÓNICAS – “Spleen” – por Manuela Degerine

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Dos Anjos até Queluz são duas horas e meia de caminhada. Atravesso a Almirante Reis e o Largo de Santa Bárbara, subo a rua Joaquim Bonifácio, passo na Gomes Freire e na Tomás Ribeiro… Se acaso for domingo de manhã, entro na Igreja de S. Sebastião para rever azulejos, faço outra digressão na Gulbenkian para analisar algum quadro; e a estabilidade – durante as últimas décadas – destes dois pontos de paragem não é a sua ínfima qualidade. Prossigo para Sete Rios, chego à Estrada de Benfica.

A minha madrinha vivia no segundo andar do n°414, um prédio que se encontra entaipado mas continua a ter no jardim o limoeiro ao qual, uma vez, colhi todos os frutos com o tamanho de um berlinde: para brincar. A visão desta árvore – cá de baixo, do passeio – conduz-me à criança que fui, lembro-me das catorze divisões, os quartos, a sala de estar, a sala de costura, a sala de visitas, a sala das malas… Lembro-me do cheiro particular daquela casa. Possuo móveis e objetos que de lá vieram, todavia a sua presença não coincide com a que guardo na memória, parecem-me agora mais pequenos e menos misteriosos, sendo evidente que não mudaram assim tanto – mudei eu muito mais. (O pão, a sopa, o arroz também tinham ali sabores que não voltei a encontrar.) Gatinhei no corredor cujas madeiras terão apodrecido, adormeci a mirar tetos esculpidos que agora serão buracos.

Eu absorvera-me nos estudos, no crescimento, na decifração do mundo, de súbito morre o meu avô, morre a minha madrinha: sem eu estar prevenida. No entanto em vez de a desfazer, como se poderia talvez pensar, o tempo reforça a presença dos que amamos; começo aos poucos a compreender a mulher idosa que a madrinha era na minha adolescência. (Aprendi – entre tantas coisas – o francês com ela, uma iniciação que teve algumas consequências.) Captação do tempo no espaço… Subir as escadas e encontrá-la na sala. Será a este impossível que chamam saudade?

Daquela Estrada de Benfica restam a igreja, os chafarizes das “Agoas Livres”, a casa do “Beau Séjour”, o Bairro do Grandela, uma ou outra loja, alguns edifícios escalavrados e os escassos habitantes que resistiram ao tempo e às mudanças.

Após as Portas de Benfica, entro na Venda Nova, caminho junto de um muro por detrás do qual, na minha infância, havia algo ligado à agronomia (ou à pecuária) e onde me intrigavam as ventoinhas gigantes – que eram eólicas da marca Roquete. Mais adiante situa-se a entrada da Quinta do Assentista cujo portal regista a data de 1746, lembrando uma época em que a Inquisição controlava as ações e palavras de cada um…

(Ontem eu sentia sede e quando, para tirar a garrafa da mochila, apoio o pé no pára-choques de um citroën estacionado no espaço público, oiço gritar de uma marquise do segundo andar.

– Ó minha senhora! Faz favor de tirar o pé do carro!)

A morada foi das primeiras coisas que aprendi: Rua de Macau, n°12, 1° esquerdo. Na Amadora. No Bairro do Bosque. Vivemos lá noutro século e sobretudo noutra era… Antes do 25 de abril. Tento não sobrepor as imagens presentes, tento não reparar que o espaço se reduziu, pois eu tinha três, quatro, cinco anos, dava voltas ao quarteirão de triciclo: um ponto de vista a meio metro do chão. Não havia carros, não havia perigos; a minha mãe deixava-me brincar na rua. Com o Vitinho. (Vítor Manuel Baeta de Almeida. Que será feito dele?) O ardina lançava o jornal para a varanda, os acrobatas faziam piruetas no meio da rua, saltávamos à fogueira nos santos populares… Eu ia com a minha mãe e a Boneca – uma cadela branca – dar passeios de sol, malmequeres e bosta de vaca por campos que são agora prédios leprosos; regressávamos com espargos bravos e ramos de flores. Durante anos compridos repeti a pergunta.

– Vou para a escola quando?!

Em frente do quartel dos bombeiros resiste o edifício: entaipado. Os franceses fitam-me com perplexidade quando falo desta infância demolida ou, na melhor das hipóteses, condenada; só o tempo os separa da criança que foram, o espaço garante-lhes unidade, confiança, segurança. Eu tenho mais recordações do que se tivesse mil anos. (Como Charles Baudelaire.)

A professora chamava-se Maria Vitória, éramos sessenta alunas, três em cada carteira, felizmente eu já sabia ler, aprendera com a mãe as tabuadas, as provas dos nove, as aventuras de Vasco e de Ulisses, cantara “sur le pont d’Avignon” com a madrinha… No recreio saltávamos à corda e ao elástico, fazíamos rodas e outros jogos à volta da palmeira. (Será que as miúdas ainda brincam à “Linda Falua”?) Fiquei ano e meio naquela escola, depois mudei para a casa dos meus avós, terminei a segunda e a terceira classe nas Sarzedas de S. Pedro e concluí a escola primária em Queluz.

Que faz parte do presente por a minha mãe lá viver. Passo na estação da Amadora, atravesso o Bairro de Janeiro… Chego à ponte filipina.

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