O silêncio
Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.
Nuno Júdice, in A matéria do poema, Dom Quixote, Lisboa, 2008
Il silenzio
Comincio con un pezzo di silenzio. Lo divido al mezzo,
e vedo uscire da dentro le parole che
sono rimaste da dire. Alcune, le metto in una boccetta
con l’alcool della memoria, perché si
trasformino nel liquore del rimorso; le altre,
le tengo in testa per dirle, un giorno,
a chi mi domanderà ciò che significano.
Ma il silenzio da dove le parole sono uscite
ritorna a diffondersi su di esse. Bevo il liquore
del rimorso; e prendo dalla testa le altre parole
che là sono rimaste, finché il rumore scomparirà, e solo
il silenzio rimarrà, intero, senza nulla dentro.


*Que silêncio!Maria *