OS MEUS DOMINGOS – SECOS E MOLHADOS – por ANDRÉ BRUN

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1881 - 1926
1881 – 1926

 

III

 

Em todos os países, mais ou menos, há leis tendentes a reprimir esse feliz estado de alma, que se chama embriaguez; mas em parte alguma do globo a repressão atingiu a severidade com que os americanos, feita a paz com a Alemanha, declararam guerra ao alcoolismo. Hoje em dia – e mesmo de noite – não há meio de se apanhar uma camoeca em território yankee sem risco de cadeia grossa. Quem queira empiteirar-se tem de vir à Europa, o que explica que durante estes vinte e dois anos mais próximos estejam tomadas todas as passagens de primeira nos paquetes que atravessam o Atlântico.

Ao começo, porém, nem todos os Estados da União aderiram às mesmas ideias. Houve tempo em que se dividiam em secos e molhados. Nalguns podia-se beber à vontade, ao passo que noutros só eram permitidos o chá de tília e o capilé de cavalinho. Ora, uma vez, chegou um viajante a uma cidade que ele não sabia ser seca. Entrou na hospedaria, arrumou a bagagem a um canto e pediu um copo de whisky. O dono da casa mirou-o surpreso e acabou por lhe dizer:

– Sinto muito, meu velho, mas aqui não se pode vender whisky. Nem um dedal dele.

– Ó diabo! – disse o outro. – Que brincadeira tão estúpida! Vou então morrer de sede?

Pôs-se a pensar que estava mesmo no centro do Estado – não sei se era o Minnesota, o Kentucky ou o Ohio – e que, para chegar a um território mais civilizado, tinha que andar cento e cinquenta milhas a cavalo, ou sejam duzentas e oitenta milhas a pé. A situação era angustiosa e o nosso viajante começou a lamentar-se, a amaldiçoar a legislação vigente e tudo isto para ver se convencia o dono da locanda.

Este, por fim, explicou:

– Talvez haja um meio… O álcool aqui é proibido como bebida, mas é autorizado como remédio. Por exemplo: se o meu amigo for mordido por uma serpente e tiver um atestado da mordedura, pode obter todo o whisky que quiser… Como contraveneno, já se vê.

O viajante estava desolado.

– Como hei de eu arranjar isso? Não conheço aqui ninguém, quanto mais uma serpente…

– Espere, que a coisa arranja-se. – atalhou o da hospedaria. – Você mete aqui por esta rua em frente. Lá em cima corta à esquerda, toma a terceira rua à direita e chega a uma grande praça. Nessa praça há um boticário. Esse boticário tem uma serpente. Você entra e pede para ser mordido. Custa-lhe um dólar. O boticário passa-lhe, em seguida, um atestado da dentada. Custa-lhe outro dólar. Com esse atestado, você arranja em qualquer loja todo o whisky que lhe apetecer…

O viajante não quis ouvir mais nada. Meteu a trote – a fox trott mesmo – pela tal rua em frente e o locandeiro estava radiante por ter sido útil ao seu próximo com sede, quando, passados dez minutos, o viu regressar muito triste.

– Olá! Você não se demorou. Isso foi num instante. Traz o atestado?

– Não está mau o atestado, – retorquiu o viajante furioso. – Cheguei, ou por outra quis chegar, à tal praça que o senhor me tinha indicado. Vi de longe a botica em questão…

– E então?

– E então? Havia doze mil pessoas, pelo menos, à espera de serem mordidas pela serpente…

 

21 de Janeiro de 1923

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