Da Poesia e Ficção Neo-Realistas ao Real Alentejano – por António Gomes Marques

raiaDecorria o ano de 1967, trabalhava eu no Instituto Nacional de Estatística, quando surgiu a hipótese de trabalhar no «Inquérito de Despesas e Receitas Familiares», oportunidade única de poder juntar algumas reservas monetárias para aguentar o serviço militar obrigatório que se aproximava, tendo em conta que, com ordenado e ajudas de custo, poderia passar a receber 5.000 escudos mensalmente.

Evidentemente, voluntariei-me de imediato!

Durante uma semana, entrava-se na intimidade de uma família

Esta acção do INE, para além de outros Concelhos, levou-me a passar mês e meio em Alcácer do Sal, onde, com os meus companheiros de trabalho, nos hospedámos, com pensão completa, ou seja, com dormida, pequeno almoço, almoço e jantar, por 50 escudos diários, o que me permitia ficar com 3.500 escudos livres para outras despesas, na altura insignificantes até por falta de oportunidades para gastar algum dinheiro, e para poupança, poupança esta que viria a permitir-me viver com algum conforto durante o primeiro ano de serviço militar, a que se seguiria a ida para a chamada guerra do ultramar, no meu caso em Moçambique (que outras estórias poderia eu contar!). O café-restaurante da residencial onde, com os meus colegas, estava hospedado ficava situado no «Largo das camionetas», como ouvia chamar-lhe, pois era dali que partiam os vários autocarros de passageiros, o que hoje não acontece, em frente do rio Sado, café-restaurante esse que ainda existe. Ali iniciava o meu dia tomando o pequeno almoço, preparado por uma linda mulher, a Berta Luísa, cujo sorriso a tornava ainda mais bela, a que juntava uma simpatia natural. Nasceu assim uma amizade, que acabou por me trazer mais privilégios, não só por passar a ter uma companhia, quando ambos libertos das obrigações profissionais, mas também por passar a beneficiar de um sumo de laranja com pouca água, o que levava os meus colegas a perguntarem, quando o pequeno almoço nos era servido, qual era o sumo do António, ao que a Berta Luísa respondia, invariavelmente, que ainda o iria fazer.

O conhecimento que eu tinha na altura do Alentejo havia-o obtido na leitura de alguns neo-realistas, não contribuindo para esse conhecimento uma ou outra visita a qualquer localidade alentejana, a maioria delas de passagem para o Algarve, nomeadamente e a título de exemplo, em «O Trigo e o Joio», de Fernando Namora, «Suão», de Antunes da Silva e, principalmente, na obra poética de Manuel da Fonseca e em algumas das suas notáveis obras de ficção como «O Fogo e as Cinzas», «Aldeia Nova» e «Seara de Vento», esta última uma obra-prima em qualquer literatura do planeta Terra.

Numa aldeia do Concelho de Alcácer do Sal conheci um trabalhador rural que, nesse ano de 1967, ganhava 2$50 por dia, bastando que houvesse uma dia de forte chuvada para que esse trabalhador ficasse inibido de tal importância poder ganhar. Mas, antes de continuar, deixem-me lembrar estes versos com que o meu saudoso amigo Manuel da Fonseca inicia o seu poema «Aldeia»

«Nove casas,

duas ruas,

ao meio das ruas

um largo,

ao meio do largo

um poço de água fria.

 …»

 dado não haver melhor melhor forma de vos descrever a aldeia em que conheci o dito trabalhador rural.

 A seu cargo aquele homem tinha a sogra, a mulher e uma criança recém-nascida, estando a mulher impossibilitada de trabalhar pelo estado debilitado em que ficou após o parto. Como era possível com aquele miserável resultado do seu trabalho, perguntei-lhe eu, ao que me respondeu que, recebida a semanada, logo se apressava a gastá-la em pão e linguiça. As minhas interrogações continuaram: «E só comem isso?», «Como é possível ter forças para trabalhar?», ao que ele de imediato me esclareceu que, de facto, assim não era; durante a noite, «desviava-se» do caminho e ia apanhando tomates e algumas peças de fruta –«Só o necessário para comer», dizia-me com firmeza- com o que completava a sua magra dieta. «E nunca foi apanhado nesses desvios?», continuava eu a perguntar, ao que ele me respondeu que não, embora estivesse convencido de que algumas pessoas, incluindo as «lesadas», disso tinham conhecimento. «Não seria mais avisado pedir aos donos?», insistia eu, recebendo como resposta um afirmativo «NÂO!», o que, de imediato, me levou a recordar a Cena Terceira de um dos mais belos poemas dramáticos da literatura, naturalmente da autoria de Manuel da Fonseca, «A Casa no Vento», nomeadamente a fala do Segundo Ladrão: «Ao que a gente chegou… assaltar quem tem tanto como nós…».

De facto, pedir não é uma característica do alentejano.

 Lembro a revolta que em mim foi crescendo, revolta essa que agora não vinha da leitura dos neo-realistas mas da própria realidade que me entrava pelos olhos dentro. Lembro também a perturbação que em mim nasceu, ao ponto de passar a dormir com dificuldade ao aperceber-me que aquele trabalhador teria de trabalhar, no mínimo, 200 dias para auferir o mesmo montante que eu recebia num mês. Reflectia eu diariamente e procurava agarrar-me, pragmaticamente, à minha planeada poupança para o tempo do tal serviço militar obrigatório, o que foi conseguido.

 O meu plano poderia ser cumprido mas o meu sentimento de culpa, ao pensar naquele explorado trabalhador rural, não diminuía. Às noites mal dormidas, sucediam-se os sumos de laranja especiais e os sorrisos matinais da Berta Luísa, que me reconfortavam com o mundo, estendendo-se depois as conversas após o jantar, em que, naturalmente, a Berta Luísa me ia falando de outras vidas dos alentejanos, não apenas dos trabalhadores rurais, como a ocupação de famílias em todas as horas vagas, pais e filhos, a separarem o miolo do pinhão da sua casca para receberem uns miseráveis escudos que acrescentavam aos fracos rendimentos que iam obtendo noutras actividades, sendo o concelho de Alcácer do Sal considerado o «Solar do Pinheiro Manso», de cujas pinhas se obtém o delicioso miolo de pinhão. Conheci mesmo algumas dessas famílias e, num gesto de aproximação, cheguei a pedir para me deixarem acompanhá-los nesta tarefa, o que me foi consentido. Hoje, quando como miolo de pinhão, estas imagens ocupam-me a memória e não deixam de me perturbar ainda.

 Perante a observação desta realidade, pude facilmente concluir da verdade da poesia e da ficção neo-realista, fundamental na minha formação como cidadão consciente do regime fascista que nos oprimia e que seria indispensável derrubar.

 E tu, Berta Luísa, minha amiga, que será feito de ti?

 Portela (de Sacavém), 2014-05-13

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