Todo o processo de integração de Portugal na União Europeia está inquinado de falhas graves. O processo de adesão foi feito sem a menor auscultação dos cidadãos, parecendo que os governantes que na altura tomaram as decisões consideraram à partida como garantido que os portugueses aceitariam o princípio da adesão só pelo simples facto de viverem no continente europeu. É verdade que alguns elementos mais informados chamaram a atenção para os perigos que se corriam, e para o facto de se dever conhecer melhor a opinião dos portugueses, a par com um processo de esclarecimento sobre as implicações de uma integração europeia. Também houve quem, perfilhando ideias nacionalistas, condenasse a adesão à então CEE – Comunidade Económica Europeia, por, à partida, a considerar contrária ao princípio da independência nacional. Estas opiniões divergentes foram de uma maneira geral qualificadas de radicais pelo poder dominante, quando não de antiprogressistas, enfiando-se tudo no mesmo saco. E Portugal apanhou o comboio europeu, para usar uma expressão em voga na altura.
A maioria dos portugueses terá aceitado a ideia de pertencer à Europa como uma consequência lógica do 25 de Abril de 1974, e do fim do império colonial. A história recente, o contraponto entre o avanço económico e civilizacional da Europa, em contraste com o atraso português, aceite sem crítica por muitos espíritos, a forte emigração para França e outros países europeus, o receio de eventuais retrocessos políticos, tudo isto se conjugou para que um processo que, pelo menos, não foi contestado à partida por muita gente. Episódios que se seguiram, como a chegada das verbas do Fundo Social Europeu, e de outros organismos comunitários, ajudaram a consolidar a ideia de que se estava no caminho certo. A insuficiente experiência democrática, o hábito arreigado de deixar aos chamados “políticos” a condução de processos que a todos interessam, também terão sido decisivas para que a contestação aos processos de integração europeia, na forma e no conteúdo, fosse tão escassa. Assim chegámos aos tempos da troika e da austeridade.
As eleições europeias do próximo domingo vão ser muito afectadas por este passado próximo, é desnecessário insistir neste ponto. Os problemas internos portugueses estão cada vez mais ligados ao que se passa lá fora, não só na Europa como no resto do mundo. Contudo, essa constatação não acarreta que desistamos de tomar, autonomamente, as nossas decisões. As opções a tomar têm de ser cada vez mais as nossas. Seja-se a favor da adesão europeia, contra ela, ou sem opinião.

