Um dia Sebastião recebeu um telefonema de uma secretária da direcção do canal generalista, convidando-o a, num programa da tarde, dar uma entrevista em directo. Era um talk show concebido para donas de casa e reformados com tempo livre a mais e escolaridade a menos… Sebastião sabia que assim era, mas os fiéis da sua seita eram em maioria devotos do programa. Aceitou o convite e lá foi no Mercedes até Barcarena. As coisas não correram bem.
Saiu da maquilhagem e, ao entrar no estúdio, viu num dos muitos televisores espalhados por aquele espaço, que estava a ser passado um bloco de publicidade. Apesar da sua idade, Sebastião estava com um excelente aspecto e continuava a fazer-se notar. Sentou-se num maple onde já estava uma senhora bonita, busto opulento, 40 anos, talvez. Soube depois tratar-se de uma actriz que vinha protestar contra os magros subsídios que o Ministério da Cultura atribuía aos grupos de amadores de teatro. Esboçaram um sorriso e Sebastião sentou-se. A apresentadora sorriu-lhe também e ergueu o polegar. Ele, que não apreciava este tipo de comunicação, ergueu a bengala. Tudo parecia normal. Depois houve os habituais sinais de que a emissão em directo ia prosseguir, e a rapariga começou;
– Temos hoje connosco Sebastião Sousa, que diz ser o único apóstolo da verdadeira crença… – a voz forte de Sebastião interrompeu-a:
– Ouça, menina – sou o Doutor Sebastião Lopes-de-Souza e sou o Apóstolo Único da Verdadeira Crença!
– É o senhor que o diz… Tentou ela.
– Claro que sou eu que o digo. Havia de ser quem? Foi a mim que pediram para cá vir. E eu vim porque toda a gente – e a câmara captou o seu gesto apontando com o queixo a locutora – precisa de ouvir a minha mensagem…
Procurando retomar o comando das operações, a jovem olhou a câmara 3:
– A mensagem ficará para depois. Agora vamos ouvir Peter Ferreira que nos vai cantar Não me estragues a salada. – Sebastião recostou-se resmungando e a actriz encolheu os ombros aconselhando-lhe resignação com um aceno.
O cantor, dito popular, com duas galdérias quase nuas a bambolear-se e a emitir uns guinchos enquanto o bimbo de cabelo engordurado cantava, se cantar se pode chamar àquela emissão de sons – uma brejeirice obscena que uma assistência de pobres diabos, com algumas crianças, acompanhava balouçando os braços erguidos.
Gosto muito na salada
Da mistura de elementos
De kiwis com abacates
De cebola com tomates
E de alface com pimentos
Gosto de macedónia
Com feijão, ervilha e milho
Não sou homem de ciúmes
Muito menos de cerimónia
E aprecio um bom sarilho
Adoro uma caldeirada
Com vizinhos e vizinhas
E a mistura de legumes
Não me venhas com dislates
Larga o garfo e dá-me um beijo
Não me piques os tomates
Meu amor, é tudo ou nada
Na cozinha do desejo
Não pensei que te esquecesses
Como gosto da salada
Deixa-te de disparates
Não me piques os tomates
Para mais com um garfo desses
Uma das câmaras focava o rosto do energúmeno que, com o cabelo a escorrer gel, acentuava o seu ar de nojenta ratazana de esgoto. Sorria satisfeito com o seu engenho poético e musical, e, dançando, começara a bater palmas, incentivando a assistência a acompanhá-lo. E preparava-se para repetir o estribilho até à exaustão, com as duas vadias sacudindo as mamas e meneando os rabos, numa coreografia que seria simples até para um orangotango. Toda a gente, incluindo as crianças presentes começara a bater palmas e a acompanhar aquela ordinarice imbecil, quando se ouviu um grande estrondo, gritos, e o cantor popular se encolheu para se esquivar de um qualquer objecto voador. As câmaras rodavam sem saber onde estava o foco da acção. A cena foi mais tarde descrita por Natércia Pereira, a senhora que ia ser entrevistada no mesmo bloco de Sebastião. Até que se compreendeu o que sucedera.
Sebastião levantara-se e desferira um violento pontapé numa cadeira de plástico projectando-a na direcção do bimbo e das duas acompanhantes. A locutora dera um grande salto para trás. Ficara medonho, pois apesar da idade, mantinha-se robusto, lúcido e conservava aquela imponência natural e inexplicável que algumas pessoas trazem de nascença. Esticou a bengala na direcção da apresentadora e urrou:
– Sua idiota, atreve-se a misturar-me a mim, um Apóstolo que traz aqui, a esta estrebaria, a palavra sagrada, com este lixo, com este marginal e estas badalhocas? E levantou a perna para pontapear outra cadeira. Os três artistas fugiram e a pivô, imobilizada pelo terror, gaguejava qualquer coisa incompreensível, dizendo talvez que não era ela quem fazia a selecção dos convidados… Um novo berro a impediu de continuar
– Cale-se! Ou o Ente Divino fulmina-a já, sua vaca imbecil, mastiga-a e cospe-a…
Não pudemos comprovar, mas Natércia afirmou que, após este segundo berro, a rapariga se urinou.
Os seguranças, dois brancos e um negro robustos, aproximaram-se estudando a melhor maneira de o imobilizar. Sebastião enfrentou-os e disse-lhes com uma voz subitamente calma:
– Meus filhos, quem me tocar neste momento morrerá de morte horrível. Esperai que a cólera divina me saia do corpo. Eu acompanho-vos de boa vontade – Os homens estacaram, entreolhando-se. Nenhum deles avançou. Esperaram. Sebastião ajoelhou-se em oração ou meditação. E estava de olhos fechados, quando caiu para a frente inanimado.
A ambulância do INEM chegou. E foi com algum temor que os seguranças pegaram em Sebastião e ajudaram os paramédicos a levá-lo para a ambulância – a cólera divina já lhe teria saído do corpo?
(Excerto da novela O Leitor de Omar Khayyām)

